Inspeção Médica Escolar: do ‘normal’ ao ‘anormal’

Junho/2015

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Os médicos Alsino Braga e Araripe Sucupira examinam meninos na escola Prudente de Morais, em SP. Revista “A Cigarra”, 1914. Arquivo Público do Estado de São Paulo

A atuação da Inspeção Médica Escolar (IME), órgão criado em 1911 como dependência do Serviço Sanitário de São Paulo e transferido em 1916 para a pasta da Instrução Pública, é o tema do artigo Entre o exame do corpo infantil e a conformação da norma racial: aspectos da atuação da Inspeção Médica Escolar em São Paulo, de Heloísa Helena Pimenta Rocha, da Unicamp, publicado em HCS-Manguinhos (vol.22, n.2, jan/abr 2015). Em sintonia com modelos internacionais, o órgão, ora vinculado à Saúde, ora à Instrução Pública, instituiu um conjunto de rotinas voltadas para exame, medição e teste das crianças que frequentavam as escolas paulistas, acompanhado da elaboração de fichas e boletins nos quais eram registrados os resultados desses exames e mensurações, utilizados, por sua vez, para o estabelecimento de parâmetros de normalidade.
Os médicos Alsino Braga e Araripe Sucupira examinam meninos em inspeção médica realizada na escola Prudente de Morais em 1914. Revista "A Cigarra", edição de 1914

Alsino Braga e Araripe Sucupira examinam meninas na escola Prudente de Morais, SP. Revista “A Cigarra”, 1914. Arquivo Público do Estado de São Paulo

A Inspeção Médica Escolar submetia o professor à autoridade do médico na educação das crianças. Tanto que a figura do médico escolar, com seus aparatos, foi introduzida no cotidiano das práticas escolares. Mirando a experiência internacional, os médicos paulistas colocaram na ordem do dia a questão da vigilância higiênica da escola e dos escolares. Influenciados por teorias sobre a constituição dos tipos humanos, procuraram lê-las à luz de uma civilização que se construía nos trópicos, orientando as suas formulações e intervenções no sentido de constituir um tipo nacional, em cuja produção o tema da miscigenação racial mostrou-se uma questão candente. A construção das diferenças, engendrada em um discurso racializado, contribuiu para a definição de um lugar para os considerados anormais, que não se confundia com o lugar reservado para a escolarização das crianças tidas como normais. Heloísa Helena destaca a publicação, em 1917, de uma obra intitulada Débeis mentais na escola, de autoria de Balthazar Vieira de Mello, médico-chefe do IME, no mesmo ano em que o médico publica Higiene escolar e pedagógica para uso de médicos, educadores e estabelecimentos de ensino. Esse momento também coincide com a promulgação da lei estadual n.1.579, que prevê a criação, entre outros órgãos, de um “instituto de anormais”, uma “escola para crianças débeis” e duas “colônias de férias”, sendo uma à beira-mar e outra em região serrana. Tendo como fontes artigos publicados entre 1904 e 1914 no periódico Imprensa Médica por Vieira de Mello, e os Anuários do Ensino, publicação oficial da Diretoria Geral da Instrução Pública, a autora descreve e discute as práticas de exame individual dos alunos, os propósitos a que respondiam, seu papel na configuração de padrões de normalidade e anormalidade e o componente racial envolvido. Leia em HCS-Manguinhos: Entre o exame do corpo infantil e a conformação da norma racial: aspectos da atuação da Inspeção Médica Escolar em São Paulo, artigo de Heloísa Helena Pimenta Rocha (vol.22, n.2, jan/abr 2015) Como citar este post [ISO 690/2010]: Inspeção Médica Escolar: do ‘normal’ ao ‘anormal’. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 24 June 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/inspecao-medica-escolar-do-normal-ao-anormal

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