Museu Nacional e Fiocruz: notas iniciais para uma historiografia das relações entre as duas instituições

Outubro/2018

Cristiane d’Avila *
Uma frase pode resumir o espírito de uma  época, ou de um país. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, em abril deste ano, o recém-empossado diretor do Museu Nacional declarou: ‘Precisamos apenas de uma decisão política’. A despeito do advérbio, que atenua a contundência do enunciado, a assertiva de Alexander Kellner desnudava uma percepção: com frequência mais do que desejada, respostas de governos às demandas sociais se dão fora do tempo ideal, ou estão sujeitas a condições nem sempre alinhadas ao interesse geral. Kellner referia-se, pontualmente, à urgente necessidade de reformas no prédio da bicentenária instituição, cuja absoluta destruição por um incêndio, no dia 2 de setembro, completa um mês hoje.
A fala do diretor, então repleta de projeções para o futuro do museu, deixava ver a expectativa de que a preservação daquele patrimônio histórico e arquitetônico inigualável fosse assumida como prioritária pelo governo federal. Somava-se a ela a esperança de centenas de profissionais que, como ele, urgiam em ver o palácio e o acervo ali guardado como destinatários do reconhecimento do qual eram merecedores.
Formado por mais de 20 milhões de itens captados ao longo de 200 anos de existência, o Museu Nacional não era “apenas” o maior museu de história natural da América Latina. A formação de seu acervo se deu a partir da interlocução de seus pesquisadores, professores e dirigentes com inúmeras instituições de pesquisa nacionais e internacionais, dentre elas a Fiocruz.
Desde o início do século 20, a parceria do então Instituto Oswaldo Cruz (IOC), fundado em 1900, com o Museu Nacional é pungente e constante. Arthur Neiva (1880-1943), Lauro Travassos (1890-1970) e Ângelo Moreira da Costa Lima (1887-1964) são apenas alguns dos nomes de pesquisadores do IOC que trabalharam diretamente com colegas do Museu Nacional e ali depositaram os objetos de suas pesquisas, constituindo um precioso acervo de coleções, principalmente entomológicas.
Inúmeros são os depoimentos, livros, pesquisas, que registram a profícua parceria acadêmica entre as duas instituições. Por exemplo, em expedição científica ao Mato Grosso e Pantanal, em 1922, para pesquisas parasitológicas e veterinárias, Lauro Travassos registrou:
Nossas pesquisas foram dirigidas por três objetivos principais: primeiro, pesquisas helmintológicas realizadas por L. Travassos; segundo, pesquisas protozoológicas principalmente de protozoários intestinais realizadas por Julio Muniz; terceiro, pesquisas entomológicas e de hematozoários realizadas por Cesar Pinto. Além disso temos a referir os naturalistas que nos prestaram o valiosíssimo auxílio ao determinar os vertebrados capturados e examinados: Snr. Prof. Alípio de Miranda Ribeiro, do Museu Nacional e Snr. João Leonardo de Lima, do Museu Paulista. (TRAVASSOS; PINTO; MUNIZ, 1927, p.3)
Travassos referia-se a uma das inúmeras expedições científicas do IOC realizadas pelo interior do Brasil, na esteira das viagens dos pesquisadores do Instituto empreendidas desde o início do século 20. A participação dele nessas expedições resultou na formação da rica Coleção Helmintológica do IOC.
Pesquisador do IOC, o entomologista Ângelo da Costa Lima foi responsável pela publicação de um monumental tratado sobre a fauna entomológica brasileira, denominado Insetos do Brasil, e pela formação de uma coleção, constituída principalmente por insetos de importância agrícola, considerada patrimônio científico. Em tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Rangel (2006) analisou a relação entre o saber de Costa Lima, a consolidação da entomologia agrícola no Brasil, principalmente como consequência da atuação do cientista no Museu Nacional, e seus reflexos na agricultura brasileira.
No período em que Costa Lima trabalhou no Museu Nacional, realizando pesquisas de combate a pragas que atacavam as lavouras brasileiras, criou, em 1918, o Serviço de Combate à Lagarta Rósea, cuja sede Central era o Museu Nacional, órgão também vinculado ao Ministério da Agricultura. (…) é o chefe do Serviço de Combate à Lagarta Rósea, 1918 – 1920, e, dentre as suas atribuições, estariam incluídas as viagens às regiões atingidas pela praga. (…) foi a partir da construção do discurso da necessidade de se desenvolver e proteger a lavoura nacional que a entomologia agrícola veio a se transformar num dos temas mais discutidos nos periódicos científicos e não-científicos do Brasil. (RANGEL, 2006, p.56)
Arthur Neiva, em sua passagem pelo Museu Nacional como diretor da instituição (1923-1927), criou o periódico científico Boletim do Museu Nacional, para publicação de artigos originais escritos por especialistas e técnicos da casa. Em tese sobre os estudos de antropologia no museu, Keuller (2008) avaliou a passagem de Neiva pela direção da instituição.
