Historiador estuda acervo do Asilo São Vicente de Paulo, em Goiás

Julho/2015

asiloGoias

Alojamento dos internos. Fonte: Acervo Fotográfico do Asilo São Vicente de Paulo. Cidade de Goiás, s/d.

Inaugurado em 1909, pouco depois da abolição da escravidão, o Asilo São Vicente de Paulo abrigava idosos, doentes e doentes mentais pobres. Por medo de contágio de doenças, foi construído distante da cidade de Goiás.

Segundo o livro de registro de entrada, entre 1909 e 1946, estiveram internadas 445 pessoas, de idades variando de seis meses a 115 anos, oriundas de 59 cidades e portadoras de 44 tipos de doenças. Os prontuários médicos registravam, além de lepra (nome popular para hanseníase na época), leptospirose, doença de Chagas, malária e dengue, entre outras doenças tropicais. Da população de internos que oscilava entre 40 a 50, cerca de 20% tinha lepra; 60% eram “loucos”.

Os dados foram apresentados por Rildo Bento de Souza, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, no workshop sobre doenças tropicais realizado na Fiocruz, no Rio, de 1 a 3 de julho de 2015.

Maior construção da cidade de Goiás, o asilo foi obra dos confrades da Sociedade São Vicente de Paulo, criada na França na primeira metade do século XIX para auxiliar pobres. Em Goiás, o ideal da caridade encontrou terreno fértil. Para otimizar o trabalho com os pobres que se amontoavam nas ruas, becos e vilas da antiga Vila Boa, os Vicentinos construíram o asilo em lugar higiênico e aprazível, nos arredores da cidade. Sob a direção interna das Irmãs Dominicanas e sustentado por doações, o asilo tornou-se um espaço sagrado.

Souza contou que, em 1935, as irmãs pediram que os leprosos e os loucos saíssem, ou elas sairiam. Havia relatos de freiras estupradas por internos. Os acusados eram presos. “Trancafiaram os loucos e enviaram os leprosos a outras casas, onde recebiam comida duas vezes por dia. Quando os leprosos morriam, incendiavam os cadáveres e as casas”, revelou.

Mas a doença mais intensa na instituição foi, segundo o historiador, o mal de Chagas. “Pelo olhar de fora, toda a cidade era vista como doente. Houve uma tentativa de segregar os vilaboenses”, contou o pesquisador, que acessou um acervo de mais de 10 mil documentos para remontar a história do asilo.

A dissertação de mestrado de Souza apresentada à UFG, intitulada Pobres, doentes e desvalidos: o asilo São Vicente de Paulo na cidade de Goiás (1909-1935), discute o que representou o asilo para os três grupos diretamente ligados a ele – os Vicentinos, os Desvalidos e as Irmãs Dominicanas – e analisa os reais interesses por trás da construção do Asilo São Vicente de Paulo. Baixe a dissertação.

Leia em HCS-Manguinhos:

Castro, Selma Munhoz Sanches de and Watanabe, Helena Akemi Wada Isolamento compulsório de portadores de hanseníase: memória de idososHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2009, vol.16, no.2.

Rios, Venetia Durando Braga. “O ‘Asylo’, uma necessidade indeclinável de organização social”: indagações em torno do questionário de internamento do Asilo São João de DeusHist. cienc. saude-Manguinhos, Dez 2008, vol.15, no.4

Jabert, Alexander. Formas de administração da loucura na Primeira República: o caso do estado do Espírito Santo. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Dez 2005, vol.12, no.3.

Jacobina, Ronaldo Ribeiro and Carvalho, Fernando Martins Nina Rodrigues, epidemiologista: estudo histórico de surtos de beribéri em um asilo para doentes mentais na Bahia, 1897-1904Hist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2001, vol.8, no.1

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E no blog de HCS-Manguinhos em inglês/espanhol:

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La cólera, la desinformación y el comercio en VeracruzBeau Gaitors y Chris Willoughby exploran el problema comercial y sanitario enfrentado por el puerto mexicano en el siglo 19.

 

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