Transgênicos e o direito de saber

Maio/2015

transgenicos“Se fosse uma coisa garantida, se fosse para o bem da população… Mas não pode ser: apesar de a gente não saber muito sobre isso, a gente tira pela base: se tem bastante gente contra, bastante gente a favor, é porque tem alguma coisa errada no meio, entendeu? Se fosse todo mundo a favor, logicamente que a coisa seria boa, mas se tem contra e a favor é porque tem coisa errada no meio…”

O raciocínio do catador de uma cooperativa de coleta seletiva reflete a desconfiança de muita gente sobre os alimentos transgênicos. Ele participou de um dos oito grupos focais de uma pesquisa sobre a percepção pública dos transgênicos realizada numa cidade do interior de São Paulo e descrita por Ariadne Chloë Furnival e Sônia Maria Pinheiro no artigo A percepção pública da informação sobre os potenciais riscos dos transgênicos na cadeia alimentar, publicado em 2008 em HCS-Manguinhos.

Segundo as autoras, nos oito grupos focais foram identificadas muitas manifestações de incerteza, dúvida e desconhecimento em relação aos transgênicos nos alimentos. Vários participantes também defenderam o direito de escolha:

“Eu acho que devia especificar: “esse é natural”, “esse é transgênico”, e a pessoa escolhe se quer consumir ou não”, disse um patrulheiro.

“O mínimo é o direito de saber o que você está comendo”, afirmou um estudante de engenharia.

Os sentimentos de desconfiança estavam ligados principalmente aos possíveis efeitos dos transgênicos sobre a saúde humana e o meio ambiente e o que poderia vir a acontecer às gerações futuras.

Na noite de 27/4/2015, a Câmara dos Deputados aprovou em plenário o Projeto de Lei que prevê a não obrigatoriedade da rotulagem de alimentos que possuem ingredientes transgênicos, prevista em Lei desde 2003. Foram 320 votos a favor e 120 contra. Os críticos consideram o PL 4148/2008, do deputado ruralista Luiz Carlos Heinze (PP-RS), um atentado ao direito à informação da população, que só beneficiaria as empresas do agronegócio ao permitir que escondam a origem do produto comercializado. O PL agora vai para o Senado.

HCS-Manguinhos publicou no ano 2000 o Dossiê Transgênicos e voltou a tratar do tema no final daquela década.

Leia em HCS-Manguinhos:

Furnival, Ariadne Chloë and Pinheiro, Sônia Maria A percepção pública da informação sobre os potenciais riscos dos transgênicos na cadeia alimentarHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2008, vol.15, no.2, p.277-291. ISSN 0104-5970

Rothberg, Danilo and Berbel, Danilo Brancalhão Enquadramentos de transgênicos nos jornais paulistas: informação como potencial subsídio à participação política. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2010, vol.17, no.2, p.455-470. ISSN 0104-5970

Camara, Maria Clara Coelho et al. Transgênicos: avaliação da possível (in)segurança alimentar através da produção científica. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Set 2009, vol.16, no.3, p.669-681. ISSN 0104-5970

Dossiê Transgênicos – Hist. cienc. saude-Manguinhos v.7 n.2 Rio de Janeiro jul./out. 2000

Leave a Reply