Defendia a reincorporação do laboratório de entomologia ao Museu Nacional de forma a reintegrar o Museu nas suas tradições e auxiliar nos estudos da Indústria Pastoril. Planejava fazer alterações no corpo técnico e administrativo, com profissionais dedicados integralmente à pesquisa e estudo, concedendo novas atribuições às seções do Museu. (KEULLER, 2008, p.139)
De acordo com a pesquisadora, para o diretor “o Museu Nacional precisava dedicar-se aos estudos de laboratório “como no tempo de Oswaldo Cruz”. A declaração do cientista sugere que ele, tomando como exemplo sua experiência no IOC e as ricas observações de caráter sociológico e antropológico efetuadas ao longo das expedições que realizou com Belisário Penna, em 1912, aos estados do Ceará e Piauí, imaginava uma outra diretriz para a pesquisa no MN. Mas essa é uma outra história.
* Jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
Nota da Fiocruz em solidariedade à UFRJ pelo Museu Nacional, divulgada em 3/9/18
Fundação Oswaldo Cruz
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) manifesta sua irrestrita solidariedade à comunidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em especial, do Museu Nacional, diante da tragédia que atingiu a instituição. 
Este lamentável episódio do incêndio do Museu Nacional nos remete à reflexão sobre as condições que afetam as políticas públicas de preservação do patrimônio histórico, da cultura, da educação e da ciência mas, além disso, o setor público como um todo. Fruto da dedicação de profissionais durante os 200 anos de existência do Museu, as coleções lá existentes inspiraram gerações de brasileiros e visitantes de todo o mundo, possibilitando a pesquisa e a geração de conhecimento, centrais para a humanidade e para consolidação de nossa posição enquanto nação.
Dentre as causas desta tragédia, estão as políticas de austeridade fiscal, que atingem diretamente instituições públicas como as universidades, resultando no abandono de áreas tão sensíveis e fundamentais para o desenvolvimento do Brasil. 
Neste momento de profunda tristeza e indignação, devemos denunciar com mais vigor as precariedades motivadas pelas restrições de recursos e as dificuldades de gestão, que geram obstáculos à administração de áreas de tamanha complexidade como é a área de patrimônio científico.
A história da Fiocruz, em certa medida, confunde-se com a trajetória do Museu Nacional. Ao longo dos anos, estabelecemos parcerias visando à divulgação científica por intermédio de exposições como A ciência dos viajantes, Roquete Pinto um Brasiliano, entre muitas outras, além de diversas ações comuns no campo da pesquisa e formação de pessoas. Temos portanto, o dever e a obrigação de estar ao lado dos servidores e da sociedade como um todo, alertando para a necessidade primordial de um setor público que tenha nas políticas de ciência e tecnologia, educação e cultura, pilares de um país dono de seu destino.
Não podemos assistir passivamente à destruição de políticas públicas gerada no rastro da PEC do Teto dos Gastos, em favor de interesses que flagrantemente geram cada vez mais concentração de renda, desemprego e abandono de setores estratégicos como a saúde, a educação e a ciência e tecnologia, fundamentais para a construção de um Brasil justo, democrático e soberano.
Referências bibliográficas
SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Arthur Neiva e a ‘questão nacional’ nos anos 1910 e 1920. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 16, supl. 1, p. 249-264, Julho, 2009. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702009000500012&lng=en&nrm=iso. Acessado em 24 Set. 2018.
KEULLER, Adriana. Os estudos físicos de antropologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro: cientistas, objetos, ideias, instrumentos (1876-1939). Tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo. USP. São Paulo, 2008. Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-18092008-161852/pt-br.php. Acessado em 24 Set. 2018.
RANGEL, Marcio Ferreira. Um entomólogo chamado costa lima: a consolidação de um saber e a construção de um patrimônio científico. Tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, COC/Fiocruz, 2006. Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/semear/docs/Teses_dissertacoes_tcc/Tese_RANGELMARCIO.pdf. Acessado em 24 Set. 2018.
TRAVASSOS, Lauro; PINTO, Cesar; MUNIZ, Julio. Excursão scientifica ao Estado de Matto Grosso na zona do Pantanal (Margens dos Rios S. Lourenço e Cuyabá) realisada em 1922. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 249-269, 1927. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0074-02761927000200004&lng=en&nrm=iso>. Acessado em 24  Set.  2018.
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Como citar este post:
Museu Nacional e Fiocruz: notas iniciais para uma historiografia das relações entre as duas instituições, por Cristiane d’AvilaBlog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2018. Publicado em 02 de outubro de 2018. Disponível em  http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/museu-nacional-e-fiocruz-notas-iniciais-para-uma-historiografia-das-relacoes-entre-as-duas-instituicoes/

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