Regulação de alimentos no Brasil e muito mais em HCSM

Julho/2017

De vinhos e conhaques a azeite de oliva, o Brasil viu aumentar massivamente os casos de fraudes e falsificações de alimentos em decorrência da crise de abastecimento gerada pela Primeira Guerra Mundial, o que gerou forte reação pública contra os chamados “envenenadores do povo”. Foi a partir desse momento que teve início a institucionalização da regulação de alimentos no País. Esse processo é tema de um dos artigos da atual edição da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos (vol.24, no.2, abr./jun. 2017), que traz doze trabalhos que abordam da assistência médica prestada pela Alemanha Oriental à Nicarágua sandinista à produção de documentários médicos durante o regime franquista na Espanha.

No artigo que inspirou a capa desta edição, o autor aborda o período da Primeira República, durante o qual a questão da regulação do comércio alimentar já fazia parte das políticas sanitárias, embora sua institucionalização fosse seguidamente postergada diante de outras prioridades. Os impactos das fraudes envolvendo alimentos de qualidade inferior ou podres na saúde dos consumidores, levando inclusive à morte em alguns casos, gerou revolta. O cenário começaria a mudar somente com as reformas sanitárias dos anos 1920, apontando para a Primeira Guerra como ponto decisivo para a responsabilização do Estado brasileiro nesse âmbito.

Já o artigo que abre este número mostra como a epidemia de cólera de 1886 e 1887 em Rosario, na Argentina, desencadeou a discriminação de espaços da cidade associados aos focos da doença. O surto, de acordo com o autor, produziu certas imagens sócio-morais sobre os setores mais afetados e resultou na formação de práticas de uma clínica de emergência. Outro trabalho, que se deteve sobre a assistência médica prestada pela Alemanha Oriental à Nicarágua entre 1979 e 1989, aponta que após a ajuda inicial dada pelos europeus, os sandinistas adotaram um sistema de saúde baseado na assistência primária à saúde, dificultando o apoio alemão, que detinha pouca experiência nessa área.

HCS-Manguinhos traz também um artigo que explora o campo da educação médica na Amazônia Brasileira. O texto indica que experiências com internatos rurais – como são chamados os estágios feitos em cidades do interior como parte do período designado como internato médico – tem proporcionado aos estudantes oportunidades singulares, como atendimento clínico, ações educativas e de saúde e vivências do cotidiano local. Já o artigo Documentários médico-científicos coloniais e a legitimação de um estado ideal na Espanha pós-guerra explora o papel de práticas e discursos em cinema e saúde na construção e legitimação das estratégias do regime fascista de Franco.

A produção científica sobre a devastação ambiental no Mato Grosso, gerada pela comissão de demarcação dos limites das fronteiras do Império do Brasil com a Bolívia, é tema de outro texto deste número. O estudo traz considerações sobre a obra Viagem ao redor do Brasil 1875-1878, de João Severiano da Fonseca, que apontou o desmatamento nas margens do rio Paraguai e exigiu providências do governo mato-grossense. Outro trabalho discute o modo de historiadores e cientistas entenderem as relações entre ideologia e ciência, com frequência considerados domínios rivais, a partir da obra de Amílcar Cabral, nascido em 1924 no território da atual Guiné Bissau.

Completam este número de HCS-Manguinhos artigos sobre o conceito de “bioética ambiental”; a epidemia de febre espanhola na cidade de Sorocaba, em São Paulo, em 1918; as dicotomias consolidadas na historiografia das ciências que impedem um melhor desenvolvimento das pesquisas, como o conflito entre relativismo e realismo; além de um ensaio conceitual sobre a ideia de rompimento de paradigmas na saúde pública e seu impacto na leitura histórica sobre esse campo. A seção Fontes inclui um texto sobre o médico português António Nunes Ribeiro Sanches, autor de diversos trabalhos sobre educação e ciência em Portugal e em seu Império.

Na carta dos editores desta edição, André Felipe Cândido da Silva e Marcos Cueto lembram o centenário da morte de Oswaldo Cruz, e comentam o fato de a efeméride coincidir com a ameaça de retorno da febre amarela, doença que o cientista controlara em 1907 no Rio de Janeiro. “Ainda que atualmente detectada no Brasil apenas na forma silvestre, tornou-se enorme o risco de a epidemia se estabelecer nas grandes cidades, risco real diante da proximidade dos sítios de ocorrência e da presença abundante do vetor no ciclo urbano, o Aedes aegypti”, comentam.

Acesse o sumário da edição  (vol.24, no.2, abr./jun. 2017)

Leia no Blog de HCS-Manguinhos:

Carta dos Editores
Os editores-científicos André Felipe Cândido da Silva e Marcos Cueto refletem sobre o centenário da morte de Oswaldo Cruz na Carta do novo número de HCS-Manguinhos

Fraude e regulação de alimentos no Brasil: reflexos da Primeira Guerra
Artigo afirma que só com as reformas sanitárias dos anos 1920 o Estado assumiu suas responsabilidades

Internato rural na Amazônia: vivência local para futuros médicos
Rodrigo Pinheiro Silveira e Roseni Pinheiro fazem análise histórica dos estágios curriculares obrigatórios de treinamento em cidades do interior da região Norte

Desmatamento no Mato Grosso era preocupação ambiental já no século XIX
Mário Ferraro e Silvia Figueirôa abordam a obra Viagem ao Redor do Brasil – 1875-1878, de João Severiano da Fonseca

O Brasil de António Nunes Ribeiro Sanches em 1763
Ideias do médico português sobre a exploração de recursos naturais são tema de artigo de Gisele C. Conceição em HCS-Manguinhos

Ideologia, ciência e povo em Amílcar Cabral é tema de análise
Artigo de José Neves contribui para o debate sobre como historiadores e cientistas sociais entendem as relações entre ideologia e ciência

Artigo discute bioética e ética ambiental em Van Potter
Autores enfocam dimensões interpessoais, socioeconômicas e políticas dos dilemas

Quando os paradigmas mudam na saúde pública, o que muda na história?
Para Guilherme Arantes Mello, o discurso da Fundação Rockefeller sobre os centros de saúde ainda se configura como a última ruptura paradigmática holística da saúde pública brasileira

 

 

 

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