Ildeu de Castro Moreira: divulgação científica ainda precisa avançar muito no Brasil

Julho/2013

IldeuJBRJA cobertura da ciência pela mídia no Brasil é pouca e de má qualidade e a educação científica nas escolas é muito precária. O diagnóstico é do físico Ildeu de Castro Moreira, que acaba de receber o prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica – o mais importante reconhecimento da área no país.

Em palestra realizada no Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 30 de julho, ele traçou um panorama da divulgação científica no Brasil. Moreira criticou o fato de que, fora o programa Globo Ciência – que passa às 6h30 da manhã – quase nada de divulgação científica seja feito, nem mesmo pela TV pública e outros veículos oficiais. Ele acrescentou que na internet, salvo alguns blogs e revistas que estão começando a se adaptar à nova realidade das mídias sociais, ainda há muito pouca divulgação científica em português.

Outro desafio para o Brasil, segundo Moreira, é a realização de eventos que mobilizem as escolas. “O telescópio e o microscópio existem há 400 anos, mas muitos estudantes e até professores brasileiros nunca olharam em nenhum dos dois. Isso é um problema dramático da educação brasileira. Nos Estados Unidos, os instrumentos fazem parte da escola, e isso nem se discute”, comparou. Ele lamentou ainda que a Capital federal não tenha um museu de ciência e que a Amazônia inteira só tenha um, em Belém.

Além disso, ele afirma que há pouca discussão sobre a questão ambiental.

De acordo com Moreira, estima-se que, somando todas as iniciativas de divulgação da ciência realizadas no país hoje, incluindo feiras de ciência e projetos itinerantes, sejam atingidas de 20 a 30 milhões de pessoas. “O desafio é atingir a população como um todo, incluindo os setores mais pobres, o que significa mais de 100 milhões de pessoas”, disse.

Segundo Moreira, existem cerca de 300 museus de ciência no Brasil, a maioria pequenos, com condições precárias. Museus interativos só existem no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. “No Brasil há de 30 a 40 planetários. Na Índia, há 300. Os espaços de divulgação científica são mal distribuídos, refletindo uma distribuição desigual da terra, da riqueza, da educação no país. Precisamos fazer uma divisão mais igualitária e pressionar o governo para que adote a divulgação da ciência como política pública”, disse.

Moreira, que acaba de deixar o cargo de diretor do departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI), listou nove desafios da popularização da C&T no Brasil (imagem abaixo).

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Apesar do olhar crítico, o cientista afirma que a situação já melhorou bastante: o crescimento das publicações em periódicos nos últimos anos teve impacto na divulgação científica brasileira; a última reunião da SBPC, em Recife, teve 25 mil participantes e foram realizadas atividades em cidades do interior de Pernambuco; a última edição da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia teve atividades em 723 municípios; o Brasil tem a maior olimpíada de matemática do mundo, coordenada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa); e desde 2002, percebe-se um movimento de ampliação das universidades, centros de pesquisa e institutos públicos, jardins botânicos e zoológicos.

Ele também destacou os avanços no interior e enfatizou ser essencial fazer divulgação científica de qualidade nas escolas, defendendo a realização de feiras de ciência como um bom instrumento. “A Semana da C&T ainda é uma coisa muito episódica, mas mesmo assim já bota-se o pezinho no lugar. O interior tem um dinamismo que a gente não percebe nas grandes cidades”, afirmou. Moreira citou ainda os avanços no Amazonas, que desde 2003 tem uma Secretaria de C&T e uma Fundação de Amparo à Pesquisa. “O palestrante vai de barco e às vezes leva sete dias para chegar”, contou.

Outro recurso eficiente, segundo Moreira, é o Ciência Móvel – caminhões que podem atingir 200 mil pessoas por ano nas periferias das cidades. O problema é que cada um custa um milhão de reais e é difícil obter os recursos.

Moreira, que é editor adjunto da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, foi homenageado em 21 de julho, na abertura da 65a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Recife, quando recebeu o prêmio José Reis. Sua militância na área tem mais de trinta anos: em 1982, participou da criação da revista Ciência Hoje; em 1983, com o amigo francês Maurice Bazin, concebeu o Espaço Ciência Viva, na Tijuca, Rio de Janeiro; dez anos depois, em 1993, criou a Semana Nacional de C&T e, mais recentemente, no MCT, teve papel fundamental nas mudanças dos critérios do CNPq e na consequente inclusão da divulgação científica no currículo Lattes.

Ele disse estar grato pela premiação mas ponderou: “Premiações individuais são perigosas, porque podem distorcer os fatos. Existem movimentos e a sociedade hoje está mais atenta a essa questão. Estamos vivendo um boom em que a ciência e a tecnologia estão mais presentes na vida das pessoas. O que houve foi uma sensibilização de um momento político e eu estava dentro dessa onda.” (Por Marina Lemle, do blog da HCSM)

Leia artigos de Ildeu de Castro Moreira na HCSM:

(En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira

Para que um diálogo entre ciência e arte? 

A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 1920

Miguel Ozorio de Almeida e a vulgarização do saber
 

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