Uma viagem pelo céu do Recife holandês

Débora Motta | Boletim da Faperj
O quadrante astronômico reconstituído no campus do Mast é um dos pontos altos da exposição (Foto: Divulgação/Mast)

O quadrante astronômico reconstituído no campus do Mast (Foto: Divulgação/Mast)

Ter uma formação generalista era comum entre os cientistas no século XVII. Homens da ciência costumavam transitar entre os diversos campos do saber, como astronomia, botânica e matemática, e ter um amplo conhecimento das letras e artes. Assim eram os sábios que aportaram em Recife na época em que a capital pernambucana esteve sob a égide dos holandeses, liderados pelo conde João Maurício de Nassau-Siegen (1637-1645). Um desses estudiosos de múltiplos talentos, que observou o céu austral, o clima, as terras, as plantas e os animais do Brasil holandês, foi o jovem alemão Jorge Marcgrave. Ele cruzou os mares e chegou ao Brasil em 1638, em nome da Companhia das Índias Ocidentais, depois de frequentar várias universidades na Europa, entre elas a de Leiden, importante centro intelectual da República das Províncias Unidas, onde estudou medicina e astronomia. Parte dos trabalhos desse e de outros mestres é apresentada na exposição “Observações do Recife holandês”, em cartaz no Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast). “O objetivo da exposição é reconstituir os espaços construídos no Recife, durante a administração de Maurício de Nassau, para abrigar as atividades dos sábios que o acompanharam ao Novo Mundo, como Jorge Marcgrave, Guilherme Piso, que era o médico de Nassau, e os pintores que ajudaram na elaboração de um retrato da América durante o século XVII, entre eles Frans Post, Albert Eckhout e o próprio Zacharias Wagener”, resumiu a pesquisadora da Coordenação de História da Ciência do Mast e curadora Heloisa Meireles Gesteira. A exposição é um dos frutos das atividades de fomento da FAPERJ, pelo edital Apoio à Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia no Estado do Rio de Janeiro. Uma das principais atrações da exposição é um quadrante astronômico, reconstituído em tamanho real a partir das anotações históricas de Marcgrave e de pesquisas recentes desenvolvidas com o auxílio de recursos técnicos e softwares específicos. Esse instrumento científico do passado foi construído e utilizado pelo sábio para observar o céu, durante a sua estadia no Recife. Em poucas palavras, ele serve para calcular a posição, ou melhor, a medida angular de um astro, por meio de uma sombra projetada na ponta de uma régua. “Os visitantes da exposição podem participar de oficinas para entender o funcionamento do quadrante, especialmente alunos de escolas de ensino médio”, explicou Heloisa, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O quadrante era considerado um instrumento bastante moderno para os padrões da época. A partir dele, Marcgrave planejava fazer o mapa das estrelas do hemisfério Sul, que ainda eram praticamente desconhecidas, observar eclipses e planetas, e determinar a longitude de Recife, o tamanho da Terra e publicar as Tabelas Astronômicas Mauricianas, em homenagem ao seu mecenas. O quadrante foi utilizado para diversos estudos, como a observação do eclipse do Sol de 1640, mas esses objetivos ambiciosos não foram cumpridos, pois com o fim da dominação holandesa, Marcgrave também teve que retornar para a Holanda.  Antes, ele teve que realizar um trabalho em Angola, onde foi acometido por uma febre que o levou à morte, com apenas 34 anos. A ideia de reconstruir o quadrante partiu do astrônomo Oscar Toshiaki Matsuura, colaborador do Mast e pesquisador aposentado da Universidade de São Paulo (USP). “Esse instrumento não é uma réplica de um quadrante astronômico do século 17. Ele é uma reconstrução, na medida do possível, a partir dos registros que temos de como era esse instrumento na época”, explicou Heloisa. Por sua simplicidade, o quadrante – com 5 pés, ou seja, cerca de 1,6m de raio – é considerado didático. Seu funcionamento pode ser percebido com clareza pelos visitantes da exposição, ao contrário dos instrumentos modernos e miniaturizados. “O quadrante permite a releitura de uma experiência observacional realizada no Recife holandês”, completou.
Heloisa Gesteira e Oscar Matsuura apresentam um pouco da atmosfera das pesquisas no Recife holandês (Foto: Divulgação/Mast)

Heloisa Gesteira e Oscar Matsuura (Foto: Divulgação/Mast)

Encantado com o contato direto com o Novo Mundo, Marcgrave se dedicou, junto com outros cientistas, à observação da natureza brasileira. Ele fez estudos multidisciplinares sobre a flora, a fauna, os minerais, os indígenas e o céu do País. Afinal, no século XVII, sob a classificação de história natural, estavam disciplinas que hoje formam campos autônomos, como a astronomia, meteorologia, geografia, botânica, zoologia e a etnografia indígena, que compreendia a observação minuciosa dos costumes dos habitantes nativos, incluindo a forma como eles manipulavam e consumiam produtos naturais. Ele acompanhou Nassau em incursões pelos sertões conquistados pelos holandeses, em busca de metais e de apresamento indígena. Essas reflexões foram reunidas na obra História Natural do Brasil, ou Historia Naturalis Brasiliae, conforme o original, em latim, publicado em 1648. Marcgrave foi co-autor da obra, com Willem Piso, para a qual desenhou aquarelas de plantas e animais do Novo Mundo. No livro, ele descreveu exemplares da fauna e flora, como os tatus, emas, porcos, jacus e preás; e os maracujás – frutos recomendados por Marcgrave pelo “gosto e sabor”. Por sua contribuição à botânica, o sábio seria posteriormente  homenageado no nome da família botânica Marcgraviaceae e no gênero Marcgravia. No período em que esteve no Brasil holandês, o cientista ainda confeccionou mapas da região Nordeste, publicados no livro de Gaspar Beléus, História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Além da presença dos sábios no Recife holandês, a exposição destaca a existência de espaços importantes para a realização dos estudos de história natural e de astronomia: os jardins situados ao redor da residência oficial de Maurício de Nassau e o observatório, erguido no telhado da primeira casa onde o conde holandês se instalou, logo depois da sua chegada ao Recife, no atual bairro de Santo Antônio, para governar as áreas conquistadas dos portugueses. O observatório foi retratado na aquarela do pintor Zacharias Wagener. Ele foi inaugurado na noite de 15 de setembro de 1639. “Além do quadrante utilizado por Jorge Marcgrave, havia no observatório um sextante, lunetas e um relógio de pêndulo”, disse Heloisa. Serviço – Exposição “Observações do Recife holandês” Campus do Mast – Rua General Bruce, 586 – São Cristóvão – Rio de Janeiro Entrada Gratuita Telefone: (21) 3514-5229 E-mail: mast@mast.br Horário de Visitação: Terças a sextas, das 9h às 17h; Sábado, domingo e feriados das 14h às 18h Entrada permitida até 30 minutos antes do encerramento das atividades Mais informações, fotos e catálogo da exposição: www.mast.br/exposicoes_hotsites/exposicao_observacoes_do_recife_holandes/index.html Leia mais: O astrolábio e a arte de navegar Heloisa Meireles Gesteira explora livro do cosmógrafo-mor do reino de dom João V, Manuel Serrão Pimentel. O astrolábio, o mar e o Império – Artigo de Heloisa Meireles Gesteira publicado na edição “Oceanos e mares: histórias, ciências e políticas” da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Fonte: Boletim da Faperj

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