Fiocruz e Inca delineiam trajetória do câncer no Brasil

Novembro/2015

Erika Farias*

Um fato inevitável: quanto mais tempo de vida, mais aumentam as chances de ter doenças crônico-degenerativas, como o câncer. Este dado é reflexo das transformações demográficas da nossa sociedade, resultantes de uma maior qualidade de vida. Acompanhando essas transições e renovando suas frentes de atuação, a Fiocruz – que nos seus 115 anos se tornou referência em doenças epidemiológicas –, tem assumido na última década um relevante papel na área de informação e educação sobre o tema por meio do projeto História do Câncer– Atores, Cenários e Políticas Públicas.

O projeto, uma parceria entre o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) e a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), teve seu embrião em 2006, quando dirigentes do Inca, por ocasião do aniversário de 70 anos de criação do Instituto, procuraram a COC para a produção de um livro comemorativo. Coordenador do projeto, o pesquisador da COC Luiz Antônio Teixeira logo viu no convite uma oportunidade de ampliar esta narrativa. “Transformamos o que seria a história de uma instituição em algo que caracterizasse também uma perspectiva acadêmica, que hoje vem se mostrando bastante importante no estudo de doenças crônico-degenerativas”, afirma Teixeira. O livro De doença desconhecida a problema de saúde pública: o Inca e o controle do câncer no Brasil foi lançado em novembro de 2007.

A publicação deu início a uma linha de investigação no Departamento de Pesquisas em Histórias das Ciências e da Saúde, da COC, direcionada à história do controle do câncer no Brasil, culminando, em 2011, com a criação do História do Câncer. O projeto reforça, por meio de pesquisas históricas, documentais, iconográficas e orais, uma diretriz assumida pelo Congresso Interno da Fundação, em 2010. “A Fiocruz tem uma tradição muito longa no âmbito de pesquisas epidêmicas e doenças transmissíveis, e percebeu, partindo de pesquisas que mostram a modificação etária do brasileiro, a importância de estudar doenças crônico-degenerativas e negligenciadas”, aponta Luiz Antônio Teixeira.

A sociedade

O projeto tem como objetivo contribuir para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), produzir conteúdo no âmbito da formação de recursos humanos para a Rede de Atenção Oncológica e integrar-se a uma rede de produção de conhecimento em parceria com o Inca. Hoje, esta união é motivo de orgulho para as duas instituições. “Estamos há cerca de dez anos juntos nesse trabalho de preservação da memória, numa relação estável, produtiva, bonita”, afirma o novo diretor-geral do Inca, Paulo Eduardo Xavier de Mendonça, que assumiu o cargo em junho de 2015.

“A pesquisa histórica, além de sua finalidade em si, de estofo para produção acadêmica, possibilita a relação mais ampla com a sociedade. Isso é importante para a academia, mas fundamental para o controle de câncer”, ressalta o ex-coordenador de Ações Estratégicas do Inca e professor associado ao projeto, Marco Porto. Ele explica que o controle de câncer tão complexo que não pode ser tratado exclusivamente pela área da saúde ou pelas áreas acadêmicas. “É preciso um envolvimento esclarecido da população. De maneira modesta, nosso projeto tem dado essa contribuição”, conta.

Por considerar importante a compreensão da história do câncer para a ampliação e o aperfeiçoamento das políticas públicas na área da saúde, a equipe do projeto atua em diversas frentes – como a publicação de dossiês em revistas internacionais, livros e exposições, já montadas no Complexo da Maré (RJ), em Manaus (AM) e no Rio Grande do Sul. Foram realizadas três mostras: Controle do Tabaco no Brasil: uma trajetóriaImagens das campanhas educativas de prevenção do câncer do colo do útero no Brasil; e A Mulher e o Câncer de Mama no Brasil.

Os trabalhos resultaram também em “exposições de bolso” – catálogos com todo o conteúdo abordado. As pequenas publicações significam mais informação para aqueles que compareceram aos eventos e pequenas doses de conhecimento para familiares e amigos. “A boa recepção se juntou à convicção de que era preciso fazer e nos mostrou que há retorno. Quando se tem material de bom conteúdo, com qualidade na apresentação, as pessoas se motivam, querem perguntar, querem se esclarecer”, conta Marco.

Perspectivas

Sobre a doença, Marco Porto salienta que o aumento da incidência não significa aumento da mortalidade. “Basta que se alie a dupla tratamento oportuno e diagnóstico precoce. Além disso, atualmente, 30% dos casos de câncer podem ser prevenidos”, afirma, ao destacar a importância da informação como reforço no entendimento, prevenção e, principalmente, no tratamento do câncer.

O coordenador Luiz Antônio Teixeira o projeto continuará seguindo a linha de pesquisas sócio-históricas sobre o câncer e sobre perspectivas contemporâneas a partir de trabalhos no campo dos Estudos Sociais das Ciências e da saúde coletiva. “Buscaremos, cada vez mais, intensificar nossos trabalhos no campo da divulgação científica”, afirma o coordenador. Marco Porto faz coro. “Queremos que, além da finalidade acadêmica, o projeto possa ser usado para a população de uma maneira geral, para os movimentos sociais”.

Uma breve história sobre o câncer

É possível encontrar referências sobre o câncer desde 30 séculos a.C., com egípcios, persas e indianos, que se referiam a tumores malignos. Já em 4 a.C. a escola hipocrática grega começou a falar de um tumor duro, que muitas vezes se alastrava para diversas partes do corpo, ou reaparecia, mesmo depois de extinto. No século 18, o câncer passou a ser visto como uma doença de caráter local, enquanto no 19 o desenvolvimento da teoria celular possibilitou a vinculação da doença às células e seu processo de divisão. Apenas em meados do século 19, o anatomista Wilhelm Waldeyer mostrou que as células cancerosas se desenvolvem a partir de células normais e que o processo de metástase, era resultado do transporte das células cancerosas pela corrente sanguínea ou linfática.

Evolução dos tratamentos

Em 1905, dez anos após a descoberta do Raio X, o radiologista francês Jean Bergonie e o histologista Louis Tribondeau demonstraram que as células cancerosas eram mais sensíveis a este tipo de estímulo do que as normais, comprovando seu princípio curativo. Tal qual os raios X, a descoberta do rádio (1898) trouxe grandes avanços ao tratamento do câncer. Já em 1941, estudos sobre o gás mostarda – substância química altamente tóxica usada pelas tropas em combate na Primeira Guerra – demonstraram que a substância causava a diminuição de alguns linfomas e o desaparecimento de certos tumores. Resultado desses estudos, a quimioterapia transformaria, assim, um produto mortífero em agente de cura.

Conheça algumas publicações do projeto História do Câncer.

* Texto originalmente publicado na edição n°25 do jornal Linha Direta da Presidência da Fiocruz.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias

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