O público como protagonista da história

Agosto/2014

Ricardo Santhiago

Ricardo Santhiago

Tendo o público como centro da atenção e transcendendo fronteiras acadêmicas, a história pública é um campo de pesquisa em expansão no Brasil. Em 2012, cerca de 600 pessoas participaram do Simpósio Internacional de História Pública na USP, e espera-se participação significativa também no 2º Simpósio, que será realizado de 10 a 12 de setembro na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, RJ. O tema central é “Perspectivas da história pública no Brasil”.

Para explicar o conceito e a aplicação da história pública, o blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos convidou o historiador e jornalista Ricardo Santhiago, co-fundador da Rede Brasileira de História Pública. Santhiago recebeu em março, durante a última conferência anual do National Council on Public History dos EUA, em Monterey, Califórnia, o New Professional Award, prêmio concedido a novos profissionais que se destacam na área.

O que é e como surgiu a História Pública?

A história pública foi primeiramente talhada e descrita como um campo de trabalho para historiadores fora da academia pelo Robert Kelley, um historiador estadunidense responsável pela criação do primeiro programa de história pública de que se tem notícia, na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, em 1976. A partir disso surgiram o periódico The Public Historian, as conferências do National Council on Public History, e vários outros programas seguindo a experiência californiana. Essa é, digamos, a síntese da genealogia oficial da história pública, que depois incorpora contribuições de outros países anglo-saxões.

Embora sempre se remonte a esses episódios, tenho a impressão de que nem essa raiz única nem a definição de história pública como uma história não acadêmica, feita para o grande público, têm sido satisfatórias. Acho mais proveitoso pensar a história pública generosamente, como um campo de trabalho, reflexão e diálogo que tem o público no centro de suas preocupações, mas de maneiras variadas.

Pode-se produzir história para o grande público – o público não acadêmico –, mas se pode também produzir história com o público, atender a demandas públicas, compreender a história feita pelo público. São variações e modalidades que tornam o campo da história pública mais complexo e controverso, e por isso mesmo mais instigante e sujeito ao debate. No que diz respeito à sua história, a multiplicidade é a mesma. Embora os marcos clássicos sejam aqueles a que aludi, eles estão cada vez mais sujeitos a revisão. A Denise Meringolo, por exemplo, propôs no livro Museums, Monuments, and National Parks uma nova genealogia que recuasse à fundação dos parques nacionais americanos. Ela também tem coordenado projetos que buscam explorar as “raízes cívicas” da história pública” – e o pressuposto é o de que essas raízes são múltiplas, independentes do ambiente institucional de um historiador em particular.

Há cerca de dois anos entrevistei o David Dunaway sobre o trabalho dele com história oral e história pública e gostei muito de uma frase, que desde então tenho repetido: “A história pública é a institucionalização de um espírito que muitos historiadores têm tido, por milhares de anos”.

Como ela vem se desenvolvendo no Brasil?

Existe uma movimentação bastante recente em torno da história pública no Brasil, que se abriu para criação da Rede Brasileira de História Pública, em 2012. Mas, naturalmente, aquele “espírito público” da história precede em muito essa rede, e já havia frutificado em uma miríade de realizações que também a precedem. Esse é um reconhecimento básico – e a distinção entre a prática da história pública e o campo da história pública é um gesto de reconhecimento que eu acho bastante saudável. O que essa “movimentação” traz de novo é a vontade de aglutinar experiências dispersas e oferecer um espaço de diálogo criativo entre os diferentes agentes da história pública. Nesse sentido, a ideia de uma “rede” é bem sugestiva.

Além desse desafio prático, acredito que um outro desafio para o desenvolvimento da história pública no Brasil seja a superação da ideia de que ela signifique tão somente a popularização da história. Muito do discurso sobre história pública está ligado a palavras como “disseminar”, “divulgar”, “difundir”, “traduzir”, “publicizar”, “publicar”, “transmitir”. A ampliação dos públicos da história, por meio desses recursos, é uma dentre as várias facetas da história pública – e tem implicações metodológicas e teóricas agudas, que merecem um olhar mais demorado.

Sua dinâmica depende da pujança de movimentos sociais organizados? 

A parte não é todo – mas, mais uma vez, a generosidade da expressão história pública permite dizer que sim. A história pública pode ser também uma história aplicada quando ela responde a demandas por história e memória apresentadas por movimentos sociais; quando atua como propulsora de políticas públicas informadas pela pesquisa histórica; quando historiadores com comprovado conhecimento histórico vão à corte testemunhar como peritos especializados; quando se participa em grandes momentos nacionais, como processos de reparação e reconciliação histórica. Esse é um grande ramo da história pública no Brasil, onde parece existir uma sensibilidade acadêmica muito particular, especialmente dentro da universidade pública e gratuita, que convoca ao comprometimento social.

Ela se expande por iniciativa de historiadores ou tem outros profissionais como protagonistas?

Há muitos profissionais dividindo esse protagonismo. Tradicionalmente, além dos historiadores, pensamos naqueles dos vários ramos da comunicação: jornalistas, radialistas, cineastas, em suas tantas subcategorias. Rádio e TV, aliás, talvez já sejam modos quase obsoletos de história pública, diante das mídias digitais, que têm seus próprios profissionais. E há também os bibliotecários, sociólogos, arquivistas, escritores, memorialistas, diletantes e tantos outros agentes que têm a história e o público em sua pauta de interesses. A forma de inserção de cada um desses agentes no campo da história pública é que é uma questão delicada, já que eles respondem a demandas muito diferentes que nem sempre se afinam, nem deveriam se afinar, ao crivo acadêmico. Fazer a mediação entre essas várias instâncias é um desafio.

