Historiador relaciona planejamento familiar no Peru a interesses dos EUA nos anos 1960

Equipe do Blog de HCS-Manguinhos

Raul Necochea Lopez

Raul Necochea Lopez

Entre as décadas de 1950 e 1960, no Peru, organizações dos Estados Unidos da América desenvolveram métodos de planejamento familiar nem sempre afinados com as leis e costumes do país. Para organizações como The Pathfinder Fund, promover uma intervenção rápida no processo de crescimento populacional dos países em desenvolvimento era correto dos pontos de vista político e moral, mesmo que as tecnologias de controle de natalidade não fossem seguidas do devido acompanhamento clínico. No artigo Gambling on the Protestants: The Pathfinder Fund and Birth Control in Peru, 1958-1965, publicado no Bulletin of the History of Medicine (v. 88, n. 2, 2014), o historiador peruano Raúl Necochea López discute este tipo de assistência que, em seu país, teve as igrejas protestantes como aliadas.

Professor da Universidade do Norte da Carolina em Chapel Hill, EUA, Necochea Lopez também é autor de um livro sobre a história do planejamento familiar no Peru no século 20 (A History of Family Planning in Twentieth Century Peru, Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014). Ele concedeu entrevista ao Blog de HCS-Manguinhos.

O que há de novo na sua pesquisa?

No meu caso, a novidade é o Peru, país que ainda não se beneficiou muito de atenção no campo da história do planejamento familiar. O Peru apresenta uma boa performance na região no ponto de vista macro-econômico, mas seus indicadores sociais melhoram lentamente, incluindo a mortalidade materna e a violência contra mulheres, o que são sinais de injustiça. Claramente, algumas pessoas se beneficiam desproporcionalmente da prosperidade em meu país, enquanto outras continuam lutando por coisas básicas, como manter-se saudável, confiar em médicos e encontrar formas de controle de natalidade. Escrevi o livro para canalisar minha frustração de forma construtiva, entendendo as raízes históricas de certas desigualdades.

O interesse de latino-americanistas em planejamento familiar também é uma novidade e ainda há poucos livros bons sobre o assunto, como os de Gabriela Soto Laveaga sobre o México, de Jadwiga Pieper Mooney e Soledad Zárate sobre o Chile, de Fabiola Rohden sobre o Brasil e de Karina Fellitti na Argentina. Vinte anos atrás, quem lidava com estas questões eram ginecologistas, demógrafos e especialistas em políticas. Isso mudou e agora historiadores estão interessados não apenas nas respostas oficiais para o problema do rápido crescimento demográfico da década de 1960 na região – apesar de a questão ter sido enfatizada pelos governos e profissionais da área de saúde até a década de 1980 -, como também prestam atenção para outras dimensões, como as mudanças tecnológicas no controle da natalidade, a relação entre interesses internos e externos e o papel dos usuários do planejamento familiar. Eu gostaria que o meu livro, A History of Family Planning in Twentieth Century Peru, fizesse justiça a muitos atores que participaram do desenho do que o planejamento familiar é hoje no país.  Consequentemente, a estrutura do livro traz uma série de personagens interrelacionados: elites médicas, movimentos feministas, mulheres e homens que procuraram contracepção e aborto, organizações locais e estrangeiras que promoveram o planejamento familiar, o governo peruano e a Igreja Católica. Em todo o meu trabalho nesse campo, apresento estes personagens com interesse em saúde reprodutiva e sexual que desde muito antes da década de 1960 compõem redes locais e internacionais.

Por que o planejamento familiar era importante para a política externa dos EUA?

A política externa dos EUA mudou radicalmente em meados da década de 1960, sob a presidência de Lyndon Johnson. O Departamento de Estado, especialmente através da Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês), começou a destinar grandes financiamentos para o treinamento de profissionais de saúde em métodos contraceptivos, para apoiar governos em seus esforços por programas e políticas populacionais e para adquirir material e drogas para o controle de natalidade. Países em desenvolvimento eram os principais destinatários deste tipo de ajuda técnica e financeira. O planejamento familiar tornou-se importante para a política externa dos EUA em parte como uma estratégia de defesa. Muitas pessoas vivendo na pobreza expressaria uma potencial volatilidade política em uma época – a da Guerra Fria – em que o governo norte-americano valorizava a estabilidade política e econômica e tentava duramente prevenir incursões comunistas na América Latina.

Apesar de haver alguma verdade neste argumento, ele não representa a história completa, porque superestima a habilidade da política externa dos EUA de impactar instituições culturais e políticas da América Latina, como se fossem se dobrar facilmente a qualquer capricho ou decisão da Usaid. Também subestima os papeis e preferências dos atores locais: médicos, técnicos de governo e usuários de meios de controle de natalidade, que contribuíram para a história do planejamento familiar, nem sempre das maneiras mais construtivas. O escândalo da esterilização forçada no Peru no final dos anos 1990, por exemplo, é uma evidência do poder duradouro destes atores locais.

