Ensino sem memória

Outubro/2014

Vera Rita da Costa | Ciência Hoje
Ensino sem memória

Cientistas como Darwin e Galileu ainda não receberam a devida atenção do nosso ensino de ciências. São lembrados apenas de passagem e muitas vezes até de modo anedótico. (imagens: Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)

Galileu Galilei foi uma figura ímpar na história da ciência. Também o foram Charles Darwin, Isaac Newton, Madame Curie, Louis Pasteur e tantos outros. Avaliando bem, no entanto, nenhum deles mereceu ainda a devida atenção em nosso ensino de ciências. Todos são de certa forma negligenciados em nossas aulas. São lembrados apenas de passagem, apresentados em momentos esporádicos e por fatos episódicos, muitas vezes até de modo anedótico. Suas biografias são, em geral, alegorias, enfeites ou artifícios didáticos usados para ilustrar as aulas de ciências.

Se você é professor de ciências, talvez ache a afirmação acima um exagero. Afinal, de uns anos para cá, aumentou significativamente a presença da história da ciência nos livros e outros materiais didáticos, por causa da recomendação do Ministério de Educação (MEC). E, claro, as editoras e os autores se dispuseram prontamente a cumprir essa exigência, para que seus livros passassem pelos crivos avaliativos.

Basta, no entanto, uma observação mais atenta para perceber que não foi feito nada além de colocar um pouco de história da ciência em um ‘boxe’ ou ‘destaque’, como se diz no meio editorial. Ainda usando o jargão da área, ‘enquadraram-se’ Galileu, Newton, Madame Curie e outros expoentes da ciência. Ou, em palavras mais sutis, incluíram-se nos livros didáticos, em paralelo ao conteúdo propriamente dito, pequenos resumos ou episódios relativos à história de vida dos cientistas e de suas descobertas. Pouco ou quase nada, entretanto, da própria história ou do processo que levou à elaboração de teorias ou às descobertas e invenções.

Para quem gosta de história e de ciência – e mais ainda de história da ciência –, isso é lamentável e motivo de reflexão.

Visão mais humanizada

Ainda estamos por reconhecer e valorizar o papel real que a história da ciência, se bem apresentada, poderia ter no ensino de ciências.

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A história da ciência deveria ser apresentada em nossos livros didáticos como uma reflexão contextualizada e crítica da produção do conhecimento. (imagem: Flickr – CC-BY 2.0)

Seria ótimo, por exemplo, ter como apoio um livro didático em que o foco não fosse exclusivamente, como em geral apresentam os materiais didáticos atuais, apenas os resultados aos quais se chegou ou as teorias e os conceitos já aceitos e estabelecidos. Um livro didático de ciências no qual houvesse mais espaço (muito mais espaço, não apenas alguns boxes) para a abordagem e a discussão do processo e da história envolvidos nas descobertas científicas, bem como dos interesses e motivações (de caráter pessoal, social, político ou econômico) envolvidos nelas.

Talvez, com uma abordagem desse tipo, mais humanizada e que contemplasse não apenas os aspectos conceituais e específicos do conhecimento científico, mas também as questões filosóficas, históricas e sociais envolvidas na sua produção, nossos alunos pudessem se interessar mais pela ciência. Talvez pudessem até abrir mais seus livros didáticos para ler sobre ela, coisa difícil de se obter atualmente.

Leia aqui a matéria completa

Fonte: Ciência Hoje

Leia em HCSM:

– Ildeu de Castro Moreira: divulgação científica ainda precisa avançar muito no Brasil Segundo o físico, nem a cobertura da mídia nem a educação científica nas escolas são satisfatórias, mas a situação já melhorou.

– A ciência pode ser divertida!

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