Pareceres abertos, desde que em comum acordo

Agosto/2019

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Maria Luísa Sousa

Editora-chefe da única revista de história de Portugal dedicada à história da ciência, tecnologia e medicina, a HoST — Journal of History of Science and Technology – publicação em inglês de acesso aberto com sistema de avaliação “duplo-cego” -, Maria Luísa Sousa fica no meio do caminho quando a questão é a abertura de pareceres, com a identificação do avaliador. Esta foi uma das questões mais sensíveis do workshop “Presente e futuro das publicações de história: debates por 25 anos de História, Ciências, Saúde – Manguinhos”, do qual ela participou, de 26 a 28 de junho de 2019, na Fiocruz, no Rio de Janeiro.

O evento reuniu editores de periódicos brasileiros e estrangeiros, que compartilham de um desafio em comum: a busca por novos rumos frente à eminência da ciência aberta.

Segundo Luísa, o “duplo-cego” evita que ocorram avaliações enviesadas por preconceitos de gênero, afiliação institucional, proveniência geográfica e lugar na carreira. Por outro lado, ela acredita que publicar pareceres assinados por avaliadores pode ser um incentivo a eles, por terem seu trabalho reconhecido e pontuarem para a progressão da carreira e a avaliação em concursos. Pesquisadora do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia e do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, ela contou que os movimentos de ciência aberta em Portugal têm sido feitos de cima para baixo, pelas agências de financiamento da ciência da União Europeia e nacional.

Luísa conversou com o Blog de HCS-Manguinhos após a sua participação na mesa “Revisão por pares: potenciais, dificuldades e tedências”, dia 27/6.

“Não sou favorável à abertura do processo da revisão por pares, mas sou favorável a uma seleção com consentimento mútuo do autor e do parecerista de publicação de alguns relatórios de avaliação, porque podem trazer à luz do dia – e não ficar anonimizados nos arquivos das editoras – tensões e problemas importantes que vão ser úteis para a comunidade e podem também servir no processo formativo de quem está aprendendo a escrever e avaliar artigos. Pode haver uma seletividade nos pareceres, mas não num sistema aberto, e sim num sistema fechado, para serem publicados a posteriori no final do artigo”, opinou a editora da HoST.

Ela espera que os editores continuem a trabalhar em conjunto para melhorar políticas e práticas editoriais e discutir como a área de história pode responder à proposta de ciência aberta do SciELO, apresentada por Abel Packer em palestra na véspera. Para Luísa, mais iniciativas como o workshop, presenciais ou virtuais, fazem todo sentido.

“O workshop propiciou, a partir de experiências editoriais, a reflexão sobre o que é o chapéu da ciência aberta e a sua desconstrução. Não devemos ter medo de pensar a resistência, ou pensá-la como uma coisa negativa. Pensar o que é específico da história é algo que temos que fazer, e temos que nos engajar nestas discussões. A resistência pode ser criativa, deve ser criativa e construtiva. Temos que dizer que há coisas que a história pode apropriar-se – e já está a fazer – e outras que diremos ‘não fazemos isso’. Este evento foi bastante completo: foi a vários itens do chapéu do acesso aberto, e foi muito bem pensado e generoso na forma como nos permitiu discutir e expor os nossos pontos de vista e ser flexíveis sobre o nosso próprio trabalho. Até pudemos comparar fichas de avaliação e ter ideias de como isso pode se tornar mais útil e, se viermos a publicar os relatórios, como eles podem ser mais úteis. Este evento foi fantástico, parabéns a Manguinhos!”, elogiou.

Fundada em 2007 para suprir a demanda de historiadores portugueses por internacionalização, a HoST resulta da colaboração de quatro centros de pesquisa portugueses: Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Lisboa), Instituto de Ciências Sociais (Universidade de Lisboa), Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (Universidade de Évora) e Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa).

Como citar este post:

Pareceres abertos, desde que em comum acordo. Blog de HCS-Manguinhos. Publicada em 27 de agosto de 2019. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/pareceres-abertos-desde-que-em-comum-acordo

Leia mais sobre o workshop no Blog de HCS-Manguinhos:

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