‘Os governantes pensam que SUS é para pobres’

Glauber Gonçalves | Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Ligia Bahia. Foto de Virginia Damas/CCI/Ensp/Fiocruz

Ligia Bahia.
Foto de Virginia Damas/CCI/Ensp/Fiocruz

“O SUS tem jeito?” Diante da pergunta, Lígia Bahia, professora do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não deixa dúvidas de que é hoje uma das vozes mais expressivas em defesa do Sistema Único de Saúde e de seus preceitos fundadores. “Eu diria que o SUS é o jeito, e não [que] o SUS tem jeito”, dispara. “O que não tem jeito é o mercado.” O apoio dela ao sistema público não implica, porém, leveza nas críticas que faz aos pontos negativos do atual modelo, como ficou claro nas mais de duas horas de entrevista concedida a historiadores da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, editada pela Fiocruz.

“Gostaria de não estar vendo o aumento da privatização [da saúde], mas o que eu vejo […] é uma sucessão de governantes que pensam que o SUS é para pobres. E, já que o SUS é para pobres, tem que desonerá-lo de quem pode pagar – esse discurso está sempre presente”, afirma. Lígia classifica a crescente participação do setor privado na área da saúde no Brasil, sustentada por incentivos tributários, como uma política de subsídio aos mais ricos. “O que está ocorrendo é uma vergonha, é um descalabro. Com a entrada desse capital estrangeiro etc. É tudo política pública. Ou acreditamos que seja o tal mercado? Óbvio que não. Não tem mercado no Brasil. O que tem é Estado”, opina.

A expansão dos conglomerados privados de saúde, na avaliação dela, são um retrocesso. “As empresas na saúde não são inovadoras, não jogam o Brasil na fronteira da pesquisa, do desenvolvimento”, diz.  Para Lígia, faltam pesquisas e análises críticas ao sistema privado – que, na avaliação dela, não responde adequadamente às necessidades da população. A pesquisadora acredita, no entanto, que a classe média preferiria um sistema público de qualidade a ter de recorrer ao sistema privado. “Não é à toa que [a classe média] foi para as ruas [em junho de 2013]. Não tinha nenhum lumpenproletariado na rua, mas tinha a classe que sabe que não vai ter o plano do Sírio Libanês”, comenta.

Uma das questões-chave, na avaliação de Lígia, é atrair os médicos para o SUS. Para isso, seria necessário rediscutir a questão da remuneração. Com salários iguais aos de outros profissionais que atuam no sistema público, como enfermeiros e farmacêuticos, os médicos passaram a preteri-lo, em detrimento do setor privado, explica. “A unificação dos regimes de trabalho na saúde significa que médicos e enfermeiros ganham igual. Isso não existe em sistema de saúde nenhum do mundo […] Quem tem nível superior ganha a mesma coisa. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos etc. […] Hoje o SUS é muito bom para algumas categorias profissionais e péssimo para os médicos”, alerta.

Ligia sustenta ainda que a defesa do SUS deve ser feita não apenas na teoria, mas também na prática. Questionada se os políticos deveria ser obrigados a se tratar no SUS, ela concorda, e vai além: diz que o mesmo deveria valer para todos os funcionários públicos. “Quando falamos ‘ocupante de cargo público’, é como se tivéssemos raivinha dos políticos. Eu quero ser atendida e morrer no SUS, de preferência em casa. Sinceramente”. Ela avalia que, para desmontar a lógica do SUS para pobres, é importante que cada vez mais pessoas das camadas mais altas passem a optar pelo sistema público. “Quanto mais rico for atendido no SUS, melhor; quanto menos o SUS for um sistema para pobre, melhor. Esse é o problema, esse é o fio da navalha […] Põe rico sendo atendido no SUS, porque a única possibilidade de o SUS ser universal é que […] essa classe média entenda isto, que na realidade quando o bicho pega a gente é atendido pelo SUS”, analisa.

A pesquisadora encerra a conversa apontando caminhos para a melhoria do sistema. Ela ressalta a necessidade de o SUS ser adequadamente financiado. “O senso comum generalizado acredita que o SUS tem dinheiro a rodo, que o problema do SUS é a corrupção”, afirma. “Vamos ter que contornar esse senso comum e demonstrar que existe falta de recurso”, acrescenta, ressaltando que é necessário implementar métodos de administração mais modernos de prestação de contas e buscar a transparência.

Confira a íntegra da entrevista no SciELO

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