Revisão por pares: do ‘duplo-cego’ à abertura total

Julho/2019

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Nelson Sanjad, Karina Ramacciotti e Stefan Pohl

Todos os 90 periódicos que formam a coleção de ciências humanas no portal SciELO utilizam o sistema tradicional de avaliação de artigos “duplo-cego”, no qual o parecerista não sabe quem é o autor do artigo e vice-versa. Porém, a capacidade da avaliação por pares de garantir a qualidade de um artigo tem sido colocada em xeque pelo movimento mundial em favor da ciência aberta.

A questão foi trazida a debate pelo historiador Nelson Sanjad, ex-editor do Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi – Ciências Humanas e editor-adjunto de História, Ciências, Saúde-Manguinhos, na mesa “Revisão por pares: potenciais, dificuldades e tendências”, realizada em 27 de junho de 2019, no workshop “Presente e futuro das publicações de história: debates por 25 anos de História, Ciências, Saúde – Manguinhos”, na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

A mesa discutiu os prós e contras do sistema atual de avaliação e das novas propostas da ciência aberta (open science). O movimento defende a abertura dos sistemas de avaliação científica, além do acesso a publicações, dados de pesquisa, softwares e recursos educacionais. Tais demandas levam ao desenvolvimento de novas experiências editoriais, que incluem a abertura das identidades de autores e avaliadores, a transparência dos manuscritos e pareceres em todas as fases, o estímulo à interação entre as partes e o uso de plataformas abertas para a realização de todo o processo.

Nelson Sanjad

De acordo com Sanjad, entre os problemas atribuídos à avaliação por pares estão a insegurança e a inconsistência dos pareceres, o que se perceberia pelo baixo nível de concordância entre pareceres e a incapacidade dos avaliadores de prevenir erros e fraudes. Pode haver ainda, segundo ele, desvios relacionados a gênero, nacionalidade, afiliação institucional, língua, área de conhecimento, abordagens teóricas e metodologias. O sistema também levaria a atrasos e aumentos de custo, mas isso, na opinião do editor, é mais um problema de gestão dos editores do que do sistema em si. Outro entrave é falta de incentivos financeiros e de reconhecimento aos pareceristas. Por fim, em função do anonimato da avaliação “duplo-cego”, desperdiçam-se trocas de informação e sugestões.

Apesar de reconhecer os problemas do sistema atual de revisão por pares, Sanjad acredita que sim, é possível garantir a qualidade do processo. Para ele, os pontos chave do sistema são o editor e o autor. Para melhorar a avaliação, editores podem dedicar mais tempo e serem mais rigorosos na pré-análise do manuscrito. Também não devem abrir mão do seu papel como mediadores do processo editorial. Já o autor deveria poder escolher se deseja ou não manter o anonimato. Poderia, ainda, sugerir avaliadores e indicar quais devem ser evitados.

Segundo Sanjad, nas áreas de ciências sociais e humanidades, o debate sobre ciência aberta ainda é restrito. Como a América Latina carece de experiências que permitam uma análise sobre o funcionamento e a eficiência de modelos alternativos de revisão por pares, a reflexão sobre o modelo aberto baseia-se apenas em experiências realizadas em outras áreas científicas e outros países.

As revistas, de acordo com Sanjad, podem publicar os relatórios de avaliação, adotar servidores de pre-print, incentivar comentários em versões finais e implantar a revisão aberta na sua integralidade (identidades reveladas, pre-print, publicação de relatórios, interação dos atores e participação da comunidade). Bases como o SciELO podem criar estratégias para evitar fraude e melhorar os processos editoriais. E os cursos de pós-graduação poderiam incentivar o treinamento de avaliadores e editores, assim como o debate sobre comunicação científica.

Maria Luísa Sousa

Editora-chefe da única revista de história de Portugal dedicada à história da ciência, tecnologia e medicina, a HoST — Journal of History of Science and Technology, Maria Luísa Sousa disse que não está provado que a revisão por pares aberta contribua para resolver eventuais problemas apontados à revisão por pares fechada. Porém, ela concorda que a publicação de relatórios dos avaliadores, juntamente com as suas identidades, poderá gerar incentivo aos avaliadores, no sentido de ter seu trabalho reconhecido e poder pontuar para a progressão na carreira e a avaliação em concursos.

“Isto já é feito em plataformas como a Publons, que têm formas de o trabalho de revisão por pares ser reconhecido como trabalho científico”, contou. Ela acrescentou que os movimentos de ciência aberta em Portugal têm sido feitos de cima para baixo, pelas agências de financiamento da ciência da União Europeia e nacional. Fundada em 2007 para suprir a demanda de historiadores portugueses por internacionalização, a HoST é uma revista de acesso aberto com sistema de avaliação “duplo-cego”, publicada em inglês e disponível online.

Para Luísa, a revisão por pares fechada pode ter o problema da falta de transparência, podendo um avaliador, por estar em competição com o autor, fazer um parecer baseado nos seus interesses pessoais. Nesse sentido, afirmou, a avaliação duplamente cega evitaria avaliações enviesadas por preconceitos de gênero, de afiliação institucional, de proveniência geográfica e lugar na carreira.

Stefan Pohl e Karina Ramacciotti

Karina Ramacciotti, professora de história social da Universidade Nacional de Quilmes, Argentina, pesquisadora do Conicet, e editora adjunta de HCS-Manguinhos, e Stefan Pohl Valero, da Universidade do Rosário, Colômbia, também abordaram suas experiências com revisão por pares em revistas científicas. Ramacciotti contou que foi editora de dois periódicos argentinos em diferentes momentos – Nuevo Topo – Revista de História e Pensamento Crítico, que teve seis edições entre 2005 e 2008, e Estudos Sociais do Estado, publicada dez anos depois, que tem como foco o debate sobre políticas públicas.

Karina focalizou mudanças nos modos de produção, circulação e legitimação das revistas na última década. Para ela, as demandas e as métricas às quais os pesquisadores estão sujeitos tornam a avaliação um processo mais difícil hoje.

Stefan Pohl, editor da seção dedicada aos “Estudos Sociais da Saúde” da revista Ciências da Saúde e editor-adjunto de HCS-Manguinhos explicou o processo de avaliação de sua seção e listou os critérios que os avaliadores devem levar em consideração.

Para Pohl, o anonimato costuma ser relativo, pois é fácil saber quem são os avaliadores e os autores. Ele explicou que outra maneira de escolher os avaliadores seria olhar as principais referências que o autor usa e convidá-las a avaliar o manuscrito. Saiba mais sobre as apresentações de Karina Ramacciotti e Stefan Pohl no Blog de HCS-Manguinhos em espanhol.

Como citar este post:

Revisão por pares: entre o ‘duplo-cego’ e a transparência total do processo de avaliação de artigos. Blog de HCS-Manguinhos. Publicada em 26 de julho de 2019. Acessado em 26 de julho de 2019. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/revisao-por-pares-entre-o-duplo-cego-e-a-transparencia-total-do-processo-de-avaliacao-de-artigos

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