‘Sal Pinotti’ contra malária na Amazônia

Julho/2015

salpinottiO “duende da Amazônia”, como a malária era chamada por Oswaldo Cruz, mereceu atenção de diversas agências nacionais e internacionais no curso do século 20. Na década de 1950, um novo método de combate à doença ganhou importância internacional: o sal medicamentoso de Mario Pinotti. O chamado sal cloroquinado foi testado na região amazônica desde 1952, tornando-se um dos pilares das ações da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA). O medicamento, posteriormente, foi incorporado como um dos recursos utilizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) à Campanha de Erradicação da Malária (CEM), a partir de 1958. Além dessas ações oficiais, outro aliado importante no combate à doença, especificamente, no Pará, foi a cobertura da imprensa. De acordo com Elis Regina Corrêa Vieira, da Universidade Federal do Pará, veículos, como a Folha do Norte, o Estado do Pará e A Palavra, ajudaram a divulgar o discurso do saneamento e da profilaxia rural no período. No workshop Doenças Tropicais na América Latina e no Caribe: uma Perspectiva Histórica, realizado entre 1º e 3 de julho, o pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz Rômulo de Paula Andrade analisou o tema na conferência A saúde em tempos de desenvolvimento: a Campanha de Erradicação da Malária na Amazônia. Segundo ele, os funcionários do Serviço Nacional de Malária (SNM) não abordavam apenas as questões técnicas, mas também impressões da população local em seus relatórios.  Rômulo se dedicou a estudar os primeiros trabalhos de campo do malariologista Mário Pinotti, por meio de relatórios e artigos científicos. Também analisou o filme Malária no Inferno Verde, de 1954 feito pela Jean Manzon Films, cujo objetivo era divulgar os trabalhos do SNM na Amazônia, abordando o uso do sal cloroquinado, a natureza e a população dessa região. “No cinejornal, a ciência, a saúde e o desenvolvimento se articulavam sob um contexto de ‘otimismo sanitário’, relacionando à sonhada erradicação da malária na superação do subdesenvolvimento local”, disse Rômulo durante sua apresentação. A região possuía “todos os requisitos [de miséria], para que a população pudesse ingerir o medicamento: pouco acesso aos remédios e controle da alimentação”, explicou. De acordo com o pesquisador, a retirada do sal comum do cardápio dos moradores e o acréscimo do sal cloroquinado indicam que houve imposição da medida à população. O combate tradicional, feito com uso do Dicloro-Difenil Tricloroetano (DDT), representava gastos excessivos, não atingia o interior da Amazônia e enfrentava resistência do mosquito. Inspirado no sal iodado, houve a substituição com a aplicação do sal medicamentoso de Pinotti. Ascensão e queda O início dos testes para aplicação do ‘Sal Pinotti’ começou em 1952, no Rio Capim, no Pará.  Entre as razões para a escolha da localidade, estão o índice parasitêmico satisfatório, predomínio de alimentação fresca (baseada na caça e pesca, demonstrando que a população local faria a ingestão regular do sal cloroquinado, nas doses diárias previstas), alta infestação do vetor da malária, elevado preço cobrado no comércio pelos antimaláricos, o que praticamente impossibilitava ou reduzia a doses insuficientes a medicação dos habitantes. As pesquisas também foram feitas em Aracaji e Guarapiranga, no Maranhão, onde as autoridades fizeram o controle do comércio e distribuição de medicamentos contra a malária. O surto na Ilha de Marajó mereceu destaque na imprensa, como revelou Rômulo Andrade. Duas mil pessoas morreram, segundo os registros. Sobre o caso, o Jornal do Brasil publicou matéria em 16 de outubro de 1966: “(..) Vilarejo de Pracuúbua, (400 habitantes) quase a totalidade da população morta e ocupada somente por animais domésticos, muitos dos quais tinham se retirado para o campo, fugindo do mau cheiro que dominava a cidade, onde numerosos cadáveres permaneciam insepultos. Os cinco cemitérios da ilha estavam inteiramente lotados. (…) a cena mais vista era dos barracos com apenas os cachorros e os papagaios, porque os membros da família estavam mortos dentro das casas. (…) A Igreja de Muana tinha deixado de repicar os sinos em sinal de protesto contra o abandono que as populações da Ilha ficaram relegados (…)” Os resultados positivos impulsionaram Pinotti a publicar artigos divulgando sua nova descoberta científica. Isso aconteceu no periódico oficial do SNM com a