Nas ruas e na rede para validar a história

Carta do editor

Surpresa. É a primeira palavra que me vem à mente quando escrevo estas linhas para apresentar a terceira edição de 2013 da revista História, Ciências , Saúde – Manguinhos. Surpresa, porque nossas expectativas sobre o uso de redes sociais foram superadas com fatos. Dois fatos falam por si. Primeiro: em um mês, o blog recebeu 6444 visitas. Em segundo lugar, um artigo publicado em 1995 triplicou o número de visitas depois de uma entrevista fascinante com o autor, realizada na sequência das manifestações que abalaram o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades brasileiras.

É verdade que não fomos protagonistas destas manifestações. Mas ficamos impressionados, profundamente. Especialmente com as primeiras. Integrantes da revista caminharam com os jovens e fizeram fotos encantadoras, que foram colocadas no blog como um testemunho único da vitalidade da sociedade, das imperiosas reivindicações populares por melhores condições de vida e do questionamento do ônus da corrupção. Mas essas fotos e essa experiência também foram uma prova de nosso interesse em compreender e dar ordem ao presente a partir de uma perspectiva histórica, o que não só é complicado, como realmente complexo.

Estou convencido de que não teríamos tido impacto positivo nas redes sociais se não tivéssemos algo importante a dizer. De uma maneira mais geral, nosso interesse na validade da história leva-nos de tempos em tempos a reafirmar e discuti-la sob a íntima relação do presente com o passado, especialmente em momentos de ruptura, e sob a responsabilidade fundamental que temos de contribuir e identificar as reformas duradouras e positivas das mudanças estéticas e retóricas nas sociedades, instituições e indivíduos. Nós, historiadores, temos muito a dizer sobre mudanças e continuidades, e um produto indireto do que aconteceu nas ruas do Brasil nos fez recordar que a legitimidade da nossa profissão não está dada, nem se limita à busca paciente em arquivos e à elaboração cuidadosa de artigos e livros – o que não devemos parar de fazer – mas é reconstruída publicamente de vez em quando, como agora.

Felizmente, vários dos artigos apresentados nesta edição da revista têm algo novo a dizer. Analisam em profundidade um tema, proporcionam novas fontes e nos convidam a refletir sobre questões mais amplas. Só quero destacar três das grandes obras que publicamos agora. Por exemplo, o estudo da malária de Carlos Chagas e Mário de Andrade, de Nísia Trindade Lima e André Botelho, ilumina as ideias sobre o processo civilizatório dos trópicos amazônicos durante as primeiras décadas do século XX. Os historiadores espanhóis Alfredo Menéndez-Navarro e Luis Sánchez Vázquez nos brindam com uma visão original sobre uma questão importante e pouco estudada: a protecção contra as radiações durante Franco (1939-1975). José Augusto Leandro apresenta um grande trabalho comparativo sobre a lepra na Argentina e no Brasil em meados do século XX que enfatiza as organizações de doentes, nas quais as mulheres tiveram destacada liderança.

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Membros da expedição liderada por Carlos Chagas (à esquerda na foto) ao vale do Amazonas em Sena Madureira, Acre, em janeiro de 1913. Intervenção em foto do arquivo da Casa de Oswaldo Cruz publicada em Eduardo Vilela et al.,
A ciência a caminho da roça, Rio de Janeiro, Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991, p.138.

Uma notícia de interesse para os nossos leitores é que a partir de outubro 2013 estará disponível o blog em inglês: www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/english.

Quando terminava de escrever esta carta, soube que o Congresso Internacional de História da Ciência, realizado no final de julho, em Manchester, Inglaterra, escolheu o Rio de Janeiro como sede do próximo evento, a ser realizado em 2017. Este é o principal evento do mundo na área, organizado a cada quatro anos pela Academia Internacional de História da Ciência e que só uma vez foi realizado na América Latina (México, 2001). Foi uma decisão louvável que se origina nos esforços valiosos da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Das páginas da História, Ciências , Saúde – Manguinhos nos colocamos às ordens dos organizadores para fazer o melhor evento possível, que surpreenda historiadores da ciência em todo o mundo e que possa demonstrar mais uma vez à sociedade, à saúde pública e às instituições precisam de mais história.

Marcos Cueto
Editor científico

 

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