Freud na América Latina de 1910 a 1950: curso na Casa de Oswaldo Cruz em setembro

Retrato em óleo de Sigmund Freud por Wilhelm Victor Krausz, 1936.

O Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz oferece, em setembro, o curso Freud na América Latina: histórias de controle, civilização e sublimação. Experiências no Brasil e no Chile (1910-1950). O curso será ministrado por Mariano Ruperthuz Honorato (Facultad de Psicología/Universidad Diego Portales, Chile) e Cristiana Facchinetti (PPGHCS/COC/Fiocruz) nas manhãs de 18 a 22 de setembro de 2017.

A história da presença da psicanálise em algumas grandes cidades da América Latina só começou a ser investigada recentemente. De acordo com Cristiana Facchinetti, esta história não começou com o estabelecimento de instituições psicanalíticas filiadas à Associação Psicanalítica Internacional, processo que decorreu nos vários países da América Latina entre os anos de 1940 e 1950, e nem a sua difusão deveu-se à criação de instituições formadas por seguidores Jacques Lacan, a partir da década de 1970. Segundo a pesquisadora, a circulação e apropriação da psicanálise na América Latina refere-se a um contexto anterior, a partir de 1910.

“É possível indicar que a teoria freudiana começou a ser discutida no continente mais ou menos simultaneamente a muitas das principais cidades europeias e em alguns casos específicos, até mesmo antes. De fato, o próprio Freud estabeleceu bem cedo trocas de correspondência e de livros e publicações com os médicos e intelectuais latino- americanos, especialmente argentinos, brasileiros, chilenos e peruanos. É verdade que a região não estava entre as áreas prioritárias para ele. No entanto, a ideia de ‘colonizar’ novos territórios em mais ou menos exóticas terras para sua disciplina sempre se mostrou extremamente atraente, e em mais de uma ocasião Freud foi muito ativo neste sentido”, conta.

Cristiana Facchinetti

De acordo com Facchinetti, no entreguerras a psicanálise já havia alcançado grande espaço em diferentes países da América Latina, entrelaçando-se com iniciativas profiláticas do governo em campanhas nacionais em prol da saúde dos cidadãos e articulando-se a projetos educacionais nacionais que se propunham a produzir uma educação científica e moderna. Segundo ela, a psicanálise também teve lugar nos hospitais e clínicas psiquiátricas de todo o continente, como uma ferramenta moderna da psiquiatria local.

“É por estas razões que surpreende a quase total ausência de referências à América Latina na grande maioria das historiografias da psicanálise, principalmente aquelas produzidas na Europa e nos EUA. Tampouco há, até hoje, uma história já estabelecida sobre a América Latina que dê conta da apropriação desigual do pensamento freudiano na região. Histórias nacionais sobre a circulação da psicanálise na América Latina também são um produto relativamente novo. Fechando o quadro, e isso também é significante, nenhuma das biografias de Freud se refere aos laços que ele estabeleceu com personagens da América Latina, à exceção de algumas referências presentes na clássica biografia de Freud feita por Ernest Jones”, revela.

A professora acrescenta que a falta dessa memória e história – “ou o recalque, somos tentados a dizer, usando um conceito caro aos psicanalistas” – é geral, e se torna ainda mais intrigante no caso da recente biografia de Freud escrita por Elisabeth Roudinesco, que tem visitado regularmente vários países da América Latina e conhece os desenvolvimentos locais da psicanálise. “Apesar disso, a pesquisadora apenas menciona de passagem as ligações Freud com a região. Consequentemente, podemos dizer que tanto a história da psicanálise na América Latina como o lugar que o subcontinente teve para o criador da psicanálise foram tornados invisíveis pela historiografia produzida nos EUA e na Europa”, critica.

Para ela, este “esquecimento” é ainda menos justificável considerando a importância que as ideias de Freud e a psicanálise tiveram na América Latina, a sua projeção na região e que essa circulação é um elo importante na cadeia transnacional do pensamento e da prática psicanalítica. “A história dos sistemas de ideias e crenças não pode ser separada da história das suas várias instalações e práticas”, afirma.

“Para produzir culturalmente ‘O Retorno do Recalcado’ é que o curso pretende estabelecer uma leitura crítica das tradições historiográficas e metodológicas utilizadas para a construção de histórias da psicanálise, frequentemente estabelecidas dentro da história dos chamados ‘saberes psi’ (psicologia, psiquiatria e psicanálise) em sua ortodoxia institucional e definida por muitos como a história ‘oficial’ da psicanálise na América Latina”, completa.

O curso propõe uma outra concepção, que coloca a expansão e circulação do pensamento freudiano em diferentes países da América Latina como parte de sua história cultural, e destina-se a discutir uma nova definição da psicanálise como objeto de pesquisa histórica e as respectivas implicações metodológicas contidas nesta redefinição. Os professores discutirão as potencialidades e limitações das abordagens historiográficas mais tradicionais e internalistas, geralmente provenientes de movimentos psicanalíticos e psicológicos, e se concentrarão na redefinição da psicanálise como um amplo objeto cultural, procurando reconstruir o impacto das teorias de Freud que foram para além dos circuitos intelectuais, apontando para o nascimento de novos discursos e práticas sociais autorizados com base no freudismo.

Segundo Facchinetti, com apoio da psicanálise, implementou-se a adoção, na sociedade, de uma nova visão antropológica sobre o ser humano, – concebido em termos de um sujeito marcado pela pulsão, pela sexualidade e pelo Inconsciente, o que levou à re-semantização de imagens sociais sobre a doença mental, crime, família e infância, criando novos padrões emocionais que certamente impactaram a vida de muitos latino-americanos. “Este curso vai colocar uma forte ênfase em como essa reconceituação analítica permite gerar novas possibilidades metodológicas para a investigação e análise histórica”, afirma.

