José Murilo de Carvalho: povo brasileiro despertou da letargia

José Murilo de Carvalho. Foto: Divulgação/Companhia das Letras

José Murilo de Carvalho.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras

Para o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho, o povo brasileiro despertou de uma letargia que durava desde o impeachment de Collor e, sobretudo, desde o início do governo do PT. Diante do levante, políticos e governo estão perplexos. Ele deu entrevista ao blog da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos sobre as manifestações que estão ocorrendo pelo Brasil. Quais as principais diferenças entre os protestos de agora e os de décadas atrás? Em relação às diretas e impeachment, imprevisibilidade e multiplicidade de motivos. Um “movimento” difuso, descentralizado, caracterizado por múltiplas causas e com diferentes formas de manifestação (pacífica X violenta) pode ser considerado um movimento ou está mais perto de uma catarse social? Se quisermos precisão conceitual, seria uma manifestação popular, ou da classe média imprensada entre os grandes favorecidos da políticas econômica e social, os MUITO ricos e os MUITOS pobres. Como o senhor avalia as reações dos governantes e das lideranças partidárias à emergência inesperada deste movimento, especialmente aqueles ligados ao PT que foi, no passado, vanguarda de muitas manifestações populares de rua? Todos perplexos, como o resto do país. Governo e petistas constrangidos e desorientados, como seus acólitos, CUT, UNE etc. Presidente, orientada pelo marqueteiro, oportunista. Prefeitos e governadores acuados. Políticos em geral, com orelhas quentes, esperando a onda passar. Oposição em silêncio prudente e medroso. É possível dimensionar a importância deste momento/movimento para a história do Brasil? O que deve mudar daqui para frente? Pergunta para profeta. Qualquer avaliação agora será temerária. O senhor acredita que o povo brasileiro esteja despertando para a cidadania? Despertou de uma letargia que durava desde o impeachment de Collor e, sobretudo, desde o início do governo do PT. O que espera dos protestos? Resultados imediatos, só a revogação dos aumentos das passagens, mas já com ameaça de cortes não sabe onde  (certamente não nas gorduras, isto é,  mordomias, publicidade, excesso de cargos comissionados, altos salários), e talvez a derrota da PEC 37, a tal da impunidade. A queda de prestígio da presidente pode levá-la, com olho na eleição, a rever sua  política econômica para maior controle da inflação. O desprestígio de partidos e políticos em geral (e agora também de organizações operárias e estudantis) continuará a ser combustível para próximas explosões. Nota do blog: Confira o artigo Os bordados de João Cândido, de José Murilo de Carvalho Leia mais: Editor vai às ruas e vivencia a História , por Jaime Benchimol Porque eu gosto das segundas-feiras, por Marcelo Badaró Em praça pública para construir uma pauta coletiva, entrevista com Angélica Müller ‘Mais do que narrar esses eventos, precisamos vivê-los intensamente’, entrevista com Valdei Araujo. Chomsky: “Estou com os manifestantes do Brasil”– Linguista responde pergunta de repórter do Canal Ibase no Forum Global de Mídia em Bonn.  

One comment

  1. Marcmagand /

    Perfeito: “Pergunta para o profeta”. Na contramão dos “especialistas” de plantão que desejam fazer previsões baseadas em suas próprias convicções políticas, José Murilo demonstra cautela, responsabilidade e seriedade. Parabéns.

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