Saneamento e urbanização como pauta da saúde: o caso de Eliasz Cynamon

Junho/2018

Cristiane d’Avila / Jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação (DAD/COC)

Fossa tipo Cynamon. Foto tirada por Cynamon e apresentada por ele em um dos cursos de formação de inspetores sanitários, s.d. (DSSA/Ensp/Fiocruz)

 Um rio, duas histórias. O rio Doce, a maior bacia hidrográfica da região sudeste, que corta os estados de Minas Gerais e Espírito Santo por mais de 800 quilômetros, já conheceu dias bem mais promissores. Longe do cenário de lama e destruição causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, em 2015, o Doce testemunhou, há exatos 75 anos, a efetivação de um programa de saúde e saneamento até então inédito, responsável pela reversão de um quadro de moléstias e pela instalação de sistemas de água limpa e esgoto para a população dos municípios da região. A convergência de ações de engenharia sanitária e educação associadas à saúde pública impetradas por um cientista da Fiocruz, em meados do século 20, é o tema do artigo “Eliasz Cynamon e o Programa do Rio Doce (Sesp): contribuição de fontes para a história das ações de saúde e saneamento no Brasil, 1952-1960”, de Renato Gama-Rosa (COC/Fiocruz), Simone Cynamon Cohen (Ensp/Fiocruz) e Camila Nunes Soterio (COC/Fiocruz), publicado na seção Fontes da primeira edição de 2018 da revista HCSM.

Szachna Eliasz Cynamon. O nome (pronuncia-se “Charna Eliá Cinamôn”), de origem polonesa, simboliza também um marco na história da engenharia sanitária e do saneamento ambiental no Brasil, temas tão caros a um país em que, hoje, aproximadamente 50% das habitações, seja no campo ou nas cidades, carecem de infraestrutura adequada de coleta e tratamento de água e esgoto. Cynamon, um então jovem engenheiro em 1952, trabalhou em obras para instalações de infraestrutura para tratamento e abastecimento de água e esgoto em pequenos municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, além de realizar cursos de educação sanitária para a população da região. Anos depois, em 1965, seria o criador do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (DSSA) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), da Fiocruz.

Com base em documentos sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da COC[1] e de Saneamento e Saúde Ambiental da Ensp, e de acervo pertencente à família do pesquisador, os autores descrevem o Programa Rio Doce, em que um acordo bilateral Brasil-EUA, responsável pela criação do Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), previa, como contrapartida à exploração do ferro, outros minérios e da borracha, a instalação de serviços de saneamento e de saúde pública em cidades do interior do país. Como funcionário do Sesp, Cynamon era responsável pelo programa nas cidades de Governador Valadares (MG), Aimorés (MG) e Colatina (ES).

Segundo os autores do artigo Eliasz Cynamon e o Programa do Rio Doce (Sesp): contribuição de fontes para a história das ações de saúde e saneamento no Brasil, 1952-1960, publicado em HCS-Manguinhos por Renato Gama-Rosa Costa, Simone Cynamon Cohen e Camila Nunes Soterio (vol.25, no.1, mar/2018), para atender ao acordo firmado entre os dois países visando à criação do Sesp foram estabelecidas duas estratégias. A primeira compreendia ações de saneamento no vale amazônico, a fim de facilitar o controle da malária entre os trabalhadores dedicados à extração da borracha. Da mesma forma, competia ao serviço, por conta da exploração de ferro e de outros minérios, o saneamento de regiões no interior de Minas Gerais e Espírito Santo, especialmente no vale do rio Doce, e a profilaxia da malária.

A segunda estratégia previa o preparo dos profissionais para o trabalho de saúde pública, incluindo o aperfeiçoamento de médicos e engenheiros sanitaristas, a formação de enfermeiras e a realização de cursos técnicos. As três principais cidades do vale, Governador Valadares, Colatina e Aimorés receberam, portanto, intervenções não apenas para o controle do mosquito transmissor e o tratamento de moléstias, como malária e parasitoses intestinais, mas também para a promoção de melhorias nas moradias existentes através de obras de engenharia sanitária. Com base nesse conceito de atuação, o engenheiro projetaria um modelo de fossa seca dupla, que ficaria conhecida como fossa tipo Cynamon.

“O diagnóstico de Cynamon auxiliava no conhecimento acerca do tipo de doença associada a diferentes atividades de saneamento. Tais ações se integravam às de instalação de sistemas de esgoto, bem como ao desenvolvimento e distribuição de abastecimento geral de água livre de contaminação”, ressaltam os pesquisadores. Somavam-se a essas iniciativas ações educativas, para as quais a participação de Cynamon foi decisiva. Tratava-se, dessa forma, de uma agenda inovadora, de expansão da presença do Estado no território brasileiros por meio de processos de saúde coletiva, medicina social e saneamento, a partir de um conceito ampliado de saúde. Tais ações podem ser compreendias em sua totalidade na leitura do artigo completo.

[1] O acervo arquivístico de valor permanente e histórico sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), disponível para consulta, é composto por mais de 110 fundos e coleções. Fonte preciosa para pesquisadores da memória e da história da saúde no Brasil, o acervo surpreende pela riqueza e volume de documentos, dos gêneros textual, iconográfico, sonoro e filmográfico, datados predominantemente nos séculos 19 e 20 – e por fontes relativas à formação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Leia em HCS-Manguinhos:

Eliasz Cynamon e o Programa do Rio Doce (Sesp): contribuição de fontes para a história das ações de saúde e saneamento no Brasil, 1952-1960, artigo de Renato Gama-Rosa Costa, Simone Cynamon Cohen e Camila Nunes Soterio (vol.25, no.1, mar/2018)

Como citar este post:

Saneamento e urbanização como pauta da saúde: o caso de Eliasz Cynamon, Blog da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2018. Publicado em 02 de julho de 2018. Acesso em 02 de julho de 2018. Disponível em  www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/saneamento-e-urbanizacao-como-pauta-da-saude-o-caso-de-eliasz-cynamon

 

 

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