Sambaquis desvendam hábitos de populações passadas

Junho/2013

Fornecer informações sobre hábitos, rotas migratórias, evolução de doenças infecciosas, além da higiene e formas de relacionamento das populações antigas são algumas das diversas atribuições da paleoparasitologia. Esse tipo de estudo, que promove a interação entre a parasitologia, arqueologia, paleontologia, história, geografia, antropologia, biologia e outras ciências, foi tema de um seminário desenvolvido pela ENSP e o Museu Nacional (UFRJ), marcando o encerramento das pesquisas do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex/Faperj) e a abertura dos trabalhos do edital Inova-ENSP. O encontro ocorreu dia 5/6 e apresentou resultados dos estudos desenvolvidos em sambaquis brasileiros, principalmente no litoral do Rio de Janeiro e Santa Catarina. Foram encontradas diferenças quanto às formas de organização social e demográfica desses povos pré-históricos, além das condições de saúde, tipo de alimentação e dieta.

A atividade foi realizada na Escola Nacional de Saúde Pública pelo grupo de pesquisa em Paleopatologia, Paleoparasitologia e Paleoepidemiologia e coordenada pelas pesquisadoras Sheila Mendonça de Souza (ENSP), Maria Dulce Gaspar e Claudia Rodrigues-Carvalho (ambas da UFRJ). Ao introduzir o assunto, a vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico lembrou que, embora os estudos desenvolvidos por essas áreas permitam identificar infecções que acometiam populações no passado, a pesquisa exige investimentos na adaptação e desenvolvimento de procedimentos para coleta, armazenamento, análise e conservação de amostras, com aplicações em vários campos.

“As novas técnicas e métodos desenvolvidos nas pesquisas da paleopatologia têm beneficiado não apenas o desenvolvimento do próprio campo, como de campos afins e muito mais diretamente relacionados às questões contemporâneas da saúde, como a área de estudos do ambiente natural e a área de estudos forenses”, exemplificou Sheila.
Saúde, ambiente e vida no litoral: os construtores de sambaquis
foi o título do projeto desenvolvido ao longo de três anos pelos pesquisadores da ENSP e do Museu Nacional.

Uma das apresentações foi da pesquisadora Andrea Lessa, da UFRJ. No trabalho Traumatismos Agudos em Grupos Sambaquieiros da costa brasileira, ela constatou baixo nível de tensão social nos sambaquis. “Os grupos sambaquieiros não pautavam suas relações sociais intra e intergrupais a partir de rixas e disputas relacionadas com o embate corporal. No total de 227 indivíduos analisados, 3,1% apresentaram sinal de traumatismo relacionado à violência”, justificou a palestrante.

Já a respeito dos traumatismos agudos acidentais, os sítios do litoral do Rio de Janeiro apontaram distintos mecanismos de fraturas. “Mesmo entre grupos que apresentam certa unidade sociocultural e econômica, é possível notar particularidades que os diferenciam”, admitiu Lessa.


Para exemplificar, abordou as fraturas dos ossos escavados nos sambaquis Zé Espinho, Beirada e Ilhote Leste. “No primeiro, houve predomínio de quedas com apoio nos membros inferiores e impactos sobre o eixo vertebral. Desse modo, ambos os mecanismos de fratura estariam associados a quedas de grandes alturas nas posições sentada ou de pé, provavelmente ocasionadas por escalada de árvores altas. No Beirada, encontramos predomínio de quedas com apoio nos membros superiores, que podem ser resultado de constantes deslocamentos sobre os costões rochosos, enquanto, no sambaqui Ilhote do Leste, o percentual total de acidentados foi expressivamente mais baixo. Isso pode estar relacionado às formas de deslocamento por via aquática para outros pontos da ilha.”

Sobre a osteoartrose (OA), a pesquisadora Claudia Rodrigues-Carvalho, também do Museu Nacional, encontrou diferentes particularidades nos sambaquis de Cabeçuda (SC) e nos Sítios Fluminenses. Em SC, o conjunto articular mais afetado pela AO, nos membros superiores, foi o cotovelo. Já nos membros inferiores, foram joelho e tornozelo. Entre os homens, os conjuntos articulares mais atingidos foram punho, quadril e tornozelo, enquanto entre as mulheres foram ombro, cotovelo e joelho. “Nos sítios do RJ, encontramos maior solicitação mecânico-muscular no sexo masculino, sinais de lateralidade pouco expressivos, além de punho, cotovelo e joelho mais afetados”, afirmou.

Lançamento do livro
O trabalho desenvolvido pela ENSP e o Museu Nacional resultou no livro Abordagens Estratégicas em Sambaquis, organizado por Maria Dulce Gaspar e Sheila Mendonça, lançado durante o seminário. Também foi apresentado um guia ilustrado para pesquisa em sambaquis. A atividade teve presença da chefe do departamento de Endemias Samuel Pessoa (Densp/ENSP), Marly Marques da Cruz, e da pesquisadora Margareth Portela, que fez parte da criação das duas edições do Inova-ENSP.
As pesquisadoras que atuam no Laboratório de Paleoparasitologia da ENSP, Juliana Dutra e Daniela Leles, também participaram do seminário. Elas falaram sobre os métodos e inovações em microscopia eletrônica aplicada à paleoparasitologia e o trabalho a ser desenvolvido no edital Inova-ENSP, intitulado Estudos sobre origem e evolução de doença: desenvolvimento de protocolos aplicáveis em material de acervos e coleções, sob a coordenação do pesquisador Adauto Araújo.

Os sambaquis

Os sambaquis são um tipo de sítio arqueológico muito comum no Brasil. Estão localizados principalmente entre o Espírito Santo e Santa Catarina, mas existem vários tipos de sítios. Os sambaquis são construções entre 3 e 5 metros de restos de conchas e terras, principalmente para fazer enterro dos mortos.

Fonte: Informe Ensp

Foto da capa: Reprodução de apresentação de Sheila Mendonça

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