publicação da palestra que proferiu no XI Congresso Brasileiro de Higiene, em novembro de 1953. Ele destacava os benefícios que o controle de malária proporcionava ao país, citando dados sobre a “drástica diminuição do total de vítimas da doença, redução estimada em 95%”, revelou Rômulo, que defendeu tese sobre o tema na Casa de Oswaldo Cruz. Desta forma, o controle doméstico e a aplicação do DDT no litoral continuariam trazendo diminuições nos números de enfermos. Demonstrando o prestígio e a articulação política de Mário Pinotti, levando-se e conta que o programa estava em fase experimental, a descoberta foi incluída em projetos políticos. Em 1955, o Plano Quinquenal do governo direcionava ações de combate à malária para o sal cloroquinado, que ganhou prioridade no plano de ação para a Amazônia. Segundo Rômulo, o malariologista Fernando Bustamante, então coordenador da CEM no Brasil, publicou artigo em 1959 demonstrando otimismo em relação ao método Pinotti. Mas apontava possíveis problemas na aplicação do produto, mesmo confiando que seriam “perfeitamente contornáveis”. Entre as dificuldades, estaria o custo, que ficaria mais elevado, “porque parte do sal consumido não se destinava ao preparo de alimentos, mas à salga de peixes e carnes”, apontou o pesquisador. Também era recomendada por Bustamante a adoção de regras legais proibindo a venda e consumo de sal grosso na região, embora soubesse que tais medidas poderiam ser mal recebidas, devido ao aumento de custo e, principalmente, por contrariarem hábitos tradicionais, acrescentou o pesquisador da COC. Havia problema ainda quanto ao sal de mesa, consumido pelos habitantes das capitais, cuja entrada não era controlada. Outra dificuldade era que a população não gostava do sabor do medicamento, que era amargo; houve desconsideração da cultura local e surgiram cepas cloroquino resistentes. No início da década de 1960, os primeiros problemas na adoção do sal cloroquinado eram detectados por profissionais ligados ao Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERU). O químico Ernest Paulini, por exemplo, foi solicitado pela OMS para instalar serviços de sal cloroquinado em regiões da Ásia e África; as regiões tinham características semelhantes às encontradas na Amazônia brasileira. O método Pinotti foi utilizado inclusive no programa de erradicação da enfermidade na Guiana Inglesa, destaca Rômulo Andrade. “Junto às críticas em relação ao sal, o criador do novo método também passava por um período de inferno político. No período das eleições presidenciais, Pinotti foi afastado do Ministério da Saúde por Juscelino Kubitschek devido às relações com o Partido Social Progressista (PSP) de Ademar de Barros e aos ajustes políticos que antecederam o pleito de outubro de 1960”, destaca em trecho de sua tese ao se referir às dificuldades de Pinotti. “Posteriormente, durante o governo Jânio Quadros, ele e seus colaboradores foram alvo de acusações e inquéritos. O médico então se retirou da vida pública para sempre. Durante o regime militar, seu inquérito foi arquivado por falta de provas”, contou Rômulo sobre o período difícil do malariologista. No cenário internacional, as baixas de soldados americanos causadas pela malária na guerra do Vietnã ajudaram a consolidar a noção de que as pesquisas em torno dos medicamentos deveriam ser redirecionadas. “Artigos científicos da época mostraram uma mudança dos alvos das pesquisas no tocante à quimioterapia como peça fundamental na cura da doença, trazendo alterações na estratégia de interrupção do ciclo do parasito”, explica Rômulo. Nos relatórios da OMS, também circulavam notícias sobre a resistência do Anopheles ao DDT. Com diversos anúncios de casos de resistência à cloroquina e da inadequação das estratégias do programa em regiões, como Tailândia, Colômbia, sul e sudeste asiático, bacia amazônica e países da África subtropical, torna-se evidente a necessidade de reavaliação dos protocolos e das ações de combate à doença. “Logo depois, as críticas no cenário internacional surgiram apontando diversas falhas, como as citadas acima. Diante disso, o sal cloroquinado deixou de ser utilizado na Amazônia, em 1961, que retornou ao estágio preparatório da campanha”, finaliza o pesquisador sobre a derrocada do combate à malária pelo método Pinotti. Imprensa desempenhou protagonismo em campanha no Pará
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Elis Regina Corrêa Vieira. Foto: Roberto Jesus Oscar.

