Vítimas de tráfico negreiro ilegal trouxeram hepatite B da África para o Brasil

Flávia Milhorance | O Globo
Pintura de Debret representa escravos enfermos recebendo cuidados médicos nos tempos do Brasil Imperial. Navios negreiros trouxeram tipos da hepatite B - Reprodução/Debret

Pintura de Debret representa escravos enfermos recebendo cuidados médicos. Reprodução.

Em porões escuros e úmidos, esfomeados, acorrentados e em condições precárias de higiene, os milhões de africanos que vinham para as Américas pelos navios negreiros eram cercados pela presença da morte. Os que sobreviviam chegavam, muitas vezes, doentes. No início do século XIX, o tráfico de escravos foi proibido. Mas o lucrativo negócio permaneceu na ilegalidade e buscou novas rotas livres de fiscalização ao longo dos anos seguintes. Em vez da costa Oeste da África, onde está Angola, os traficantes de escravos começaram a atuar na porção Leste. Com essa mudança no trajeto marítimo, houve uma consequência: a vinda da hepatite B para o Brasil. A conclusão vem de um longo estudo do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Desde a década de 1990, a virologista Selma Gomes segue pistas genéticas dos vírus que provocam a hepatite, assim como faz um detetive. E recentemente seu grupo conseguiu finalmente definir a área de sua origem. Embora a hipótese mais provável para os cientistas fosse a de que a doença tivesse sido originada na África Ocidental — de onde cinco milhões de escravos entre 1551 e 1840 foram trazidos —, a pesquisa mostrou que ela chegou ao Brasil pelos africanos orientais, provavelmente de Moçambique, que “exportou” cerca de 400 mil pessoas para o país entre 1837 e 1856. Estima-se que, no total, entre os séculos XVI e XIX, mais de 10 milhões de escravos foram vendidos para as Américas. Maior importador do continente, o Brasil recebeu mais de 40% desse total. Leia a matéria completa em O Globo Leia reportagem no site do Instituto Oswaldo Cruz Leia o artigo sobre a pesquisa na íntegra no Plos One: Hepatitis B Virus Subgenotype A1: Evolutionary Relationships between Brazilian, African and Asian Isolates, artigo de Bárbara V. Lago, Francisco C. Mello, Anna Kramvis, Christian Niel e Selma A. Gomes Leia na revista HCS-Manguinhos: Teses sobre hepatites na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1837-2000, artigo de Rosangela Gaze, Diana Maul de Carvalho, Luiz Fernando Rangel Tura, Carolina Passos Telles Taveira Martins, Vanessa Maria Tavares Lobato  

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