História do Câncer – atores, cenários e políticas públicas

Março/2014

logotipoHá cerca de sete anos, a Casa de Oswaldo Cruz (COC) desenvolve linha de pesquisa ligada ao controle do câncer no Brasil. Seu coordenador, Luiz Antonio Teixeira, recorda o momento fundador deste processo: “Em 2007, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) completou 70 anos de existência e, em meio as comemorações, idealizou a elaboração de um livro com o registro de sua trajetória. A pesquisadora Cristina Fonseca e eu nos incumbimos do trabalho e produzimos a publicação De doença desconhecida a problema de saúde pública: o INCA e o controle do câncer no Brasil. Fui conquistado pelo tema e passei a me dedicar ao seu estudo e a organização de um grupo dedicado a pesquisas nesse campo”

Em 2010 organizei um número especial da Revista História, Ciência, Saúde – Manguinhos dedicado ao tema. Sob o título Câncer no século XX: ciência, saúde e sociedade, a revista trazia um panorama do controle da doença no Brasil, na primeira metade do século XX. Além disso, este exemplar trouxe artigos de especialistas estrangeiros sobre cânceres femininos, em diferentes países. Em dezembro deste ano, foi realizado o Seminário Internacional: “Câncer, Mulher e Saúde Pública: diferentes olhares”, com a presença de pesquisadores da França, Inglaterra e Argentina. O sucesso destas iniciativas estimulou a posterior realização de pesquisas sobre distintos aspectos da prevenção ao câncer de colo do útero e de mama no Brasil e a apresentação à revista espanhola Dynamis –(juntamente com a pesquisadora Yolanda Eraso, da Oxford Brookes University) da proposta de edição do dossiê Controlling Female Cancer in South-America, que será publicado nos primeiros meses de 2014.

Progressivamente, a ampliação das pesquisas foi favorecida por editais de agências financiadoras, como a Faperj e o CNPq, e se consolidou ainda em 2010, com a celebração de um termo de cooperação técnico-científica entre a COC e o INCA, resultando na criação do projeto “História do Câncer – atores, cenários e políticas públicas”, que tem como principal objetivo produzir conhecimento histórico sobre a trajetória do controle do câncer no Brasil e contribuir para a valorização e preservação do patrimônio cultural produzido pelas instituições relacionadas ao controle da doença. A organização e o desenvolvimento do projeto contaram com a participação de Laurinda Maciel, do Departamento de Arquivo e Documentação, e de Marco Porto, médico e professor da Universidade Federal Fluminense cedido à COC, que contando com grande experiência nas questões relacionadas a câncer e saúde pública, passou a dividir comigo a gestão do projeto.

HCSM: A Fundação Oswaldo Cruz tem forte tradição na produção de análises históricas dedicadas a doenças transmissíveis. Febre amarela, malária, doença de Chagas e varíola são espécies de carros-chefes das pesquisas dentro da instituição. Isto explicaria a demora do câncer para constituir objeto interessante, sob o ponto de vista historiográfico, dentro da Fiocruz?

Nas primeiras décadas do século XX, o câncer também era considerado transmissível, mas de pequena incidência. Mas certamente as explicações são várias para este interesse tardio dentro da Fiocruz.  Como você mesmo disse, um aspecto está ligado à tradição. Os cientistas que lançaram as bases do Instituto Oswaldo Cruz, no início do século XX, atuaram e criaram tradição em pesquisas voltadas para doenças causadas por micro-organismos, que eram percebidas ou apresentadas como urgentes. Além das doenças humanas que você citou e outras como a peste bubônica, tuberculose, lepra e aquelas causadas por verminoses, havia preocupação com doenças veterinárias, cujos investimentos para o tratamento rendiam bons dividendos ao IOC. Os brasileiros adoeciam e morriam devido a enfermidades associadas às más condições de higiene, à pobreza e, acreditava-se, ao ambiente tropical, que favoreceria a proliferação de bactérias e insetos transmissores de vírus e protozoários. O câncer, diferentemente, seria um mal característico da elite. Essa era uma crença da população em geral, que não conhecia as características epidemiológicas da doença. Entre os médicos, uma pequena parte se interessou pelo câncer, que passava ao largo das ações estatais no início do século passado.  Do ponto de vista historiográfico, portanto, parecia não fazer muito sentido escrever algo sobre o câncer se os cientistas da casa não haviam se dedicado ao problema. Além disso, de uma forma mais ampla, a historiografia sobre doenças deu muito mais importância às epidemias e outras doenças transmissíveis pela sua tenebrosa história de mortes e desorganização social. Somente nas últimas décadas, as doenças crônico-degenerativas e outros tipos de agravos a saúde passaram a fazer parte da pauta dos historiadores

HCSM: No Instituto Oswaldo Cruz não havia nenhum cientista a frente de pesquisas a respeito do câncer?

