‘Uma Copa não tem a força necessária para mudar um país’

Junho/2014

Marina Lemle e Roberta Cerqueira | Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos

Martin Curi

Martin Curi

Desilusão com o país, medo de ataques de manifestantes e a frieza do “padrão Fifa” são alguns dos motivos que podem estar deixando os brasileiros menos entusiasmados do que o normal às vésperas de uma Copa – e justamente na Copa que acontece no Brasil. É o que pensa o antropólogo alemão Martin Curi, que pesquisa a relação entre futebol e a sociedade.

Curi nasceu em Munique, Alemanha, e vive no Rio de Janeiro há 12 anos. Formado em serviço social na universidade de Nuremberg e mestre em sociologia pela universidade de Hagen, fez seu doutorado em antropologia na Universidade Federal Fluminense, onde em 2012 defendeu a tese Espaços da Emoção: arquitetura futebolística, torcedores e segurança pública. É professor visitante no Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Formação de Professores da Uerj, em São Gonçalo, pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade (Nepess/UFF) e editor da revista Esporte e Sociedade. No ano passado, lançou o livro Brasilien – Land des Fußballs (Brasil – terra do futebol). Ele deu entrevista ao blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Qual a análise que você faz do país e dos estádios às vésperas da Copa?

O Maracanã está pronto, assim como os outros cinco estádios usados na Copa das Confederações. Já os outros seis estão em situação mais difícil, mas vai ter Copa mesmo nestes estádios. O padrão Fifa de estádios é frio, falta emoção. Por outro lado, os outros tinham problemas de segurança, de escoamento nos banheiros. Há melhorias e coisas críticas. A acústica é muito boa, mas não tem emoção. A Fifa faz um marketing sobre emoção, e a mídia vende isso, mas na verdade o público que assitirá a Copa é diferente do dos campeonatos nacionais, não conhece as músicas.

Poderia comparar os investimentos realizados na Copa na África do Sul e os da Copa do Brasil? Haverá legado?

Uma Copa não tem a força para mudar um país – isso é um trabalho de longo prazo. Essa grande esperança dos brasileiros de pegar um elevador do Terceiro Mundo – como se enxergam – e subir para o Primeiro foi uma exigência grande demais. Nunca uma Copa mudou um país, e as Olimpíadas também não. Não sei os números da África do Sul, mas na Alemanha foi zero a zero: o que se gastou equivale ao que se ganhou. Para ter um legado, é preciso investir na imagem, colocar o país no mapa do mundo. O Brasil tem uma imagem positiva no exterior, de país simpático e pacífico, no sentido de não ter guerras. O marketing brasileiro é fácil e foi feito. Os velhos estereótipos é que funcionam.

E o problema da segurança pública?

É uma preocupação. Neste aspecto os estereótipos são extremamente negativos. Mas muitos turistas vêm ao Brasil de qualquer forma. Os estereótipos sempre são exageros. Os brasileiros nem são tão alegres nem tão violentos.

Poderia falar um pouco da relação entre futebol e sociedade no contexto atual?

No livro que lancei no ano passado, defendi que o Brasil é o país do futebol não porque os brasileiros jogam melhor, mas porque o futebol é usado para dramatizar temas da sociedade. Usam o futebol como metáfora para falar da sociedade. Por exemplo, os clubes representam camadas sociais: o Flamengo é a classe operária, o Fluminense a elite, o Vasco são os portugueses e o Botafogo é a burguesia intelectual. Estes são os estereótipos vinculados aos clubes que entram em campo nos jogos. Há uma luta entre as camadas sociais. Já as copas têm seus temas, e o desta parece ser “Que país queremos?”, no sentido das reivindicações por melhor transporte, educação e saúde.

Você acha que haverá manifestações durante a Copa?

Sim, mas muito menores do que as do ano passado. As classes altas têm outros interesses que os movimentos sociais, que defendem os interesses de pessoas com menor poder aquisitivo. O tamanho das manifestações de um ano atrás levou as temáticas e bandeiras aos jornais internacionais, mas hoje a classe média-alta não está mais nelas. O foco da discussão pública acabou ficando na violência, e não nas reivindicações, o que é uma pena, porque as questões primordiais ficaram esvaziadas.

O título da sua tese de doutorado foi Espaços da Emoção: arquitetura futebolística, torcedores e segurança pública. Essa combinação às vésperas da Copa do Mundo chegou a um ponto explosivo. Como você vê os movimentos sociais que contestam as políticas públicas e até mesmo a realização da Copa e, por outro lado, o comportamento das autoridades públicas e da Fifa?

Ninguém tem mais coragem de se manifestar pela Copa. Há um silêncio incrível. Na Alemanha, duas semanas antes da Copa havia bandeiras da Fifa por toda parte. Aqui ela não está fazendo isso. A Globo não organizou, como em Copas passadas, um concurso de ruas decoradas. Políticos ficam calados. Está tudo meio escondido, por um conjunto de motivos diversos: as manifestações, a desilusão pelo atraso das obras da Copa e até o receio que manifestantes derrubem as decorações nas ruas.  Observo que meus amigos e vizinhos compram ingressos, colocam bandeiras e planejam seus churrascos, inclusive convidam para ver o jogo na TV.  Mas em público ninguém se pronuncia, os vizinhos e amigos são contra a Copa. Mas com certeza quando ela chegar as pessoas vão se mobilizar. E vai acontecer a festa no Alzirão (rua na Tijuca onde a festa é tradicional). Pagarão à Fifa, mas isso já estava calculado, tanto que o evento tem patrocínio e gera lucro.

Leia no blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos:

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Leia na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos:

Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República – Artigo de Christina  Peters (vol. 21, n.1,  jan.-mar. 2014)

Leia mais:

Qual será o legado deixado pela Copa? – O preço que se paga por sediar o megaevento foi tema da reportagem de capa da Revista Radis de junho.  Legado também é tema do Blog Saúde em Pauta.

O contraditório silêncio verde e amarelo – Artigo de Fábio Vasconcellos publicado na página de opinião do Globo em 3 de junho de 2014.

Como citar este post [ISO 690/2010]:

‘Uma Copa não tem a força para mudar um país’. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 8 May 2014]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/uma-copa-nao-tem-a-forca-para-mudar-um-pais/

 

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