Especialistas esclarecem população sobre casos de malária na região serrana do Rio

Fevereiro/2015

Mosquito do gênero Anopheles, transmissor da malária. Acervo Fiocruz

Mosquito do gênero Anopheles, transmissor da malária.
Foto: Acervo Fiocruz.

Foram confirmados casos de malária em indivíduos com histórico de deslocamento para áreas cobertas por Mata Atlântica ou próximas a ela no estado do Rio de Janeiro. São chamados de casos autóctones, cuja transmissão aconteceu nesse período na região serrana do estado do Rio de Janeiro, entre pessoas que visitaram a localidade. Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que atua como referência em malária para a região extra-Amazônica, tranquilizam a população e orientam como profissionais de saúde, moradores e turistas devem agir em caso de suspeita da doença. Eles reforçam que o diagnóstico rápido é fundamental e divulgam o Malária-Fone, serviço disponível para atender profissionais de saúde que precisem de auxílio em casos suspeitos. A investigação e monitoramento dos casos autóctones da Mata Atlântica do estado do Rio atendidos pelo ambulatório de Doenças Febris Agudas e diagnosticados pelo Serviço de Parasitologia do INI vem sendo feita desde 2008 por estudos com o Laboratório de Pesquisa em Malária e Laboratório de Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), integrantes do Centro de Pesquisa Diagnóstico e Treinamento em Malária da Fiocruz (CPD-Mal). Rapidez no diagnóstico A região onde os casos aconteceram no Estado do Rio é recoberta por Mata Atlântica – bem longe da Amazônia, região que concentra mais de 99% do total de casos no país. Chefe do Laboratório de Pesquisa em Malária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenador do CPD-Mal da Fiocruz, o imunologista Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro explica que o diagnóstico rápido e correto é importante para aliviar os sintomas do paciente e também para impedir que o número de infectados aumente. “Na região amazônica, cerca de 60% dos casos são identificados nas primeiras 48 horas de infecção. Muito diferente do que ocorre na região Extra-Amazônica, onde, na maioria das vezes, o médico não considera a malária como uma das possibilidades diagnósticas e menos de 20% dos casos são tratados nesse período inicial da doença. Nessa região, em geral, e neste momento em particular, é preciso informar os profissionais de saúde, turistas e a população dessas localidades”, reforça o pesquisador. Pacientes com suspeita de malária fora da região endêmica devem ser encaminhados para um centro especializado no diagnóstico e tratamento do agravo, mesmo que não haja confirmação da doença nos primeiros exames diretos ou no teste rápido. O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) tem equipe especializada no diagnóstico e tratamento da malária e é referência do MS para os casos na Extra-Amazônia (Av. Brasil, 4365 – Manguinhos – Rio de Janeiro). De acordo com o vice-presidente de Pesquisa e Laboratórios de Referência (VPPLR) da Fiocruz, Rodrigo Stabeli, não há motivo de alarme para a população. “A equipe do Centro de Pesquisa e Diagnóstico da Malária da Fiocruz está investigando os suspeitos de malária do Rio, realizando o diagnóstico e prestando assistência aos pacientes. Trata-se de uma situação bastante concentrada na região serrana”, afirma. Na busca de explicações científicas No Brasil, a malária pode ser causada por três espécies de parasitos do gênero Plasmodium. O parasito é transmitido pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles infectados pelo parasito, o Plasmodium. Cláudio Ribeiro destaca que há alguns anos tem havido um trabalho em parceria com o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por meio do pesquisador Mariano Zalis, e com o Centro de Pesquisas René Rachou, junto à pesquisadora Cristiana Brito, para sequenciar por completo o genoma do Plasmódio encontrado na Mata Atlântica. “Identificar a origem do parasito e o envolvimento de outros animais, como macacos, no ciclo de transmissão nos ajudará a traçar estratégias para a eliminação da malária na região”, avalia. Sinais de alerta A médica Patrícia Brasil, do INI/Fiocruz, destaca que os médicos devem ficar atentos à presença de síndrome febril e à história de deslocamento às localidades onde os casos foram registrados. Na forma clássica da doença, o principal sintoma é a febre, que pode ser constante nos primeiros dias, para depois ocorrer de forma intermitente, a cada dois ou três dias. Os pacientes também podem apresentar calafrios, suor e dor de cabeça, embora a ausência desses sintomas não exclua a possibilidade de malária. A malária da Mata Atlântica costuma ter poucos sintomas e raramente é motivo de internação hospitalar. Diante da falta de especificidade do quadro clínico, a história de deslocamento é o aspecto que deve orientar a investigação diagnóstica. O tratamento é feito com cloroquina e primaquina (VO) distribuídas pelo Ministério da Saúde. Os casos de malária atendidos ou diagnosticados na Fiocruz são obrigatoriamente notificados às autoridades sanitárias locais, responsáveis pelas medidas de controle dos possíveis focos de infecção e caracterização de surtos e epidemias. Malária-Fone  O Malária-Fone é uma linha exclusiva para fornecimento de informações sobre a doença, inclusive sobre os locais para diagnóstico e tratamento. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, podendo ser acionado 24h por dia para casos específicos de emergência médica (paciente febril com suspeita da doença). Contato: (21) 99988-0113. Fonte: Agência Fiocruz de Notícias Leia mais:  Nos arredores da metrópole Estudo alerta para casos de malária no Rio de Janeiro Leia em HCS-Manguinhos: Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à AmazôniaLima, Nísia Trindade and Botelho, André (set 2013, vol.20, no.3, p.745-763. As representações da malária na obra de João Guimarães RosaLacerda-Queiroz, Norinne, Queiroz Sobrinho, Antônio and Teixeira, Antônio Lúcio (jun 2012, vol.19, no.2). 2011_numero02Dossiê Malária (abr.-jun. 2011) Malaria epidemics in Europe after the First World War: the early stages of an international approach to the control of the diseaseGachelin, Gabriel and Opinel, Annick (jun 2011, vol.18, no.2) O medo do sertão: a malária e a Comissão Rondon (1907-1915), Caser, Arthur Torres and Sá, Dominichi Miranda (jun 2011, vol.18, no.2) Um método chamado Pinotti: sal medicamentoso, malária e saúde internacional (1952-1960)Silva, Renato da and Hochman, Gilberto (jun 2011, vol.18, no.2) Ferrovias, doenças e medicina tropical no Brasil da Primeira República, Benchimol, Jaime Larry and Silva, André Felipe Cândido da (set 2008, vol.15, no.3)
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Belisário Penna à esquerda com pacientes em Guaratiba, Rio de Janeiro, entre 1918 e 1922. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Clique para mais.

A malária em foto: imagens de campanhas e ações no Brasil da primeira metade do século XX, Hochman, Gilberto, Mello, Maria Teresa Bandeira de and Santos, Paulo Roberto Elian dos (2002, vol.9) Leia também: Malaria and quinine resistance: a medical scientific issue between Brazil and Germany (1907–1919)Da Silva AFC, Benchimol JL: . Med Hist 2014, 58:1–26. E no blog de HCS-Manguinhos: Malária, adversário inesperado na Primeira Guerra Mundial Bernard Brabin, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e da Universidade de Amsterdam, publicou artigo no Malaria Journal. Malária, maleita, doença e desejo Nisia Trindade Lima e André Botelho discutem as visões do médico Carlos Chagas e do poeta Mario de Andrade sobre a moléstia.

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