A malária também foi tema da apresentação de Elis Regina Corrêa Vieira, da Universidade Federal do Pará (UFPA), ao analisar o papel da imprensa local e em torno das campanhas pelo saneamento rural durante o surto epidêmico no estado em 1917. Segundo ela, eram denunciados diariamente o avanço dos casos e o precário estado sanitário da maioria da população. “Houve intenso debate sobre o saneamento rural apontado como condição indispensável para o desenvolvimento do estado”, afirmou. Na apresentação ela destacou a cobertura dos jornais Folha do Norte, o Estado do Pará e A Palavra. Para Vieira, os veículos contribuíram para tornar hegemônico o discurso do saneamento e da profilaxia rural no período. Ela afirmou que a imprensa desempenhou papel fundamental para a legitimação social do higienismo e da medicina tropical na região. De acordo com Elis Regina Vieira, o contexto geral seguia o discurso do médico Miguel Pereira, de que “o Brasil é um imenso hospital”. Ela acrescentou que havia relatórios das expedições à região Centro-Oeste feitas por Arthur Neiva e Belisário Penna em 1916. As expedições dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz se destacaram entre as demais realizadas na época como a mais rica e contundente em observações de caráter sociológico. Quatro anos depois da partida, os pesquisadores publicaram amplo relatório denunciando as más condições de saúde e de vida da população rural do Brasil. Nesse processo, “os jornais participaram ativamente cobrando do Estado a urgente intervenção sanitária nos subúrbios de Belém e no interior do estado”, afirmou Vieira. Além disso, a imprensa defendeu que “noções de higiene fossem inseridas no currículo das escolas rurais e, algumas vezes, publicou artigos tentando vulgarizar a profilaxia de doenças como a malária e a ancilostomíase”, concluiu a pesquisadora da UFPA. Fonte: Casa de Oswaldo Cruz Baixe em PDF:  Imprensa paraense, malária e as campanhas pelo saneamento rural (1917-1920), por Elis Regina Corrêa Vieira. Leia em História, Ciências, Saúde – Manguinhos: Um método chamado Pinotti: sal medicamentoso, malária e saúde internacional (1952-1960)Silva, Renato da and Hochman, Gilberto (jun 2011, vol.18, no.2) Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazôniaartigo de Nisia Trindade Lima  (v.20, n.3, jul.-set 2013) As representações da malária na obra de João Guimarães RosaLacerda-Queiroz, Norinne, Queiroz Sobrinho, Antônio and Teixeira, Antônio Lúcio (jun 2012, vol.19, no.2). 2011_numero02Dossiê Malária (abr.-jun. 2011) Malaria epidemics in Europe after the First World War: the early stages of an international approach to the control of the diseaseGachelin, Gabriel and Opinel, Annick (jun 2011, vol.18, no.2) O medo do sertão: a malária e a Comissão Rondon (1907-1915), Caser, Arthur Torres and Sá, Dominichi Miranda (jun 2011, vol.18, no.2) Ferrovias, doenças e medicina tropical no Brasil da Primeira República, Benchimol, Jaime Larry and Silva, André Felipe Cândido da (set 2008, vol.15, no.3) A malária em foto: imagens de campanhas e ações no Brasil da primeira metade do século XX, Hochman, Gilberto, Mello, Maria Teresa Bandeira de and Santos, Paulo Roberto Elian dos (2002, vol.9) Leia também: Malaria and quinine resistance: a medical scientific issue between Brazil and Germany (1907–1919)Da Silva AFC, Benchimol JL: . Med Hist 2014, 58:1–26. Leia no blog de HCS-Manguinhos: Malária, maleita, doença e desejo Nisia Trindade Lima e André Botelho discutem as visões do médico Carlos Chagas e do poeta Mario de Andrade sobre a moléstia. Mais notícias do workshop sobre doenças tropicais: Pesquisadora investiga por que a hanseníase continua endêmica no Brasil Roseli Martins Tristão Maciel, da Universidade Estadual de Goiás, apresentou trabalho no workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz. Harald Sioli e a esquistossomose na Fordlândia, 1950 O historiador André Felipe Cândido da Silva revela as descobertas do limnologista alemão em workshop sobre doenças tropicais na Fiocruz Historiadora estuda o combate ao ‘amarellão’ no RS na década de 1920 Em workshop na Fiocruz, Ana Paula Korndörfer abordou a cooperação entre o governo estadual e a Fundação Rockfeller contra a doença Historiador estuda acervo do Asilo São Vicente de Paulo, em Goiás Internos cuidados por irmãs dominicanas entre 1909 e 1946 tinham lepra, doenças mentais e doenças tropicais, como Chagas, malária, leptospirose e dengue, revela Rildo Bento de Souza, da UFG Pesquisa investiga botica de hospital militar de Goiás em fins do século XVIII Trabalho de pesquisadores da UFG foi apresentado no workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz, no Rio Ideias de raça influenciaram diagnóstico da febre amarela no Caribe no início do séc. 20 Tara Innis, da Universidade de West Indies, em Trinidad e Tobago, participou de mesa no workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz de 1º a 3 de julho. ‘As colônias deram mais do que receberam’ Rita Pemberton, professora da Universidade de York especialista na história de Trinidad e Tobago, proferiu uma das mais aguardadas palestras do workshop ‘Sal Pinotti’ contra malária na Amazônia No workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz, Rômulo de Paula Andrade abordou a estratégia na Amazônia nos anos 1950 e Elis Regina Corrêa Vieira falou sobre o papel da imprensa paraense no surto de 1917. 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