Macacos não jogam futebol

Ricardo Waizbort | Pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)

Ricardo Waizbort

Ricardo Waizbort

A discriminação racial é uma das facetas mais odiosas e obscuras da história humana. Recentemente, ela veio à tona, mais uma vez, no episódio em que o jogador de futebol Daniel Alves, do Barcelona e da seleção brasileira, em jogo com o Villareal, comeu a banana que lhe foi atirada como forma de ofensa moral. Como se sabe, jogar uma banana em um atleta, é chamá-lo de macaco, de inferior. A repercussão do ocorrido foi extraordinária e ainda circula pela rede.

Em ocasiões como essa costuma-se atribuir a Darwin e à sua teoria da evolução um papel fundamental: não só Darwin teria sido um racista em pessoa, como sua teoria da seleção natural, com as ideias de luta e sobrevivência dos mais fortes, daria o fundamento racional para o colonialismo, o racismo científico e a escravidão. Nada mais longe da verdade. A ideia de que a teoria da evolução é responsável pela concepção de que certas “raças” humanas são superiores a outras é de um ponto de vista histórico imensamente não acurado. O racismo é muito anterior a qualquer teoria da evolução. Em realidade, Darwin foi um abolicionista convicto e intelectualmente atuante, cujo trabalho científico refutou a base das crenças racistas de sua época, sobretudo a ideia de que existiam muitas espécies humanas diferentes, defendida pelos pluralistas.

Nesse contexto, embora os macacos tenham exercido uma função de fato extraordinária na imaginação do senso comum, a batalha entre pluralistas e unitaristas, mais tarde rebatizados como, respectivamente, poligenistas e monogenistas, foi vencida, em termos de método, no campo da domesticação animal. A premissa era que se fosse provado que as variedades (raças) de animais domésticos podiam cruzar-se entre si e produzir prole fértil, seria necessário considerar que as diferentes raças faziam parte de uma única e mesma espécie. Os pluralistas (poligenistas) afirmavam que cada “raça” humana era uma espécie diferente, criada independentemente. Darwin, unitarista (monogenista), defendia que todas as “raças” humanas faziam parte de uma mesma espécie, além de compartilharem um ancestral comum. Para Darwin, esse ancestral certamente seria um primata não humano, o que chocou a sociedade vitoriana. As diferenças observadas entre as “raças”, segundo Darwin, teriam sido originadas de processos de seleção, no caso, sobretudo, de seleção sexual, e de fenômenos sociais e culturais.