Liderando essas pesquisas não, mas alguns cientistas participaram de investigações relacionadas à doença. As ideias circulavam entre a elite médica. Os estudos eram publicados e compartilhados por muitos, mas na instituição ninguém se dedicou com afinco ao tema. Sei que é contrafatual, mas arriscaria dizer que o câncer estaria mais inserido no IOC se a relação entre algumas manifestações da doença tivessem sido fortemente estabelecidas com micro-organismos. Em 1887, por exemplo, Domingos Freire, professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), publicou artigo no Brasil Médico em que relatou a descoberta do suposto bacilo causador do câncer e informou suas pesquisas para um produto biológico capaz de curá-lo. Anos mais tarde, na década de 1910, foram dermatologistas que dedicaram alguma atenção à doença por conta das terapias de raios X, uma alternativa às cirurgias praticadas, com modificações, desde a Antiguidade. Eduardo Rabello e Fernando Terra, especialistas em sífilis, fundaram, em 1919, o Instituto de Radiologia da FMRJ. Os relatórios desse instituto fazem menção a pesquisas realizadas em colaboração com o IOC. Após a Primeira Guerra (1914-1918) a radioterapia começou a se consolidar na Europa como tratamento adequado para os cânceres de pele e do colo do útero, e suas pesquisas passam a se desenvolver em instituições específicas

HCSM: Outro tipos de câncer sequer eram conhecidos.

Em muitos casos não eram conhecidos, talvez por não se manifestarem em uma população que adoecia e morria, por motivos diversos, antes dos quarenta, cinquenta anos. O câncer é uma doença bastante associada ao envelhecimento. Mas outros eram conhecidos há séculos. O de mama, por exemplo, era conhecido, desde a Antiguidade. Hoje sabemos que são mais de cem tipos de câncer, que têm em comum o crescimento desordenado das células, que invadem tecidos e órgãos. Esta percepção atual da doença guarda forte relação com os estudos do alemão Rudolph Virchow, conhecido como pai da patologia celular. Eles nos forneceu e ressignificou boa parte do vocabulário associado à doença. Mas nosso projeto se dedica às políticas públicas de controle do câncer e, por conseguinte, às manifestações que atingiram e atingem parcelas consideráveis da população brasileira.

HCSM: Para os historiadores menos familiarizados com a história das doenças e da saúde pública, parece difícil pensar os termos de uma historiografia dedicada ao câncer. Por que uma linha de pesquisa direcionada especificamente ao câncer?

As transições demográfica e epidemiológica, em curso no Brasil, têm produzido significativa transformação na composição populacional e nos quadros de morbidade e mortalidade. Para 2021, estima-se a existência de 220 milhões de brasileiros, entre os quais 25 milhões de idosos. Já em nossos dias, os novos padrões alimentares, o sedentarismo, o sobrepeso e a obesidade produzem níveis epidêmicos de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e cânceres.

Esta nova realidade, em construção já há algumas décadas, tem repercussão não apenas na elaboração de políticas públicas, mas nas mais diversas áreas de conhecimento. Trabalhos de pesquisadores europeus e norte-americanos veem renovando o campo da história das doenças, a partir de novas questões e insights que ajudam a compreender dilemas relacionados às doenças crônicas, não transmissíveis, e em especial ao câncer. Questões como as diversas concepções de risco, o aumento progressivo – e, muitas vezes, acrítico – da medicalização, o papel dos programas de prevenção e de rastreamento, e a nova identidade do crescente número de portadores de doenças crônicas assumem uma centralidade até então reservada às epidemias, suas formas de controle e consequências.

HCSM: Quais são as características da produção historiográfica do projeto, na prática?

Nossa produção não difere em nada daquela que se dedica a qualquer outro tema. Para anos mais recuados, fazemos uso de fontes primárias e secundárias, ou seja, de correspondência, de documentação governamental, de cartazes de campanhas sanitárias, fotografias, livros antigos etc.  Nossa intenção é revelar como o câncer foi percebido por diferentes atores em épocas passadas e, fundamentalmente, quais foram as iniciativas de cientistas, médicos e governos para controlar o problema no Brasil. A própria palavra controlar, muito mais recente, não era usual. Preferia-se, nas década de 1940 a 1970(?), a metáfora “combater”. Em tempos de guerra e pós-guerra, o câncer era mais um inimigo a ser destruído.

