Os primórdios da divulgação científica na TV

Janeiro/2013

Neldson Marcolin

cienciavivaUm velho rolo de filme 16 mm encontrado nos arquivos da FAPESP em 2010 revelou o que provavelmente foi a primeira tentativa de divulgação científica da Fundação para um público amplo. ?Guardado em uma caixa de plástico, o filme ganhou uma cópia digital e pode ser assistido: trata-se de uma reportagem de 15 minutos sobre a poluição dos rios. ?No início do filme uma claquete dá algumas informações. ?O nome da produção é Ciência viva, datada de ?1º de dezembro de 1970. Em seguida, uma narração em ?off apresenta o que deveria ser a primeira reportagem ?de uma série sobre ciência. O então presidente do Conselho Superior da FAPESP, Antônio Barros de Ulhoa Cintra, aparece no começo do filme para dar algumas explicações: “A FAPESP decidiu patrocinar a realização de uma série ?de programas sobre ciências e suas aplicações”, diz ele ?em um texto que dura 47 segundos (leia a íntegra abaixo).

Como havia a indicação de que vários filmes poderiam ter sido feitos, a revista Pesquisa FAPESP solicitou à TV Cultura uma busca em seus arquivos para tentar localizar outros possíveis programas. Foi encontrado apenas mais um filme, de 19 minutos, cujo tema é a ferrugem, uma praga do cafeeiro. Novamente, ?o único registro sobre esse achado é a data de produção que consta na claquete: ?19 de abril de 1971. De acordo com funcionários ?da TV que trabalharam nas buscas, não há fichas ou roteiros que tragam mais informações. “Por alguma razão que desconhecemos, provavelmente esses programas nunca foram ?ao ar”, acredita Mario Fanucchi, o coordenador ?de produção da emissora daquele período.

Documentos da FAPESP mostram que a produção de uma série de divulgação científica começou a ser discutida no início de 1970. No meio do ano, a diretoria da FAPESP firmou um convênio com a Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura, para dar início ao ?primeiro programa. Em correspondência de Mario Fanucchi para o diretor científico, Oscar Sala, estão relacionados quatro objetivos discutidos previamente com o zoólogo Paulo Vanzolini, então assessor de Ulhoa Cintra: “Dar ao povo ?noção do que é a pesquisa científica e quais as suas implicações na vida moderna; mostrar o pesquisador anônimo, valorizá-lo como figura humana;  despertar vocações para a pesquisa; estimular aqueles que ?se iniciam na pesquisa”.

Vanzolini ficou encarregado de solicitar ?à Fundação o auxílio para pagar a produção. “Os programas foram uma iniciativa do Oscar Sala”, conta. “Eu participei das conversas e o projeto ficou em meu nome porque ele me pediu.” Vanzolini não sabe se os programas foram exibidos nem as razões de a série de não ter tido continuidade.

Os pesquisadores que participaram das filmagens elogiam a iniciativa. ?No primeiro programa o principal entrevistado foi Samuel Murgel Branco, biólogo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de ?São Paulo, morto em 2003. “Lembro-me de que ele ficou bem satisfeito com ?a reportagem e comentou comigo que provavelmente os assuntos ligados à ecologia, poluição ambiental e outros termos técnicos se tornariam ?mais conhecidos do grande público a partir da veiculação destas informações na TV”, conta Frida Fischer, então estagiária e hoje professora titular da FSP.

No segundo programa o tema foi agricultura. “Havia uma preocupação com a praga do café e nós explicamos do que se tratava”, lembra Lourival Monaco, na época pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) de Campinas. “Foi um trabalho muito interessante de divulgação de um problema que envolvia conhecimento científico”, diz Walkiria B. de Camargo Moraes, de longa carreira no Instituto Biológico de São Paulo.

Quarenta e dois anos depois, os dois filmes podem ser assistidos no site de Pesquisa FAPESP.

Ulhoa Cintra

“FAPESP decidiu patrocinar a realização de uma série de programas sobre ciências e suas aplicações. É reconhecido o fato de ciência e suas aplicações terem um papel preponderante no progresso e no desenvolvimento do bem-estar da humanidade nos dias que correm. Entretanto, temos ressaltado o seu papel educativo e o seu valor ético. Espera a Fundação que o desenvolvimento desses programas, contribuindo para o desenvolvimento da ciência, se consubstancie também pelo seu próprio desenvolvimento e no amparo de sua finalidade essencial.”

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp – Edição 200 – Outubro de 2012

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