Qual a relação que ela mantém com as correntes historiográficas tradicionais? Há um vínculo especialmente forte com a história oral?

Essa é uma questão fascinante. Naturalmente, qualquer período histórico pode ser publicizado, e qualquer perspectiva histórica pode ser filtrada pela história pública – no sentido de que ela coloca questões extremamente instigantes mesmo para aqueles historiadores que não visam primordialmente difundir o conteúdo que produzem.

Uma das coisas brilhantes que a Marieta de Moraes Ferreira escreveu foi que a história oral seria uma espécie de “bússola” para o historiador, de “laboratório epistemológico” que agudizaria questões que, em última instância, todo historiador enfrenta. Acho que isso também se aplica à história pública, e que seria um bom exercício que lêssemos nossas próprias práticas à luz desse conceito diverso.

Quanto à intimidade com a história oral, não é difícil entendê-la. Relatos narrados são extremamente envolventes, por si mesmos, e se adaptam muito bem a uma variedade de mídias e de lugares de história pública: o arquivo, o museu, o livro, a TV, o rádio, o podcast, o cinema, a internet. Além disso, a história oral radicaliza as relações entre história e público, porque de saída depende de um público (os narradores) para se realizar. A ideia de “autoridade compartilhada” que Michael Frisch criou e cunhou, ainda no início dos anos 1990, é central para essa noção.

Contudo, apesar dessa proximidade, numa boa parte do cenário anglo-saxão os campos de história oral e história pública se desenvolveram em separado, quando não em conflito. Isso se deve mais a disputas por espaço de reconhecimento do que à natureza de debates e práticas. Felizmente temos escapado dessa armadilha – e, por coincidência, uma boa parte das pessoas que está levando adiante a Rede Brasileira de História Pública traz o lastro da história oral.

Como fica a inter ou transdisciplinaridade por esse caminho historiográfico? 

O praticante de história pública conduz sua pesquisa levando em conta as normas e os critérios específicos da “história”, mas também as especificidades do “público”. Eu tenho alguma dificuldade em separar essas duas etapas porque acredito que uma pressupõe o potencial e os limites da outra, mas o que importa frisar é que a presença desse “público” impõe a necessidade de um instrumental transdisciplinar também e de um instrumental técnico.

Acho que precisamos saber um pouco de educomunicação, um pouco de divulgação científica, um pouco de literatura, e um pouco dos outros campos “públicos” que são nossos vizinhos: a sociologia pública, a antropologia pública, até mesmo as relações públicas.

No âmbito mais técnico, precisamos aprender a lidar com direito autoral, leis de incentivo e a prestações de contas, dominar os softwares mais recentes de edição gráfica, edição de áudio e edição de vídeo – ou, o que é menos custoso do ponto de vista prático mas coloca novas questões em termos de autoria, nos abrirmos para o trabalho em colaboração.

Quais as temáticas e os períodos históricos que mais tem sido contemplados pela História Pública?

A impressão geral parece ser a de que existe uma inclinação para o tempo presente, pelas razões já comentadas, e, além disso, para a perspectiva biográfica, mas acho que o campo da história pública e as experiências em história pública são muito mais diversas. Seria fantástico se tivéssemos um mapeamento abrangente, como o que o Paul Ashton e a Paula Hamilton fizeram na Austrália ou o que o Jerome de Groot fez na Inglaterra com um enfoque comparado. Trabalhos como esses vão aparecer aqui, inevitavelmente. Mas um único veio de realização da história pública pode mostrar sua grande variedade em termos de temática e períodos históricos – o mercado editorial é um exemplo, e um único livro, como o História do Brasil para ocupados, organizado pelo Luciano Figueiredo, é capaz de sintetizar essa diversidade.

Quais os exemplos mais bem sucedidos de estudos feitos nesse viés no Brasil e no exterior?

Seria muito difícil apontar exemplos, até porque o campo, não só no Brasil mas também internacionalmente, é muito novo. Aquilo que se sugere como cânone pode ser rapidamente rejeitado. No ano passado, por exemplo, a editora Routledge publicou o The Public History Reader – que recebeu resenhas bastante severas no que diz respeito aos critérios dos organizadores para criar, afinal, uma “antologia”, uma obra de referência. Não parece existir um consenso, no campo da história pública, a respeito de quais são suas obras ou suas experiências basilares.

Um outro exemplo dessa juventude é a criação recente da Federação Internacional de História Pública, que se tornou velozmente uma produtora de eventos internacionais anuais mas não tem mostrado o mesmo sucesso em dialogar com o arcabouço propriamente intelectual que a precedeu.

No Brasil, existem experiências institucionais impossíveis de se negligenciar, que vão desde o Museu da Pessoa, cujo trabalho, feito fora da academia, tem um impacto social extremamente significativo, até o Laboratório de História Oral de Imagem da Universidade Federal Fluminense, que me parece ter sido pioneiro em ter a história pública como eixo de trabalho coletivo, de discussão coletiva. E é claro que as instituições acabam tendo um papel legitimador dos discursos que vão a público, mas talvez exemplos tão bem sucedidos quanto estes sejam todas aquelas iniciativas de histórias feitas pelo público que não conhecemos, mas que efetivamente existem; todas as formas não institucionais de memória e de história que são também história pública.

(Por Jaime Benchimol e Marina Lemle para o blog de HCS-Manguinhos)

Mais informações sobre o 2º Simpósio Internacional de História Pública no site http://historiapublica.com.br/simposio2014/

Como citar este post [ISO 690/2010]:
O público como protagonista da história. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 17 August 2014]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/o-publico-como-protagonista-da-historia/

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