Para tratar de períodos mais recentes, recorremos a entrevistas com gestores, sanitaristas, técnicos e médicos especialistas. Fazemos uso extensivo das ferramentas próprias da história oral.

O resultado disso são artigos, livros, material audiovisual e exposições, que refletem nossas análises preliminares e produzem matéria-prima para aqueles que futuramente se interessarem pelo tema.  Até o presente, nos dedicamos ao estudo das políticas de controle do câncer do colo do útero, também conhecido como câncer cervical, do câncer de mama e dos tipos de câncer associados ao tabagismo, sobretudo o de pulmão.

HCSM: E esta produção auxilia, de alguma forma, gestores e profissionais de saúde, nos dias de hoje?

Sem dúvida. Os estudos históricos são ferramentas importantes para a compreensão da trajetória e dos aspectos contemporâneos das doenças. No caso brasileiro, a análise histórica das formas como nossa sociedade lida com a doença pode legar importantes contribuições para a compreensão de características distintivas de nossa cultura. A grande valoração dos tratamentos cirúrgicos e de alta complexidade; as dificuldades na concretização de programas de rastreamentos mais simplificados, como o do câncer de colo de útero, a duplicidade de regimes de prevenção, com desmensurada utilização de exames diagnósticos pelas camadas médias, cobertas pelos serviços privados de saúde e o zelo do Estado na implantação de programas de prevenção baseados na ampla distribuição de vacinas, revelam muito sobre nossa sociedade.

HCSM: O câncer e sua história encontraram, finalmente, um espaço dentro da Fiocruz?

Não posso dizer muito em relação ao futuro, ainda que essa seja nossa expectativa. Além da natural inserção no campo da história das ciências e da saúde, em particular no campo da história das doenças, uma linha de pesquisa dedicada ao câncer atende à diretriz da Fiocruz de ampliar suas ações no campo das doenças crônico-degenerativas e negligenciadas, buscando contribuir para o fortalecimento do SUS, com a produção de conteúdos próprios à formação de recursos humanos para a Rede de Atenção Oncológica. Ilustra bem esta dimensão do projeto a elaboração e montagem de exposições – onde a pesquisa histórica contribui para a educação em saúde – e a realização do seminário “O Controle dos Cânceres de Colo do Útero e de Mama no Brasil – trajetória, avanços e desafios”, realizado em junho de 2012, em parceria com a Divisão de Ações de Detecção Precoce, do INCA. Neste evento, o conteúdo acadêmico produzido no âmbito de projeto deu suporte à discussão com militantes de associações de mulheres, gestores e profissionais de saúde da Região Norte com o objetivo de fortalecer a integração entre os setores diretamente envolvidos nas ações de detecção precoce e divulgar conhecimentos sobre o controle destes cânceres em perspectiva histórica.

A formalização da parceria com o INCA estreitou o intercâmbio de informações entre os profissionais e a elaboração de produtos acadêmicos em coautoria, e viabilizou a participação de bolsistas assistentes de pesquisa, responsáveis pela ampliação das atividades do projeto para além do campo acadêmico, com a utilização do material de pesquisa como apoio ao desenvolvimento de atividades de educação em saúde. Tem sido inestimável a contribuição dos sucessivos assistentes de pesquisa, não apenas pelo trabalho no projeto, mas porque vários deles desenvolveram projetos de Mestrado ou Doutorado, tomando por objeto algum aspecto da trajetória do controle do câncer no Brasil. “jovens historiadores como Letícia Pumar, Rosana Temperini, Nicole Garcia, Lia Souza, Vivian Cunha, Priscila dos Anjos, Tiago Jaques e, atualmente, Paula Habib (Programa Inovatec/Fiocruz), Vanessa Lana e Marcio Magalhães, têm dado consistência e perspectiva de futuro para a pesquisa histórica sobre câncer, na medida em que contribuem para adensar a massa crítica ainda tão rarefeita sobre o tema.

Saiba mais:

Site do projeto História do Câncer – atores, cenários e políticas públicas: http://www.historiadocancer.coc.fiocruz.br

Conheça nossa edição especial “Câncer no século XX: ciência, saúde e sociedade”

Conheça também a edição da revista “Dynamis – Controlling Female Cancer in South-America
 

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