Teatro natalino de escravos no Brasil no olhar de um botânico europeu

Outubro/2017

Estudando o botânico britânico George Gardner (1812 – 1849), o professor José Carlos Barreiro, da Unesp/Assis, encontrou a descrição minuciosa de uma dança ritual encenada por escravos do Rio de Janeiro na noite de Natal de 1836, em frente à varanda da casa de um inglês proprietário da fazenda, George March. Em seu relato, Gardner disse ter visto outras, mas todas eram muito grosseiras. Então resolveu descrever a que ele achou menos “rude”.

Sede da fazenda de Santa Ana de Paquequer, de George March, na Serra dos Órgãos, por William Gore Ousely, 1838 (Ferrez, 1970)

No artigo O botânico George Gardner e suas impressões sobre a cultura escrava no Brasil: Rio de Janeiro, 1810-1850, publicado nesta edição de HCS-Manguinhos (vol.24, no.3, jul./set. 2017), Barreiro conta que os escravos, em seu desempenho, inverteram o significado dos elementos religiosos da festa tradicional, que trazia sempre mensagem de amizade e reverências ao Menino Jesus. Conflito e violência marcaram o tom geral do ritual, que compreendia dança e música com instrumentos e diálogos entre os atores participantes, dentre os quais um padre com aparência de diabo, que se sentindo incomodado por aquele “barulho” enviou seu servente para pedir que parassem com a apresentação. Não sendo obedecido o padre apareceu depois, muito irritado, tentando acabar com o barulho. Contudo, gostou e dançou efusivamente, mas ao final chicoteou todos e a dança termina.

Tropa atravessando a Baixada Fluminense com a serra dos Órgãos ao fundo. Desenho de João Maurício Rugendas litografado por John Scweicker (Ferrez, 1970)

Havia notícia de outras festas de Natal de escravos que ocorreriam em outras partes do Brasil e das Américas. Anteriormente, em Trinidad e Tobago, no Natal de 1805, em uma revolta sufocada pelos fazendeiros, os escravos satirizaram o ritual católico eucarístico da restauração da vida através do pão e do vinho, cantando versos que o pão e o vinho eram a carne e o sangue do homem branco que iriam comer e beber no Natal.

Desvelando o olhar eurocêntrico de Gardner e decodificando a linguagem simbólica do ritual, descobriu-se que a criatividade cultural dos escravos ganhava uma dimensão Atlântica. Através dela, infundiam significado e emoção ao seu mundo e criticavam a ordem social existente. A pesquisa foi financiada pelo CNPq e a Fapesp. Leia em HCS-Manguinhos: O botânico George Gardner e suas impressões sobre a cultura escrava no Brasil: Rio de Janeiro, 1810-1850, artigo de José Carlos Barreiro (vol.24, no.3, jul./set. 2017) Desta edição, acesse também: Sumário Carta do Editor Como citar este post: Teatro de escravos negros no olhar de botânico britânico. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2017. Publicado em 16 de outubro de 2017. Acesso em 16 de outubro de 2017. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/teatro-de-escravos-negros-no-olhar-de-botanico-britanico

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