Mas, uma questão é o problema científico que Darwin procurou resolver: a origem das inúmeras “raças” humanas. Outra é a questão moral de se considerar uma “raça superior” a outras e atribuir a essa “raça superior” o direito de dispor das outras, inclusive, as escravizando, ofendendo, constrangendo ou matando. Quando jovem, em Edimburgo, onde tentou estudar medicina, Darwin foi aprendiz na arte do empalhamento de animais de “John” um “negro retinto, um amigo íntimo” (Desmond & Moore, 2009). A bordo do HMS Beagle, ele teve contato com três fueguinos, que Fitzroy, o capitão do barco, acreditava devolver à terra natal, a Terra do Fogo, devidamente “civilizados” e aptos a “civilizar” a sua própria “raça”. Darwin os tratou com respeito e dignidade, inclusive como interlocutores intelectuais. O envolvimento de Darwin com a causa abolicionista vem de família, de seus dois avôs. Eles contribuíram para caracterizar a escravidão como uma instituição espúria e nefasta. Não há espaço aqui para detalhar o quanto Darwin lutou contra a escravidão e o princípio de que a “raça branca” e as assim chamadas “raças selvagens”, onde se incluía a “raça negra”, compartilhavam um ancestral comum. O racismo científico, formalizado por Gobineau, ganhou em Darwin e na teoria da evolução por seleção natural seus mais sofisticados inimigos. Em 2009, Adrian Desmond e James Moore publicaram A causa sagrada de Darwin. Nesse volumoso trabalho eles argumentam que o motor intelectual do trabalho científico de Darwin foi também religioso e político: dar um suporte racional à ideia de que existe apenas uma espécie humana, de que toda a variedade (“raças”) que vemos compartilha um ancestral comum, ou seja, que a ideia linear de superioridade e inferioridade deve ser abandonada em nome de uma imagem arborescente de ramificação das espécies. Nesse sentido eles provam com sucesso que, embora A origem das espécies faça apenas uma breve e famosa referência à evolução da espécie humana por mecanismos de seleção, o livro trata da própria espécie humana. Pois para Darwin aquilo que vale para as outras espécies deve valer também para a nossa. Para aqueles leitores que não estiverem dispostos a enfrentar a volumosa caracterização de A causa sagrada de Darwin, sugiro a leitura da resenha do livro de José Costa Júnior, doutorando em Filosofia do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da FAFICH da UFMG. Ele conclui esse excelente trabalho afirmando que “apesar do conhecimento científico não fundamentar valores, é capaz de esclarecer erros e preconceitos, desempenhando um papel libertador no exercício das escolhas morais. A ciência pode trazer elementos que contribuam para a reflexão e ampliar o campo no qual possamos exercer nossa liberdade. É o que fez Darwin, segundo os autores de A causa sagrada de Darwin, mostrando como um cientista pode afastar certas práticas morais deturpadas e mudar para sempre o lugar do homem na natureza”. Nós e os grandes primatas (chimpanzés e gorilas) compartilhamos um ancestral comum. Mas, se é para levar a sério a teoria da evolução de Darwin, a espécie humana desenvolveu características que nos distinguem de toda e qualquer espécie. Ao longo da extensa história das espécies isso é trivial. A variação é a base sobre a qual age todo e qualquer processo seletivo. Todas as espécies são únicas. Nós não somos macacos! Macacos não jogam futebol, nem comem com garfo e faca, nem possuem eleições democráticas, nem fabricam automóveis que entopem as ruas e avenidas de todas as metrópoles. É preciso muito mais do que uma dose de história para entender a teoria da evolução de Darwin, ao contrário do que afirma James Bradley e tal como citado no artigo de Douglas Belchior em Carta Capital. É preciso bem compreender e ensinar a história da produção e dos usos do conhecimento em ciências biológicas, pois a relação que se pode estabelecer entre a história do racismo e o darwinismo de Darwin, na verdade, leva-nos a postular que a teoria da evolução por seleção natural retira o suposto suporte racional de toda e qualquer atitude colonialista e racista. Somos todos humanos. Seria melhor, portanto, que aqueles que escrevem que Darwin e a teoria da evolução tornaram o colonialismo e o racismo piores que antes pudessem ler primeiro a literatura que a história e a filosofia da ciência nos oferecem. E teria sido melhor que a criatura que jogou a banana em Daniel Alves guardasse para si a fruta, pois, além de deliciosa e nutritiva, ela pode vir a ser útil nos tempos de crise atualmente vividos na Europa. Leia no blog de HCS-Manguinhos: ‘O x da questão não está na reação do jogador, mas no teor da campanha’ Para Clícea Maria Miranda, associação do negro com animalização e a irracionalidade está cristalizada. Leia os artigos de Douglas Belchior no seu blog na Carta Capital, que suscitaram este debate: Contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor! Xingar de macaco: uma pequena história de uma ideia racista Artigos de Ricardo Waizbort em HCS – Manguinhos: As funções de um cérebro darwinista: Guedes Cabral e o evolucionismo de Funções do cérebro (1876), de Roberto Sobreira Pereira Filho e Ricardo Waizbort A dor além dos confins do homem: aproximações preliminares ao debate entre Frances Power Cobbe e os darwinistas a respeito da vivissecção na Inglaterra vitoriana (1863-1904), de André Luis de Lima Carvalho e Ricardo Waizbort Um replicador em movimento: aproximações entre a poética narrativa de Borges e o programa de pesquisa dos memes, de Ricardo Waizbort e Lucia de la Rocque Notas para uma aproximação entre o neodarwinismo e as ciências sociais, de Ricardo Waizbort Teoria social e biologia: perspectivas e problemas da introdução do conceito de história nas ciências biológicas, de Ricardo Waizbort Leia também em HCS-Manguinhos: Como viviam e morriam os escravos no Brasil? Treze artigos inéditos do suplemento Saúde e Escravidão revelam como viviam, adoeciam, eram curados ou morriam os escravos e libertos. Formação de relações regionais em um contexto global: a rivalidade futebolística entre Rio de Janeiro e São Paulo durante a Primeira República – Artigo de Christina Peters que trata de identidades regionais e também discute o racismo no futebol E ainda mais sobre racismo em HCS-Manguinhos:
Sánchez Arteaga, Juanma and Niño El-Hani, Charbel Physical anthropology and the description of the ‘savage’ in the Brazilian Anthropological Exhibition of 1882Hist. cienc. saude-Manguinhos, June 2010, vol.17, no.2, p.399-414. ISSN 0104-5970· resumo em inglês | português    · texto em inglês
 
Mellagi, André Gonçalves and Monteiro, Yara Nogueira O imaginário religioso de pacientes de hanseníaseum estudo comparativo entre ex-internos dos asilos de São Paulo e atuais portadores de hanseníaseHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2009, vol.16, no.2, p.489-504. ISSN 0104-5970· resumo em português | inglês    · texto em português
 
Maio, Marcos Chor and Monteiro, Simone Tempos de racializaçãoo caso da ‘saúde da população negra’ no BrasilHist. cienc. saude-Manguinhos, Ago 2005, vol.12, no.2, p.419-446. ISSN 0104-5970· resumo em português | inglês    · texto em português
 
Pena, Sérgio D. J. Razões para banir o conceito de raça da medicina brasileiraHist. cienc. saude-Manguinhos, Ago 2005, vol.12, no.2, p.321-346. ISSN 0104-5970· resumo em português | inglês    · texto em português
 
Freitas, Marcos Cezar de. Política social e racismo como desafios para historiadores da educaçãoHist. cienc. saude-Manguinhos, Dez 2004, vol.11, no.3, p.797-803. ISSN 0104-5970· texto em português
 
Lewgoy, Bernardo. Do racismo clássico ao neo-racismo politicamento corretoa persistência de um erroHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2006, vol.13, no.2, p.519-522. ISSN 0104-5970· texto em português
 
Maio, Marcos Chor. O Brasil no concerto das naçõesa luta contra o racismo nos primórdios da UnescoHist. cienc. saude-Manguinhos, Out 1998, vol.5, no.2, p.375-413. ISSN 0104-5970· resumo em português | inglês    · texto em português
 
Ramos, Jair de Souza. Ciência e racismouma leitura crítica de Raça e assimilação em Oliveira ViannaHist. cienc. saude-Manguinhos, Ago 2003, vol.10, no.2, p.573-601. ISSN 0104-5970· resumo em português | inglês    · texto em português
 
  Como citar este post [ISO 690/2010]: Macacos não jogam futebol. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 8 May 2014]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/macacos-nao-jogam-futebol/

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