O curso será realizado de 18 a 22 de setembro de 2017, das 9h30 a 13h, no PPGHCS/COC/Fiocruz (Av. Brasil, 4036 – 4º andar – Sala 420, Rio de Janeiro). Os interessados devem entrar em contato com a secretaria da Pós Graduação: Tel.: (+ 55 21) 3882-9093/9095/9096/9170. Tel/Fax: (+ 55 21) 2590-5192. Email: historiasaude@coc.fiocruz.br

Como citar este post:

Freud na América Latina de 1910 a 1950: curso na Casa de Oswaldo Cruz em setembro, Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2017. Publicado em 26 de agosto de 2017. Acesso em 26 de agosto de 2017. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/freud-na-america-latina-de-1910-a-1950-curso-na-casa-de-oswaldo-cruz-em-setembro/

Leia em HCS-Manguinhos:

Honorato, Mariano Ruperthuz. El “retorno de lo reprimido”: el papel de la sexualidad en la recepción del psicoanálisis en el círculo médico chileno, 1910-1940. Dez 2015, vol.22, no.4

Castro, Rafael Dias de. Correspondência de Julio Porto-Carrero a Arthur Ramos: a Sociedade Brasileira de Psicanálise e a preocupação com a tradução dos termos psicanalíticos, décadas de 1920 e 1930. Dez 2015, vol.22, no.4

Huertas, Rafael. Las obsesiones antes de Freud: historia y clínica. Dez 2014, vol.21, no.4

Facchinetti, Cristiana and Muñoz, Pedro Felipe Neves de Emil Kraepelin na ciência psiquiátrica do Rio de Janeiro, 1903-1933. Mar 2013, vol.20, no.1

Gama, Jairo Roberto de Almeida. A constituição do campo psiquiátrico: duas perspectivas antagônicas. Mar 2012, vol.19, no.1

Venancio, Ana Teresa A. Da colônia agrícola ao hospital-colônia: configurações para a assistência psiquiátrica no Brasil na primeira metade do século XX. Dez 2011, vol.18, suppl.1,

Jabert, Alexander. Estratégias populares de identificação e tratamento da loucura na primeira metade do século XX:uma análise dos prontuários médicos do Sanatório Espírita de Uberaba. Mar 2011, vol.18, no.1

Facchinetti, Cristiana et al. No labirinto das fontes do Hospício Nacional de Alienados. Dez 2010, vol.17, suppl.2

Facchinetti, Cristiana, Cupello, Priscila and Evangelista, Danielle Ferreira Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins: uma fonte com muita história. Dez 2010, vol.17, suppl.2

Nunes, Sílvia Alexim. Histeria e psiquiatria no Brasil da Primeira República. Dez 2010, vol.17, suppl.2

Birman, Joel. A cena constituinte da psicose maníaco-depressiva no Brasil. Dez 2010, vol.17, suppl.2

Facchinetti, Cristiana, Ribeiro, Andréa and Muñoz, Pedro F. de As insanas do Hospício Nacional de Alienados (1900-1939). 2008, vol.15

Elia, Luciano da Fonseca. O operário e a histérica: dois sujeitos modernos. Set 2007, vol.14, no.3

Oda, Ana Maria Galdini Raimundo and Dalgalarrondo, Paulo História das primeiras instituições para alienados no Brasil. Dez 2005, vol.12, no.3

Jabert, Alexander. Formas de administração da loucura na Primeira República: o caso do estado do Espírito Santo. Dez 2005, vol.12, no.3

Venâncio, Ana Teresa A. História do saber psiquiátrico no Brasil: ciência e assistência em debate.Dez 2003, vol.10, no.3

Venâncio, Ana Teresa A. Ciência psiquiátrica e política assistencial: a criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. Dez 2003, vol.10, no.3

Wadi, Yonissa Marmitt. Aos loucos, os médicos: a luta pela medicalização do hospício e construção da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Fev 2000, vol.6, no.3

Engel, Magali Gouveia. As fronteiras da ‘anormalidade’:psiquiatria e controle social. Fev 1999, vol.5, no.3

Leia no Blog de HCS-Manguinhos:

Saúde mental é tema de edição de HCS – Manguinhos
Edição marca o 15º aniversário da lei da reforma psiquiátrica (v. 23, n. 4, out/dez 2016).

O primeiro hospício do Brasil e o controle social
Pesquisadora estudou fichas de entrada e outros documentos do Hospício de Pedro II, no Rio, entre 1883 e 1889

Classificação e entendimento das doenças mentais: quais os efeitos no tratamento do doente mental?
Fernando Tenório analisa os efeitos das mudanças na classificação e entendimento das doenças mentais ocorridos desde a publicação da terceira revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais pela Associação Psiquiátrica Norte Americana em 1980.

Quais as mudanças na saúde mental brasileira 14 anos após a publicação do artigo sobre reforma psiquiátrica?
O autor Fernando Tenório responde em texto e vídeo.

Mentecaptos na história e na literatura brasileiras
Com a palavra, José Roberto Franco Reis

Fenômenos psíquicos e espirituais são tabu científico há 200 anos
Autores de artigo deram entrevista para a Semana Especial de HCS-Manguinhos no Blog SciELO em Perspectiva | Humanas

Psicologia infantil na Argentina de 1935 a 1942
Ana Briolotti investiga o uso médico de técnicas de avaliação psicológica em crianças em internadas em clínicas infantis em Buenos Aires

Catolicismo, fascismo e psicanálise na Itália
O padre franciscano Agostino Gemelli (1878- 1959), figura central da psicologia italiana nas décadas de 1930 e 1940, desempenhou um papel importante na articulação entre o mundo católico e o fascismo na Itália

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *