Para erradicar a imagem da 'mulher-objeto' na América Latina

Junho/2016

Vivian Mannheimer | Blog de HCS-Manguinhos

Lorena

Lorena Saletti-Cuesta

O estupro coletivo de uma jovem no Brasil e a condenação a oito anos de prisão de uma mulher na Argentina acusada de ter induzido um aborto, enquanto sua família denunciava maus tratos médicos, são casos diferentes de um fenômeno comum nestas sociedades: a violência contra a mulher.

Para discutir o assunto, convidamos a psicóloga Lorena Saletti-Cuesta, pesquisadora do Conicet/Argentina, especialista em saúde e gênero e ativista feminista. Ela analisa a violência de gênero em contextos latino-americanos, as políticas públicas para a sua redução e o papel do sistema de saúde diante do problema.

Quais são os fatores sociais e culturais relacionados à violência de gênero nos países latino-americanos? Sabemos que a violência de gênero é um mecanismo estrutural e instrumental de controle destinado a manter o patriarcado, isto é, a organização hierárquica e o poder atribuído aos homens sobre as mulheres. Lori Heise formulou um modelo sócio-ecológico, muito difundido e adotado por organismos internacionais, para conceituar a violência como um fenômeno multifacetado que se origina a partir da interação de fatores individuais, contextuais, locais e estruturais. Algumas escritoras feministas latino-americanos têm enfatizado o papel da colonização na manutenção das desigualdades de gênero e violência. O caso de esterilizações forçadas no Peru representa um exemplo concreto de como o gênero se cruza com outros eixos, como desigualdade social, etnia ou pobreza, para perpetuar a violência contra as mulheres mais vulneráveis. Não devemos esquecer que existem fatores estruturais que aumentam o risco da violência de gênero nos nossos contextos, como as desigualdades sociais, culturais e de oportunidades, como o acesso à saúde e à educação. Precisamos de políticas públicas que garantam uma vida livre de violência. Por exemplo, é essencial e urgente garantir o direito ao aborto seguro, porque as leis atuais causam consequências graves, como mortalidade e danos à saúde das mulheres, além de  sentenças e julgamentos injustos, como o recente caso na Argentina. Também precisamos fortalecer os esforços para erradicar a imagem estereotipada e constante da “mulher-objeto”, transmitida maciçamente pelos meios de comunicação e outras áreas, como a educação. Leia a entrevista completa no Blog de HCS-Manguinhos em espanhol. Leia também: O inimigo ao lado Diante de um crime que chocou o Brasil, o Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma série para debater e combater a cultura do estupro, trazendo conhecimentos que contribuam para enfrentar o problema Leia no blog de HCS-Manguinhos: A medicalização dos corpos brasileiros A violência cotidiana sobre o corpo da mulher é um dos temas do número de HCS-Manguinhos editado por Ilana Löwy e Emilia Sanabria Cirurgia plástica e terapia hormonal no Brasil: uso social na feminilidade moderna Artigo de pesquisadores europeus afirma que técnicas experimentais estão se tornando moralmente autorizadas como controle rotineiro da saúde da mulher Depois do aborto, a discriminação Artigo divulga estudo feito em maternidade pública de Salvador com pacientes internadas para curetagem e profissionais de saúde Ultrassom obstétrico e a estratificação dos cuidados à saúde Artigo discute a biomedicalização em três clínicas particulares, um hospital universitário e uma maternidade no Rio de Janeiro A cesariana como parto ‘normal’ Artigo analisa como o livro Obstetrícia, de Jorge de Rezende, estimulou a apropriação e o desenvolvimento das técnicas de cesariana pelos médicos no Brasil Leia na revista HCS-Manguinhos: A biomedicalização do aborto ilegal: a vida dupla do misoprostol no Brasil,  De Zordo, Silvia. Mar 2016, vol.23, no.1 Cesárea, aperfeiçoando a técnica e normatizando a prática: uma análise do livro Obstetrícia, de Jorge de Rezende. Nakano, Andreza Rodrigues; Bonan, Claudia; Teixeira, Luiz Antônio. Mar 2016, vol.23, no.1 Relações de gênero e interdependências: reflexões a partir de mudanças na configuração hospitalar. Pereira, Audrey Vidal, Rotenberg, Lúcia and Oliveira, Simone Santos.  Set 2013, vol.20, no.3 A dinâmica hospitalar da Maternidade Dr. João Moreira, em Fortaleza, nas primeiras décadas do século XX. Medeiros, Aline da Silva. Set 2013, vol.20, no.3 Reprodução, sexualidade e poder: as lutas e disputas em torno do aborto e da contracepção no Rio de Janeiro, 1890-1930. Silva, Marinete dos Santos. Dez 2012, vol.19, no.4 Parirás sin dolor: poder médico, género y política en las nuevas formas de atención del parto en la Argentina (1960-1980). Felitti, Karina. Dic 2011, vol.18, suppl.1 Direitos femininos no Brasil: um enfoque na saúde materna. Leite, Ana Cristina da Nóbrega Marinho Torres and Paes, Neir Antunes. Set 2009, vol.16, no.3 O gênero das travestis: corpo e sexualidade na cultura brasileira. Goldenberg, Mirian. Dez 2009, vol.16, no.4 As imagens femininas n’O Vulgarizador: público de ciência e mulheres no século XIX. Vergara, Moema de Rezende.  2008, vol.15 Protagonistas, saberes e práticas da história do parto e da maternidade no Chile. Martins, Ana Paula Vosne. Dez 2009, vol.16, no.4 Mulheres, imprensa e higiene: a medicalização do parto na Bahia (1910-1927). Amaral, Marivaldo Cruz do. Dez 2008, vol.15, no.4 Assistência ao nascimento na Bahia oitocentista. Barreto, Maria Renilda Nery. Dez 2008, vol.15, no.4  Edição “Gênero  e Ciências” (v.15,  supl.0, 2008)

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