Em busca do novo Éden: a fundação de colônias naturistas no Brasil há mais de cem anos

Dezembro/2018

 

Casa naturista de Boim, desenhada por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.149)

Uma efêmera colônia naturista em Boim, na margem do rio Tapajós, em 1914, retratada pelo ilustrador Cândido Craveiro na revista portuguesa O Vegetariano, é o primeiro registro de uma iniciativa do gênero no Brasil. No artigo Em busca do novo Éden no século XX: os portugueses e a fundação de colónias naturistas no Brasil (HCS-Manguinhos, v. 25, n. 3, jul./set. 2018), Isabel Drumond Braga, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal, discute os inícios do vegetarianismo e do naturismo em Portugal e no Brasil e revela as tentativas de se estabelecer colônias no Pará. O artigo também traz à tona a trajetória de alguns protagonistas dessas histórias.

Praia em Boim, desenhada por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.151)

O maior ativista do vegetarianismo português, segundo a autora, foi Amílcar de Sousa (1876-1940), médico formado na Universidade de Coimbra, em 1905, que aderiu ao naturismo em 1910, depois de ter se tornado vegetariano. Além de dirigir O Vegetariano (1909-1935), Sousa escreveu diversas obras de divulgação, como O naturismo (1912), A saúde pelo naturismo (1916), A cura da prisão de ventre (1923), Arte de viver (1926), Banhos de sol (1937) e ainda uma novela naturista intitulada Redenção (1923). No intuito de converter e propagandear os ideais vegetarianos e naturistas, a Sociedade Vegetariana Portuguesa, fundada em 1911, foi conseguindo sócios brasileiros de várias regiões, e passou a publicar cartas e fotografias de muitos deles nos seus periódicos, O Vegetariano e o Almanaque Vegetariano, além de divulgar receitas culinárias com produtos brasileiros. Mas nem todas as sociedades criadas no Brasil foram consequências da influência portuguesa. Um russo teve um papel de destaque em algumas: Eliezer Kamenesky (1888-1957). Judeu naturista que viajou pela Europa, América e Ásia, ele foi poeta, músico e ator, tendo ficado conhecido do grande público pelas suas interpretações nos filmes A revolução de maio, de 1937, O pai tirano e O pátio das cantigas, ambos de 1941. Naturista e vegetariano, Kamenesky escreveu um romance autobiográfico, traduzido para inglês por Fernando Pessoa, e dedicou-se à divulgação destas opções de vida, fazendo conferências, inclusive no Brasil. Para ele, o carnivorismo era uma deturpação e uma prostituição da civilização, e a carne, o álcool e o fumo três maldições da humanidade. Cândido Craveiro, que com ele se cruzou no Brasil em 1916, escreveu um artigo em O Vegetariano intitulado “Um apóstolo: Eliezer Kamenesky”, no qual forneceu diversos dados biográficos do russo, salientando que havia sido apedrejado em Nova Iorque e no Rio de Janeiro, ao andar pela rua envergando apenas uma túnica, tendo sido preso no Rio de Janeiro e em São Paulo nove vezes. No mesmo ano, a revista escolheu a figura de Kamenesky para capa. Em 1917, Kamenesky esteve ligado à fundação das sociedades vegetarianas no Brasil, como as da Bahia, da Paraíba, de Santos e o núcleo de Pernambuco. Leia em HCS-Manguinhos: Em busca do novo Éden no século XX: os portugueses e a fundação de colónias naturistas no Brasil, artigo de Isabel Drumond Braga

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *