Museu Nacional, ‘miniatura do país’

Outubro/2018

Blog de HCS-Manguinhos

Miniatura do país. É assim que o médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto referia-se ao acervo material e imaterial do Museu Nacional, que refletia a diversidade cultural, biológica e social do Brasil.
No início do século XX, ele liderou um grande projeto de levantamento de dados das populações brasileiras. Boa parte dessa documentação se perdeu no incêndio que consumiu os acervos da instituição, em 2 de setembro de 2018. Este é um dos pedaços da perda imensurável que mais diretamente toca ao professor Vanderlei Sebastião de Souza, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Centro-Oeste, no Paraná. Ele fez suas pesquisas de mestrado e de doutorado usando os arquivos do Museu.
Nesta entrevista ao Blog de HCS-Manguinhos, Souza conta que a sua área de estudos – a história das ciências – foi fortemente afetada. Documentos relacionados à trajetória e à pesquisa de centenas de antropólogos, naturalistas, viajantes, geógrafos e biólogos foram destruídos. “Como o historiador trabalha sempre com fragmentos da história, com pequenos recortes da realidade, a perda de um acervo deste tamanho é um prejuízo difícil de medir”, afirma.
Quando você começou a pesquisar no Museu Nacional?
Comecei a pesquisar nos Arquivos do Museu Nacional há quase quinze anos, desde minha pesquisa de mestrado, quando desenvolvi estudos sobre eugenia, raça e nação no Brasil. Durante o meu doutorado, os Arquivos do Museu foram fundamentais para a construção da minha tese, uma vez que a temática da pesquisa remetia aos estudos antropológicos desenvolvidos pelo médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto, cuja trajetória esteve estreitamente ligada ao Museu Nacional. É importante destacar que Roquette-Pinto foi pesquisador dessa instituição entre 1905 e 1935, tendo sido seu diretor entre 1926 a 1935. Conforme procurei ressaltar em minha tese de doutorado, as pesquisas antropológicas empreendidas por Roquette-Pinto ligavam-se a uma longa tradição de pesquisa fundada no Museu Nacional desde o século XIX, quando foram empreendidos os primeiros estudos de antropologia da população brasileira. Como sabemos, o Museu foi pioneiro nos estudos sobre a diversidade da população brasileira, tendo realizado um conjunto importante de trabalhos científicos sobre as populações indígenas, sertanejas, africanas e de imigrantes europeus, sempre preocupado em compreender a formação racial, antropológica, etnográfica e social do Brasil. No início do século XX, Roquette-Pinto inclusive liderou um grande projeto de levantamento de dados das populações brasileiras, o que envolveu pesquisadores do Museu Nacional e de outras instituições do país. Boa parte dessa documentação estava arquivada nos acervos do Museu Nacional.
Poderia falar sobre os documentos que pesquisou, sua relevância para a sua pesquisa e a importância do acervo para a sua área de estudos?
Nos arquivos do Museu Nacional pesquisei documentos administrativos, correspondências, bilhetes, telegramas, documentos pessoais, projetos institucionais, atas de reuniões, documentos sobre eventos científicos, cadernos, resumos e anotações de pesquisas, revistas e periódicos científicos e livros históricos datados do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Essa documentação foi primordial para a pesquisa, especialmente durante o doutorado. Sem elas, o trabalho ficaria bastante limitado e não teria a amplitude que consegui construir. Nos arquivos do Museu, foi possível acessar documentos raros – pessoais, administrativos e científicos – que não seriam localizáveis em outras instituições. No meu caso, como já mencionei, pelo fato de pesquisar um antropólogo que construiu sua trajetória profissional e científica dentro do próprio Museu, os arquivos da instituição foram decisivos. A área de estudos na qual atuo, que é o campo da história das ciências, talvez tenha sido a mais fortemente afetada pelo incêndio que consumiu os acervos da instituição. Documentos relacionados à trajetória e à pesquisa de centenas de antropólogos, naturalistas, viajantes, geógrafos, biólogos, entre outros, foram destruídos. Boa parte desse acervo, como já mencionei, continha documentos raros, impossíveis de ser acessado em outros arquivos. Além disso, milhares de documentos pessoais, administrativos e governamentais também se perderam, assim como o acervo de periódicos, livros e outros documentos científicos que eram diariamente pesquisados por historiadores das ciências, fundamentais para a construção de pesquisas individuais e coletivas. Como o historiador trabalha sempre com fragmentos da história, com pequenos recortes da realidade, a perda de um acervo deste tamanho é um prejuízo difícil de medir.
Como você avalia o impacto dessa perda em termos acadêmicos, culturais e sociais?
É muito triste e difícil falar sobre essa tragédia que aconteceu com Museu Nacional e mensurar o tamanho do impacto que isso teve para a pesquisa científica, para a cultura e a sociedade brasileira. O Museu Nacional sempre foi pioneiro na construção da memória nacional e na produção de conhecimento sobre a antropologia, a história e a geografia do Brasil. Além disso, o acidente com o Museu também trouxe prejuízos incalculáveis para as áreas das ciências naturais (botânica, zoologia, biologia, oceanografia, entre outras), campos das ciências nas quais a instituição sempre teve autoridade e legitimidade histórica. O Museu, como o próprio Roquette-Pinto gostava de mencionar, referindo-se ao seu acervo material e imaterial da instituição, funcionava como uma miniatura do país, um espaço fundamental para educação, pesquisa e conhecimento da diversidade cultural, biológica e social. Neste sentido, a perda dos arquivos do Museu Nacional dificultará especialmente a reflexão sobre a história e a memória do Brasil, tendo em vista que se tratava de um dos mais ricos, raros e completos acervos históricos do mundo.
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Eugenia ‘negativa’, psiquiatria e catolicismo: embates em torno da esterilização eugênica no Brasil, artigo de Robert Wegner e Vanderlei Sebastião de Souza (vol.20 no.1 Jan./Mar. 2013  Epub Feb 20, 2013)
Arquivo de Antropologia Física do Museu Nacional: fontes para a história da eugenia no Brasil, artigo de Vanderlei Sebastião de Souza, Ricardo Ventura Santos, Mônica Costa S. Coelho, Ozana Hannesch e Claudia Rodrigues-Carvalho (vol.16 no.3 Rio de Janeiro jul/set 2009)
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Como citar este post:
Museu Nacional, miniatura do país, entrevista com Vanderlei Sebastião de Souza. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2018. Publicado em 04 de outubro de 2018. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/museu-nacional-miniatura-do-pais/
 

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