Malária, maleita, doença e desejo

Novembro/2013

O homem, na Amazônia, ali chegando dos salubérrimos sertões do norte do Brasil (…) bem depressa vai lastimar a própria ousadia no aniquilamento de todas as energias cumuladas. São levas inteiras de cearenses, desse povo de valentes que exemplifica a resistência e a tenacidade nacionais, em curto prazo dizimadas pela malária! Os que não perecem, aqueles cujo destino incerto foi menos inclemente, esses regressam, trazendo em lesões orgânicas definitivas os resíduos da moléstia
Carlos Chagas, 1913

Quero, desejo ardentemente, é ser maleitoso não aqui, com trabalhos a fazer, com a última revista, 
o próximo jogo de futebol, o próximo livro a terminar. 
Desejo a doença com todo o seu ambiente e expressão, num igarapé do Madeira com seus jacarés,
ou na praia de Tambaú com seus coqueiros, 
no silêncio, rodeado de deuses, de perguntas, de paciências.
Mario de Andrade, 1927

Barco de transporte na Amazônia Foto de Mario de Andrade, 1927

Barco de transporte na Amazônia. Foto de Mario de Andrade, 1927

Chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus em 1904, Euclides da Cunha encarou uma Amazônia impenetrável e dominada pela doença. Dizia que o homem chegara às terras amazônicas antes que elas estivessem prontas para recebê-lo. Nas décadas seguintes, outras visões da relação entre a malária e o projeto de se construir uma civilização nos trópicos influenciaram o pensamento social sobre a Amazônia.
Destacam-se as posturas opostas do médico sanitarista Carlos Chagas, que viajou pela região de 1912 a 1913, e do escritor Mário de Andrade, que aventurou-se em 1927.

Carlos Chagas (no centro) às margens do rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), 1913. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Carlos Chagas (no centro) às margens do rio Negro,
em São Gabriel da Cachoeira (AM), 1913.
Acervo da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

No artigo Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazônia, publicado em História, Ciências, Saúde – Manguinhos (v.20, n.3, jul.-set), Nísia Trindade Lima, professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz /Fiocruz, e André Botelho, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, discutem as visões do médico e do poeta.

“Nos textos de Chagas, estranhamento é a categoria que organiza a percepção a respeito da Amazônia, evidenciada na ideia de patologia dos trópicos a desafiar o conhecimento estabelecido sobre a doença. Empatia, por outro lado, é a categoria-chave para compreender a perspectiva crítica de Mário de Andrade, que valoriza as formas de sociabilidade, crenças e expressões populares da região, inclusive as relativas à malária”, afirmam os autores.

Carlos Chagas liderava a comissão do Instituto Oswaldo Cruz encarregada de avaliar as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha. A Superintendência da Defesa da Borracha solicitara o estudo porque precisava elaborar um plano para a exploração racional que protegesse os seringueiros de doenças, principalmente a malária.

Chagas percebia a doença como importante fator de atraso e obstáculo à civilização, e a higiene e a medicina tropical seriam a saída para a construção de uma civilização nos trópicos. A malária, “o duende da Amazônia”, segundo Oswaldo Cruz, deveria ser combatida. De fato, os médicos destacaram-se na profilaxia e no estudo da transmissão de doenças e do comportamento de seus vetores.

Quinze anos mais tarde, o escritor Mário de Andrade cria novas perspectivas ao abordar a relação cultural dos homens amazônicos com a doença. Nos relatos de sua viagem de três meses à Amazônia, entre 8 de maio e 15 de agosto de 1927, chega a valorizar a malária, chamada afetuosamente de “maleita”, devido à prostração que causa, e comparando seus efeitos ao de outras drogas, inclusive as socialmente aceitas, como o álcool.

A “filosofia da maleita” contrapõe-se aos relatos de Carlos Chagas, que considera a malária ‘o’ mal da região, inaceitável, já que seria evitável por meio de medidas profiláticas.

De acordo com Nisia, a medicina tropical, tal como compreendida por Carlos Chagas nas primeiras décadas do século XX, contribuiu para uma visão ampla do processo saúde-doença, envolvendo fatores biológicos, ambientais e sociais; daí se observar, ao mesmo tempo, uma visão sobre saúde e sobre o Brasil. Contudo, a perspectiva de uma missão civilizatória trazia elementos de estigmatização sobre as populações da Amazônia e de outras regiões do país.
 
“Faltava a empatia com os setores populares que no artigo ressaltamos como contribuição dos textos de Mario de Andrade relacionados à  sua experiência de viagem à Amazônia”, explica a autora. Para ela, a perspectiva sobre saúde e sociedade hoje fica mais rica e complexa se levarmos em conta essas diferentes visões sobre a sociedade. (Por Marina Lemle, do blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos)
 
barqueiro

Mário de Andrade fotografa o barqueiro em 1927. Ao fundo, Santarém.

 
Leia em História, Ciências, Saúde – Manguinhos:

Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazônia – Nísia Trindade Lima e André Botelho (v.20, n.3, jul.-set)
 
Como citar este post:

Malária, maleita, doença e desejo, Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Publicado em 6 de novembro de 2013. Visto em 24 de abril de 2019. Disponível em www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/malaria-maleita-doenca-e-desejo/
 
Como citar o artigo:
LIMA, Nisia Trindade  e  BOTELHO, Andre. Malaria como doenca e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mario de Andrade a Amazonia. Hist. cienc. saude-Manguinhos [online]. 2013, vol.20, n.3 [citado  2013-11-06], pp. 745-763 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702013000300745&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0104-5970.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-597020130003000002.

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