Historiadores debatem desafios locais e responsabilidades globais em saúde nos séculos XIX e XX

Agosto/2017

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Pesquisadores de diferentes países das Américas discutiram os desafios locais e as responsabilidades globais em saúde pública nos séculos XIX e XX em simpósio realizado em 26 de julho de 2017, no Rio de Janeiro. Organizado por Marcelo Lopez Campillay, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, Paula Caffarena Barcenilla, da Universidad Finis Terrae, do Chile, e Eric D. Carter, do Macalester College, dos EUA, o simpósio integrou a programação do 25º Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia, cujo tema central foi “Ciência, tecnologia e medicina entre o global e o local”.

Patricia Palma

A manhã foi aberta com o trabalho Homeopathic Cabinets & Sugar Globules – The Circulation of Homeopathic Therapies from the US to Peru (1880-1915), de Patricia Palma, da Universidade da Califórnia, Davis, EUA. Ela contou que a homeopatia tem longa tradição na América Latina e que pacientes ilustres, como o general San Martin e Porfirio Díaz, deram visibilidade ao uso de remédios homeopáticos. No Peru, a homeopatia chegou na década de 1880 pelas mãos do americano George Deacon, que enfrentou a poderosa Faculdade de Medicina de Lima para que aceitasse o seu sistema não-ortodoxo de cura. Ele conseguiu popularizar seu conhecimento médico e gerou um debate apaixonado entre detratores e defensores do sistema.

A pesquisadora estudou a circulação de remédios homeopáticos dos EUA para o Peru em um momento em que a Faculdade de Medicina de Lima procurava erradicar o “charlatanismo” e o atendimento médico por indivíduos sem um diploma universitário credenciado pela instituição. Segundo Patricia Palma, embora a população de Lima do século XIX não usasse largamente a homeopatia, pacientes de classe média e alta desempenharam um papel decisivo na promoção do debate à esfera pública. “A saúde pública no Peru era uma arena de tensão e disputa entre vários sistemas de cura, e, apesar do discurso da elite médica, os alopatas estavam longe de ter a monopólio sobre ela”, afirmou.

Marcelo López Campillay

Marcelo López Campillay trouxe o trabalho ¿Una nueva tuberculosis? Sociedad, políticas de salud y globalización en Chile, 1973-2017. Embora a tuberculose tenha começado a declinar sistematicamente no Chile nas décadas de 1960 e 1970, em grande parte devido a uma segunda geração de política de tuberculose, conduzida pelo Serviço Nacional de Saúde chileno, gratuito, a doença apresentou uma singularidade histórica no início do século XXI: as migrações. Segundo o pesquisador, a transformação do país em um pólo econômico incentivou a migração de pessoas de países onde a tuberculose ainda é um problema epidemiológico relevante. Outro fator relevante no cenário recente é a coinfecção de tuberculose e HIV/Aids.

Para López Campillay, uma série de circunstâncias que começaram a convergir no Chile a partir da década de 1990 motivam os pesquisadores a examinar a realidade da tuberculose em um cenário gerado por interações entre fatores locais e tensões globais e entre o modelo tradicional de saúde pública e políticas econômicas neoliberais de governos democráticos. De acordo com o historiador, o cenário traz reflexões sobre o papel crítico da história nas políticas de saúde e as relações entre migração, saúde e espaço público. Ele levantou a questão se é viável falar de uma nova tuberculose à luz do contexto sociocultural, político e epidemiológico em que a doença hoje está inserida.

López Campillay é autor do livro Medicina, política y bien comum: 40 años de historia del programa de control de la tuberculosis, 1973-2013, que ganhou resenha de Juliana Manzoni Cavalcanti em HCS-Manguinhos (vol.23, no.4, out./dez. 2016).

Paula Caffarena

Paula Caffarena fez a apresentação Local diffusion of a global practice: The smallpox vaccination in Chile, 1805-1830. Ela analisou a difusão da vacina contra varíola de 1780 a 1830 no Chile como parte de um processo global do qual a Europa, Ásia, África e Oceania também foram parte, embora com ritmos diferentes. Segundo a pesquisadora, apesar das mudanças econômicas, políticas e sociais do período, a vacinação, como política de saúde pública, continuou sendo uma grande preocupação das autoridades, que assumiram que a proteção da saúde do cidadão era uma das suas funções e projetou mecanismos para realizá-la. Para ela, a vacinação no início do século XIX foi a primeira tentativa de se implementar um programa médico que visava melhorar a saúde da população com ações de prevenção, ao invés da tentativa de cura de uma doença ou de combate a uma epidemia.

Eric Carter

Eric D. Carter apresentou o paper Social medicine and international expert networks in Latin American in the 1930’s. Ele examinou as redes internacionais que influenciaram ideias e a política de medicina social nos anos 1930 e 40 na América Latina, enfocando o papel de pesquisadores e especialistas principalmente do Chile e da Argentina em redes institucionais formais organizadas pelo Escritório da Organização Panamericana de Saúde, a Organização de Saúde da Liga das Nações e o Escritório Internacional do Trabalho.

Andres Baeza, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, apresentou o trabalho Global history and Latin America: current debates and perspectives.

Andres Baeza

Para ele, o conceito de “global” não abrange todas as regiões do planeta da mesma forma – exemplo disso é a posição marginal da America Latina nos recentes debates sobre história global que acontecem no mundo que fala inglês, que focam apenas nas conexões europeias com Ásia, África e Oceania, onde se localizam as colônias britânicas. Apesar disso, nos últimos cinco anos há um crescente interesse em se incluir a América Latina nos debates sobre história global.

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As origens da participação da América Latina na Organização de Saúde da Liga das Nações, 1920 a 1940, artigo de Paul Weindling (vol.13, no.3, July/Sept. 2006)

Uma história institucional da tuberculose no Chile: o Programa de Controle da Tuberculose, 1973-2013, resenha de Juliana Manzoni Cavalcanti para o livro de Marcelo López Campillay, Santiago: Ministerio de la Salud., 2015.

Novas evidências documentais para a história da homeopatia na América Latina: um estudo de caso sobre os vínculos entre Rio de Janeiro e Buenos Aires, artigo de Conrado Mariano Tarcitano Filho e Silvia Waisse (vol.23, n.3, jul./set. 2016)

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