Há um século, o embate entre a elite goiana e os sanitaristas de Manguinhos

Agosto/2016

Mulheres com bócio em Goiás, 1912. Clique na imagem para ampliar e ler a legenda completa.

Mulheres com bócio, Goiás, 1912. Clique para ampliar.

Nas primeiras décadas do século XX, Arthur Neiva e Belisário Penna viajaram pelo sertão goiano para diagnosticar o estado de saúde da população, destacando, sobretudo, a disseminação da doença de Chagas e a decadência do sertão. O relatório, publicado em 1916 com o título Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, impactou a opinião pública, mobilizando intelectuais e políticos em torno do debate sobre os problemas sanitários no interior do país. O relatório de Neiva e Penna se afastava do discurso regionalista, ufanista e romântico, e sugeria a reforma sanitária rural como um meio eficaz de superar o atraso da região.

Na percepção dos sanitaristas, as casas barreadas, propícias à propagação do barbeiro, e a falta de assistência médica permitiram que a doença de Chagas atingisse cruelmente as pessoas. Eles conjecturavam sobre a possível ligação entre o mal de Chagas e a presença do bócio.

A elite política goiana, incomodada com a reverberação negativa do relatório de Neiva e Penna na imprensa nacional, reagiu ao diagnóstico dos sanitaristas e a polêmica ganhou as páginas da revista A Informação Goiana. O periódico assumiu a defesa dos interesses da região, pois seus articulistas estavam certos de que cabia aos goianos a missão de revelar a verdade sobre o sertão, sua gente e suas potencialidades.

No artigo O sertão remediado: o embate entre a elite goiana e o pensamento sanitarista, 1910-1920, publicado em HCS-Manguinhos (vol.23, no.2, abr./jun. 2016), Noé Freire Sandes e Vera Lúcia Caixeta, professores de História respectivamente da Universidade Federal de Goiás e do Tocantins, contam que os diretores e articulistas do periódico buscaram desqualificar o relatório Neiva e Penna, sob a alegação de que lhe faltava rigor científico. Para eles, os médicos de Manguinhos haviam errado em seus julgamentos e descrições porque não tinham conhecido Goiás verdadeiramente – seriam apenas “curiosos”, “ensaístas” que pouco ou nada sabiam da região.

Leia em HCS-Manguinhos:

O sertão remediado: o embate entre a elite goiana e o pensamento sanitarista, 1910-1920, artigo de Noé Freire Sandes e Vera Lúcia Caixeta (vol.23, no.2, abr./jun. 2016)

Leia também:

Rezende, Joffre M. de. A viagem científica de Neiva e Penna: roteiro para os estudos das doenças do sertão. Jul 2009, vol.16, suppl.1

Sá, Dominichi Miranda de. Uma interpretação do Brasil como doença e rotina: a repercussão do relatório médico de Arthur Neiva e Belisário Penna (1917-1935). Jul 2009, vol.16, suppl.1

Lima, Nísia Trindade. Uma brasiliana médica: o Brasil Central na expedição científica de Arthur Neiva e Belisário Penna e na viagem ao Tocantins de Julio Paternostro. Jul 2009, vol.16, suppl.1

Mello, Maria Teresa Villela Bandeira de and Pires-Alves, Fernando A. Expedições científicas, fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913). Jul 2009, vol.16, suppl.1

Thielen, Eduardo Vilela and Santos, Ricardo Augusto dos. Belisário Penna: notas fotobiográficas. Ago 2002, vol.9, no.2

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