Incêndio queimou registros únicos da vida de povos que aqui habitaram e foram dizimados pela colonização

Outubro/2018

Nesta semana que marca um mês do incêndio que destruiu o Museu Nacional e seus acervos, o Blog de HCS-Manguinhos publica relatos de pesquisadores que trabalharam com documentos perdidos nas chamas.

Kaori Kodama *

A primeira vez que pesquisei no Museu Nacional foi entre 1999 e 2000, após concluir meu mestrado sobre as correspondências entre Martius e o IHGB. Na ocasião, participei como assistente de pesquisa na exposição A Ciência dos Viajantes- Natureza, populações e saúde em 500 anos de interpretações do Brasil, organizada pela Casa de Oswaldo Cruz para a comemoração dos 500 anos dos descobrimentos. Pesquisei os materiais iconográficos de viajantes das expedições científicas realizadas durante o período joanino, em particular, de Spix e Martius, material este que felizmente se preservou, pois estão no setor de obras raras da Biblioteca do Museu Nacional.

Mais tarde, enquanto fui pesquisadora visitante na Casa de Oswaldo Cruz, participei de um livro organizado por Lorelai Kury sobre a Comissão Científica do Ceará, e fui levantar os objetos indígenas na reserva técnica da Etnologia. Os objetos etnográficos poderiam ter pertencido à remessa feita por Antonio Gonçalves Dias em sua ida à Amazônia, em 1861, com armas, instrumentos musicais, indumentárias e insígnias de povos como os Banawá, Tuxaua, Xirianá, Jaua. Neste conjunto, havia uma grande quantidade de arcos, flechas, lanças, instrumentos de pesca e remos que não estavam identificadas, podendo ter sido advindas de muitas outras expedições, como a de Roquette-Pinto. Apesar das dificuldades em sabermos se as peças seriam de fato as que tinham sido remetidas por Gonçalves Dias, pois não foram individualmente identificadas na época, foi possível encontrar entre elas uma que era muito significativa: uma estatueta talhada em madeira, que representava um missionário denominado Venâncio, que ficou conhecido como Cristo de Içana, nome da localidade fronteiriça com a Venezuela, cujo acesso se dá pelo rio do mesmo nome, no Alto Rio Negro. A peça esculpida em um pequeno tronco de madeira era única, e foi descrita na lista que Gonçalves Dias remeteu como “Santo do intitulado Cristo da Venezuela”. O missionário, idolatrado pelas populações locais, foi mencionado por Gonçalves Dias quando sua canoa alcançava o rio: “O Venâncio, o chamado Cristo, está vivendo no rio Aquio e aí continua com suas pregações. Os índios da Espanha acreditam nele. Em maio deste ano ainda se encontraram canoas que iam dos Uaupés com caixas e presentes a ver o Cristo”. (Gonçalves Dias, Diário de Viagem ao Rio Negro) Agora dele, só nos resta a imagem da litografia de Fleiuss e as fotos que retiramos por ocasião do livro.

Uma das coisas que sempre me impressionou no contato direto com os objetos coletados e os documentos de guarda do Museu é a sensação de estar encontrando, através deles, toda a tradição de autores que ajudaram a compreender o país: cientistas, estudiosos e críticos dos assuntos brasileiros que ajudaram a formar aquelas coleções. Aqueles materiais e documentos nos forneciam um guia para reinterpretar, junto aos relatos, mas a partir de outras perguntas, novas maneiras de se olhar a história do Brasil e as formas de pensá-lo. Podíamos, a partir dos objetos coletados e remetidos por expedições científicas, conhecer um pouco mais sobre as maneiras como os naturalistas e cientistas olharam o país, que passado e que futuro imaginavam. Eram também os únicos registros que tínhamos da vida, das crenças, da cultura, enfim, de inúmeros povos que habitaram o território brasileiro, e que foram dizimados pela colonização.  É esse legado, formador da identidade de todos os que podiam então ter acesso às coleções, que agora se perdeu. (Veja as imagens aqui)

* Kaori Kodama é pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

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Cristiane D’Avila

Leia em HCS-Manguinhos:

Antiescravismo e epidemia: “O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela”, de Mathieu François Maxime Audouard, e o Rio de Janeiro em 1850. Artigo de Kaori Kodama, vol.16, no.2, Jun 2009

Como citar este post:

Incêndio queimou registros únicos da vida de povos que aqui habitaram e foram dizimados pela colonização, Kaori Kodama, Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2018. Publicado em 05 de outubro de 2018. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/incendio-queimou-registros-unicos-da-vida-de-povos-que-aqui-habitaram-e-foram-dizimados-pela-colonizacao/

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