Johann B. von Spix: narrativas e imagens

Janeiro/2014

Luciana de Fátima Cândido | Brasiliana USP

 

Johann Baptist von Spix (1781-1826) nasceu na pequena cidade de Höchstadt an der Aisch, Alemanha. Proveniente de família com poucos recursos financeiros ingressou aos 11 anos na Escola Episcopal de Bamberg e um ano depois se transferiu para o Seminário Episcopal da mesma cidade. Aos 19 anos doutorou-se em Filosofia. Em 1804 iniciou os estudos em Medicina e Ciências Naturais, quando conheceu Schellig, renomado filósofo da natureza, e em 1807 doutorou-se em Medicina.

Já no ano seguinte, Spix foi contratado pelo rei Maximiliano José I para organizar a Academia Real de Ciências em Munique. Antes de assumir a função, o rei custeou por dois anos seus estudos em Paris, centro da zoologia na época. Lá o zoólogo conviveu com personagens renomados da ciência como Georges Cuvier, Jean Baptiste Lamarck e Auguste de Saint-Hilaire. Em 1810 assumiu a Academia Real de Ciências, onde desenvolveu pesquisas relevantes sobre a biologia evolutiva e a anatomia morfológica. O elevado conhecimento em história natural agregado ao trabalho árduo e às viagens científicas levaram Spix a planejar e a coordenar uma viagem de estudos ao Brasil. Carl Fr. Ph. von Martius estava entre os diversos exploradores que dela participaram.

Johann. B. von Spix foi o primeiro zoólogo a pesquisar a região amazônica brasileira e o seu trabalho tornou-se fundamental para estudiosos de todos os tempos, merecendo destaque suas pesquisas sobre os animais vertebrados. Quando retornou à Europa desenvolveu um inventário pormenorizado e amplo sobre a natureza brasileira. Mesmo com a saúde fragilizada, o pesquisador trabalhou incansavelmente e em apenas seis anos escreveu tratados completos descrevendo cerca de quinhentos moluscos e vertebrados. Algumas publicações relevantes neste sentido são Simiarum et vespertilionum Brasiliensium species novae ou Historie Naturelle (1823), trabalho sobre macacos e morcegos, Animalia Nova seve species novae Lacertarum (1824), exemplar que descreve lagartos, cobras, tartarugas e sapos, e dois volumes intitulados Avium species novae, quas in itinere per Brasiliam (1824-1825), livros sobre aves com a participação de Johann G. Wagler. Postumamente foram publicados Selecta genera et species Piscium quos in itinere per Brasiliam(1829), volume sobre diversas espécies de peixes em coautoria com Louis Agassiz, e a obra Delectus animalium articulatorum, quae in itinere per Brasiliam(1830), que traz a descrição minuciosa de alguns insetos e uma apresentação escrita pelo entomologista Maximilian Perty.

Sua publicação mais conhecida é, no entanto, a Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil, 1823, 1828 e 1831), obra escrita em parceria com Carl Fr. Ph. von Martius. Esta obra é fruto das pesquisas realizadas durante a expedição de Spix e Martius pelo interior do Brasil, uma viagem de exploração científica que percorreu 10.000 km. Partindo do Rio de Janeiro, seguiram para São Paulo e Minas Gerais, embrenhando-se pelo sertão e subindo o rio São Francisco até os limites de Goiás. Passaram pela Bahia e Pernambuco, transpondo a Serra Dois Irmãos, visitaram as províncias do Piauí e Maranhão. De lá, seguiram para Belém do Pará, chegando ao rio Amazonas e terminando a viagem em Santarém.

Desde a partida, no Rio de Janeiro, Spix e Martius mostravam-se maravilhados com o que observavam: “[…] Circundados por alta e aéreas cássias, cecrópias de folhas largas e largas e troncos brancos, murtas de folhagens densas, bignônias arborescentes de grandes flores, moitas enredadas de paulínias com cheiro de mel, sarmentos de maracujá, com flores da Paixão, e da trepadeira securidaca de rica floração, por entre as quais sobressaem as copas ondeantes da palmeira macaúba, parecia estarmos transportados ao Jardim das Hespérides. Passando por diversos regatos cuidadosamente aproveitados e por morros cobertos de mata nova, alcançamos, finalmente, o terraço do morro, ao longo do qual a água da fonte é conduzida para a cidade. Desenrolou-se sob os nossos olhares uma vista maravilhosa da baía, das ilhas verdes, nela flutuantes, do porto com mastros e bandeiras sem número, e da cidade estendida ao pé dos mais garbosos morros, cuja casas e torres reluziam ao sol. Longamente nos reteve presos o mágico espetáculo de uma grande cidade europeia, surgida no meio da rica natureza tropical” [Viagem pelo Brasil, vol.I, 1823, p.69]

Ao fim de três anos e meio Martius e Spix voltaram para a Europa com um expressivo material coletado. Martius produziu a obra mais completa sobre a flora brasileira, a conhecida Flora brasiliensis, obra coletiva editada por August Wilhelm Eichler, Ignatz Urban e por ele mesmo, e Spix cuidou especialmente de fazer o inventário sobre a fauna brasileira. Certamente, toda essa produção – tanto as narrativas de viagem quanto as imagens reproduzidas nos atlas elaborados na expedição – contribuiu para a construção e a formação do imaginário do brasileiro na Europa. Esses trabalhos constituem referências indispensáveis para o pleno conhecimento do Brasil dos séculos XVIII e início do XIX uma vez que nos colocam diante de um depoimento fidedigno sobre a vida social e os costumes da Colônia, bem como de suas atividades culturais e econômicas.

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Fonte: Brasiliana USP

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