No tempo em que o Brasil era mar

Junho/2017

Foto: Grupo Palaios – Paleontologia Estratigráfica

O Museu Nacional abre ao público no próximo dia 6 de junho, às 15 horas, a exposição permanente “No tempo em que o Brasil era mar: O mundo há 400 milhões de anos visto a partir dos fosseis da Coleção do Museu Nacional”, com cerca de 60 peças de invertebrados fósseis de diversos grupos ainda viventes e outros extintos como bivalves, gastrópodes, braquiópodes, estrelas-do-mar e trilobitas, nunca expostas. A exposição integra as atividades em comemoração aos 199 anos de criação do Museu Nacional/UFRJ, localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.

As peças fazem parte das coleções históricas do Museu Nacional, complementadas com coletas recentes. Estão representados fósseis da Comissão Geológica do Império, realizada há mais de 140 anos, da Coleção Caster, recém repatriada, coletados há mais de 70 anos, e também da Expedição Orville Derby, patrocinada pela Petrobras, realizada há mais de 40 anos.

Estará exposta, ainda, a reconstituição de um Trilobita, com aproximadamente 1 metro de comprimento. O Trilobita é um grupo extinto no Paleozoico, parente dos crustáceos e insetos. A espécie reconstituída tinha em torno de 5 cm em vida e habitou o Brasil há 400 milhões de anos. A exposição conta com reconstituições do fundo dos mares e de um afloramento com fósseis.

A coleção de invertebrados fósseis do Museu Nacional é a mais antiga do país, possuindo um acervo montado ao longo de mais de 180 anos, com aproximadamente 65.000 exemplares fósseis. Esta coleção foi sendo enriquecida com o passar do tempo por grandes expedições paleontológicas e guarda fósseis que nos ajudam a compreender como era o Brasil há 400 milhões de anos atrás.

400 milhões de anos atrás…

Muito antes do surgimento dos dinossauros, quase metade do atual território brasileiro estava coberto por grandes mares rasos, onde viviam animais muito diferentes daqueles que habitam os mares atuais. Estamos falando de mares que existiram há aproximadamente 400 milhões de anos atrás, em um período chamado Devoniano.

Para conhecer estes animais só temos um único caminho: estudar os fósseis – vestígios de organismos do passado que se encontram preservados nas rochas de grande parte do Brasil. Quem eram estes animais? Como viviam? Como eram os ambientes destes mares antigos? Estas são algumas perguntas que tentaremos responder com ajuda dos fósseis da coleção do Museu Nacional.

O Devoniano é um período do tempo geológico que data de aproximadamente 400 milhões de anos atrás, muito anterior ao surgimento dos dinossauros. Neste período, quase metade do território brasileiro estava coberto por grandes mares rasos. Nunca os mares alcançaram um desenvolvimento tão significativo sobre o Brasil.

Nesses mares os invertebrados marinhos se tornaram abundantes. Quando morriam podiam ficar presos entre as areias e lamas do fundo e então podiam ser preservados nas rochas resultantes. Esses invertebrados, como trilobitas, caramujos, estrelas-do-mar, esponjas, corais, entre muitos outros, são os fósseis presentes nas coleções históricas do Museu Nacional, que nos possibilitam vislumbrar como eram estes antigos mares.

Mapa mundi no Devoniano. Arte: Sandro Sheffler

Durante o Devoniano Inferior (410 milhões de anos) o Brasil se situava próximo ao Polo. Extensos mares frios cobriam o Brasil, isolados de outras regiões do mundo com águas mais quentes. Isso possibilitou o surgimento de uma fauna única, com animais diferentes do restante do mundo no centro-sul do Brasil, conhecida como fauna malvinocáfrica. O nome vem da distribuição desta fauna pelo Brasil, Bolívia, Argentina, Uruguai, África do Sul e Ilhas Malvinas. Outras faunas conhecidas na época eram das Américas Orientais, de águas temperadas e tropicais, e do Velho Mundo, de águas equatoriais e tropicais.

Os animais que habitavam estes mares frios brasileiros há 400 milhões de anos eram, em sua maioria, diferentes dos animais de outros locais do mundo e são conhecidos como fauna malvinocáfrica. Posteriormente, no Devoniano Médio (385 milhões de anos) estes mares subiram ainda mais e águas quentes vindas do Norte da África e Europa entraram nestes mares gelados, juntamente com novos animais de climas temperados e tropicais. Isto ocasionou a extinção de 80% a 90% das espécies marinhas entre o Devoniano Inferior e Superior, principalmente na parte sul e centro-oeste do Brasil.

Ao mesmo tempo em que ocorriam estas mudanças no mar, em terra um número grande de organismos começou a proliferar. Primeiramente se estabeleceram plantas muito simples, como Spongiophyton, acompanhadas por pequenos insetos, culminando há 360 milhões de anos com o desenvolvimento das primeiras florestas da história da terra e o surgimento dos animais vertebrados terrestres de quatro patas: os tetrápodes. Infelizmente, no Brasil ainda não encontramos o registro destes primeiros tetrápodes.


O Museu Nacional

O Museu Nacional/UFRJ foi fundado em 6 de junho de 1818 por D. João VI, com o intuito de promover o progresso cultural e econômico no país. Inicialmente sediado no Campo de Santana, só veio a ocupar o Palácio de São Cristóvão a partir de 1892, três anos após a Proclamação da República.

Atualmente o Museu Nacional integra a estrutura acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e detém a maior coleção de História Natural e Antropologia da América do Sul. As peças que compõem as exposições abertas ao público são parte dos 20 milhões de itens das coleções científicas conservadas e estudadas pelos Departamentos de Antropologia, Botânica, Entomologia, Geologia e Paleontologia, Invertebrados e Vertebrados.

SERVIÇO

No tempo em que o Brasil era mar – Exposição permanente
Abertura: 6 de junho de 2017, às 15 horas
Museu Nacional/UFRJ
Quinta da Boa Vista – Bairro Imperial de São Cristóvão – Rio de Janeiro – RJ
Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia)
Gratuidade: crianças até 5 anos e pessoas com deficiência
Entrada gratuita para todos, todos os dias, a partir das 15 horas
Telefone: 21 3938-1100 | 3938-1123 (NAP)
Website: www.museunacional.ufrj.br Facebook: www.facebook.com/MuseuNacionalUFRJ Twitter: @MuseuNacional YouTube: http://www.youtube.com/c/MuseuNacionalUFRJAssessoriadeImprensa

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“Nosso objetivo com a exposição é estimular a curiosidade e o interesse dos visitantes de todas as idades pelos oceanos, fundamentais para a vida na Terra, mas cujos habitantes conhecemos tão pouco, com a expectativa de aumentar a preocupação por sua conservação”, comenta uma das curadoras da exposição, Luisa Massarani.

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