Para diversificar a educação e democratizar o acesso à ciência

Julho/2014

  Elena Mandarim | Faperj

As peças são expostas numa altura ideal para a visualização de cadeirantes. Fernando Moraes/Museu Nacional

Criado por D. João VI, em 1818, o Museu Nacional – incorporado à Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1946 – vem exercendo seu papel de difusão e popularização das ciências ao longo dos seus quase dois séculos de existência. Recentemente, a instituição científica mais antiga do País inovou ao criar o Espaço Ciência Acessível que traz a mostra “O mar brasileiro na ponta dos dedos”. Voltada ao grande público, em especial às pessoas com algum tipo de deficiência, sua estrutura foi toda montada seguindo os padrões internacionais de acessibilidade. Ou seja, as peças expostas estão numa altura ideal para a visualização de cadeirantes, há etiquetas descritivas em braile, informações passadas por guias treinados, entre outros detalhes. Além disso, foram usados materiais sustentáveis, como bambu e cordas. De acordo com o coordenador do espaço, o biólogo Fernando Moraes, que é pesquisador associado do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e do Museu Nacional, trata-se de uma iniciativa-piloto, que vem sendo desenvolvida há um ano, com o objetivo de ampliar e democratizar o acesso ao conhecimento científico. Contemplado no edital de Apoio à Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, da FAPERJ, o projeto conta com o apoio do Instituto Benjamin Constant, da Rede Abrolhos e do Instituto Mar Adentro. Na exposição, os visitantes têm a oportunidade de conhecer alguns dos principais grupos zoológicos marinhos das águas brasileiras, expostos em ordem evolutiva, desde uma esponja do mar até um golfinho, passando por corais endêmicos da região de Abrolhos, estrelas-do-mar e tartarugas ameaçadas de extinção, conchas gigantes e um pinguim-de-magalhães. Moraes ressalta que todo o material apresentado é verdadeiro e foi preparado de modo que o público pudesse tocar nas peças. “Temos percebido que os animais expostos, acessíveis ao toque dos visitantes, estimulam sentidos e sentimentos, tanto das pessoas com algum tipo de deficiência quanto do público em geral”, anima-se o biólogo. Ele conta que, para complementar o ambiente, foram dispostas ainda em torno de 15 fotos raras do Monumento Natural das Ilhas Cagarras, cedidas pelo Projeto Ilhas do Rio.

A possibilidade de tocar nas peças estimula os sentidos e os sentimentos dos visitantes. Fernando Moraes/Museu Nacional

Para o pesquisador, o projeto piloto tem dado tão certo nesse ano de existência que, em breve, o Espaço Ciência Acessível se tornará um local fixo dentro do circuito de exposições do Museu Nacional/UFRJ. “Esse período de teste é importante para ouvirmos as sugestões dos visitantes e, assim, melhorar a estrutura e consertar eventuais erros. Mas a ideia já se consagrou, o que pode mudar agora são os temas abordados nas mostras”, adianta Moraes. Ele acredita que a iniciativa cumpre seu papel social e educacional. “Além da expressiva visitação espontânea, temos recebido diversos grupos escolares e especiais, guiados por estudantes do Colégio Pedro II, bolsistas do programa Jovens Talentos, da FAPERJ. Recentemente, por exemplo, tivemos o prazer de receber um grupo da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência do Rio de Janeiro.” Segundo Moraes, a criação do Espaço Ciência Acessível faz parte de um projeto maior que visa à revitalização da Seção de Assistência ao Ensino (SAE), do Museu Nacional. Este setor foi criado em 1927 com a proposta de criar uma coleção multimídia que pudesse servir como instrumento de ensino. Um dos objetivos foi montar um acervo biológico, composto por fósseis de plantas e rochas, que pudesse ser emprestado às escolas. O pesquisador explica que, embora a SAE tenha permanecido viva durante todo o tempo, grande parte do seu acervo se encontrava deteriorado e defasado. “Por isso, em 2012, iniciamos um processo de recuperação. Estamos trocando os frascos, desenvolvendo novas etiquetas, identificando as espécies de modo a difundir noções de sistemática, taxonomia e ecologia.”

Roupa de mergulhador exposta ao alcance das mãos curiosas dos estudantes. Fernando Moraes/Museu Nacional

Mais do que recuperar os lotes já existentes, Moraes explica que o grupo de pesquisa está empenhado em aumentar a coleção. “Com o projeto, já adicionamos mais de 300 novos lotes de várias espécies da fauna e flora marinha do Rio de Janeiro”, relata o biólogo. Ele explica que, para potencializar as possibilidades de ensino desse e de outros temas, estão sendo produzidos também outros materiais educativos, como uma apostila ilustrada e dois vídeos didáticos, um sobre o fundo do mar e outro sobre as inúmeras exposições disponíveis no Museu Nacional. Hoje em dia, muito se fala em difusão e popularização da ciência como forma de impulsionar o desenvolvimento social e econômico de um país. Para o pesquisador, o que fortalece essa tendência é uma formação menos restrita ao espaço escolar. “Ou seja, devem-se ampliar as ações educativas complementares, como as visitas a museus, centros de ciência, exposições, publicações, o que efetivamente contribui para despertar uma cultura científica e aumentar o conhecimento sobre a importância da conservação do patrimônio científico, histórico e cultural de um povo”, conclui.
Fonte: Faperj Leia em HCSMA ciência pode ser divertida!  

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