Enfermagem dava mobilidade social a mulheres negras em meados do século XX

Maio/2017

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

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Um dos vencedores, em 2016, do Concurso de Pesquisa Negras e Negros nas Ciências, promovido pela Fundação Carlos Chagas com o apoio da Fundação Ford, o projeto Enfermagem e raça: biografia coletiva de mulheres negras e suas trajetórias em escolas de enfermagem no Brasil (1920-1960) começa a apresentar os primeiros resultados.

Apesar de nas três escolas estudadas a maioria das alunas ser branca  – 70% -, o fato cerca de 30% das enfermeiras formadas não ser é um indício de que a enfermagem era uma profissão que proporcionava oportunidade de mobilidade social para grupos raciais discriminados. É o que afirma o pesquisador e professor Luiz Otávio Ferreira, pesquisador e professor da Casa de Oswaldo Cruz (COC)/Fiocruz e da Faculdade de Educação da Uerj, que coordena o projeto – um desdobramento de um projeto mais amplo que envolve vários aspectos da enfermagem moderna no Brasil no longo do século XX, apoiado pelo CNPq e desenvolvido em parceria por pesquisadores da COC/Fiocruz, da Escola de Enfermagem Ana Nery da UFRJ, da Escola de Enfermagem da UFMG e da Faculdade de Enfermagem da UERJ.

O Blog de HCS-Manguinhos entrevistou Ferreira para saber mais sobre este projeto que ajuda a compreender a dimensão de raça na formulação e implantação de políticas públicas nas áreas de saúde e educação.

O que já foi feito no projeto Enfermagem e Raça?

Realizamos busca sistemática nos prontuários das alunas da Escola de Enfermeiras Carlos Chagas (EECC), atual Faculdade de Enfermagem da UFMG, e da Escola de Enfermeiras Rachel Haddock Lobo (EERHL), atual Faculdade de Enfermagem da Uerj. A pesquisa dos prontuários foi realizada no Centro de Memória da Escola de Enfermagem da UFMG e Centro de Memória da Faculdade de Enfermagem da UERJ. Ao todo, foram consultados 934 prontuários, sendo 479 da EECC e 455 da EERRL. A pesquisa nos prontuários das alunas da Escola de Enfermeiras Ana Nery (EEAN), atual faculdade de Enfermagem da UFRJ, vem sendo realizada no Centro de Documentação da EEAN-UFRJ. No caso da EEAN, a busca sistemática engloba um período histórico mais largo (1923-1970) e, consequentemente, a implica em um maior número de prontuários a serem examinados.

Que características socioculturais se revelaram na pesquisa?

Após a análise dos 934 prontuários obteve-se a seguinte distribuição racial: alunas pretas (3%), alunas pardas (10,5%) e alunas morenas (9,5%) e alunas brancas (76%).

Mesmo com a permissão legal para que homens frequentassem obtida no final da década de 1940, o corpo estudantil das escolas/faculdades de enfermagem manteve o padrão de gênero. A presença de estudantes do sexo masculino foi absolutamente irrelevante.

A adesão de mulheres de classe média, com escolaridade secundária e brancas à profissão de enfermeira ficou abaixo das expectativas. De forma indireta, a necessidade de aumentar substancialmente o contingente de profissionais de enfermagem nos serviços públicos de saúde favoreceu para que a composição social e racial das escolas de enfermagem fosse mais heterogênea.

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A configuração socioeconômica familiar das alunas não brancas que ingressaram e se diplomaram nas escolas Rachel Haddock Lobo e Carlos Chagas foi objeto de especial atenção. Nossa intenção foi entender os mecanismos socioculturais que podem explicar as razões do sucesso escolar das estudantes de enfermagem pretas, pardas e morenas, a maioria proveniente das classes pobres e populares.

Observamos a participação majoritária de alunas oriundas de famílias de trabalhadores manuais com habilidades (marceneiro, mecânico, lavrador etc).  As atividades de típicas de classe média baixa, tais como militares de baixa patente e funcionários públicos de baixo escalão, são também frequentes. A presença de pais que exerciam profissões liberais ou eram empresários, comerciantes de médio porte ou fazendeiros é relativamente pequena.

Os mecanismos de inclusão/exclusão de mulheres negras entre as décadas de 1920 e 1960 nas três escolas estudadas sugerem práticas racistas?

A literatura especializada em história de enfermagem registra diversos casos nacionais de tentativas de organização da enfermagem como uma profissão de elite motivando a exclusão ou a formação segregada de enfermeiras de certas raças ou etnias. O caso brasileiro não foge à regra. Mecanismos racistas não institucionalizados são observados especialmente no momento de recrutamento e seleção das candidatas. Considerando que, à época, o acesso ao ensino de nível superior era extremamente elitizado e que a presença de estudantes pobres e não-brancos e, sobretudo mulheres, em faculdades constituía rara exceção, o fato das escolas de enfermagem estudadas terem diplomado aproximadamente 30% de enfermeiras não-brancas é um indício de que a enfermagem era uma profissão que proporcionava oportunidade de mobilidade social para grupos raciais discriminados.

O que mudou (ou não) entre o período estudado e os dias de hoje?

Não temos elementos suficientes para fazer afirmações a respeito. O que podemos observar é a manutenção do padrão de gênero (profissão feminina). Não existem estudos sobre as atuais características socioeconômicas das/dos estudantes de enfermagem.

Há peculiaridades relacionadas a gênero nas profissões do cuidado em saúde? 

A compreensão de como foram estabelecidos os padrões de gênero percebidos no âmbito das profissões do cuidado em saúde ainda é um problema historiográfico e sociológico não resolvido. No caso estudado pelo projeto Enfermagem e Raça constatamos que a persistência do recrutamento de mulheres para profissão não decorreu de nenhum mecanismo institucionalizado que excluísse o recrutamento de homens.

Luiz Otávio Ferreira publicou diversos artigos em HCS-Manguinhos, como A higienização das parteiras curiosas: o Serviço Especial de Saúde Pública e a assistência materno-infantil (1940-1960), com Tânia Maria de Almeida Silva. 

 

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