A Igreja era uma instituição monolítica no planejamento familiar?

Que pergunta boa! Não, não era. Ao longo do século 20, alguns membros do clero eram mais abertos ao planejamento familiar do que outros. O conceito de “paternidade responsável” resumia bem a ideia católica de que prover amor, orientação moral e sustento era essencial para a criação de filhos. O corolário desse conceito é que ter mais filhos do que somos capazes de amar, sustentar e orientar não é apenas irresponsabilidade, mas também pecado.

A Igreja aplicou estas lições quando os contraceptivos modernos (DIU, pílula anticoncepcional etc) tornaram-se populares nos anos 1960, e os transformaram numa poderosa crítica contra a desigualdade social. Por que, perguntavam por exemplo, os ricos podem escolher quantos filhos querem ter enquanto os pobres têm tão tão pouca escolha? Ou por que as mulheres ficam muito mais sobrecarregadas em termos financeiros e de saúde do que os homens?

Hoje em dia, a atitude da Igreja Católica no Peru mudou. Não vejo mais a antiga abertura da Igreja para discutir o planejamento familiar como ferramenta de combate à desigualdade social. Nesse sentido, pode-se dizer que a Igreja tornou-se uma instituição monolítica. Mas a julgar pelos padres, freiras e católicos que conheço, continuo otimista, acreditando que estão apenas pegando leve no momento. Queria poder ajudá-los a se pronunciar um pouco mais.

Quais as diferenças e semelhanças entre o seu artigo e o livro publicado recentemente? 

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Capa do livro de Necochea López

Meu artigo “Gambling on the Protestants: The Pathfinder Fund and Birth Control in Peru, 1958-1965” publicado recentemente no Bulletin of the History of Medicine (volume 88, número 2, 2014) faz parte da minha pesquisa em história do planejamento familiar e trata principalmente do surgimento de um certo estilo de planejamento familiar oferecido por organizações norte-americanas antes do governo dos Estados Unidos se interessar pelo tema. Organizações como The Pathfinder Fund e lideranças do controle de natalidade, como o seu fundador, Clarence Gamble, estavam tão preocupados com o rápido crescimento populacional nos países em desenvolvimento que concluíram que uma intervenção imediata era a melhor forma de agir, do ponto de vista político e moral. Isso implicou na utilização de tecnologias para o controle de natalidade sem muita ênfase na questão médica e certa vista grossa para as leis e costumes dos países onde atuavam.

Uma diferença interessante do meu livro é que para viabilizar essas intervenções imediatas, o The Pathfinder Fund precisou contar com aliados prontamente interessados, em vez de ter que conquistá-los devagar com o tempo. Os aliados, nesse caso, eram de igrejas protestantes do Peru, o que me deu a oportunidade de entender um pouco mais sobre como os protestantes no Peru viam o problema do rápido crescimento populacional. Os leitores terão que dizer se fui justo…

Contribuíram: Marcos Cueto, Marina Lemle e Vivian Mannheimer

Leia mais:

Entrevista com Raul Necochea Lopez em inglês

Gambling on the Protestants: The Pathfinder Fund and Birth Control in Peru, 1958-1965, artigo de Raúl Necochea López publicado no Bulletin of the History of Medicine (volume 88, número 2, 2014)

Leia em HCS-Manguinhos:

Cueto, Marcos. El rastro del SIDA en el Perú. Hist. cienc. saude-Manguinhos, 2002, vol.9, p.17-40. ISSN 0104-5970

Felitti, Karina. Parirás sin dolorpoder médico, género y política en las nuevas formas de atención del parto en la Argentina (1960-1980)Hist. cienc. saude-Manguinhos, Dic 2011, vol.18, suppl.1, p.113-129. ISSN 0104-5970

Carrillo, Ana María. Economía, política y salud pública en el México porfiriano (1876-1910). Hist. cienc. saude-Manguinhos, 2002, vol.9, p.67-87. ISSN 0104-5970

Contreras, Carlos and Cueto, Marcos. Caminos, ciencia y Estado en el Perú, 1850-1930Hist. cienc. saude-Manguinhos, Set 2008, vol.15, no.3, p.635-655. ISSN 0104-5970

Lossio, Jorge. British medicine in the Peruvian Andesthe travels of Archibald Smith M.D. (1820-1870)Hist. cienc. saude-Manguinhos, Dec 2006, vol.13, no.4, p.833-850. ISSN 0104-5970

Como citar este post [ISO 690/2010]:

Historiador relaciona planejamento familiar no Peru a interesses dos EUA nos anos 1960. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 9 December 2014]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/historiador-relaciona-estrategias-de-planejamento-familiar-no-peru-a-interesses-norte-americanos-nos-anos-1960

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