Eleições e história do tempo presente

Dezembro/2018

Angélica Müller[1]

No day after do pleito que elegeu Donald Trump nos Estados Unidos, o historiador Timothy Snyder postou um texto no facebook que teve milhares de curtidas e que, rapidamente, acabou se transformando num livro (“Sobre a tirania” – traduzido imediatamente para vários países, inclusive para o Brasil) que virou best seller em 2017. O livro traz vinte lições do século XX para o presente, objetivando examinar a história para compreender as profundas fontes da tirania tencionando respostas apropriadas.

Da mesma maneira, o historiador francês Pascal Ory publicou “Ce que dit Charlie, treize leçons d’histoire[2] (2016). Especialista em história cultural, Ory parte do terrível atentado terrorista contra o grupo de jornalistas e cartunistas do Charlie Hebdo, alguns seus amigos pessoais, ocorrido em 2015  para aprofundar diversos temas correlacionados: as principais guerras de religião ocorridas ao longo da história; a questão do terrorismo; a liberdade de expressão e  a literatura, fazendo uma grande discussão com o polêmico romance de Michel Houellebecq “Submissão” (traduzido para o português em 2015), que narra uma parte da vida de um professor universitário numa França dominada pelo Islã, entre outros pontos. Um cabedal de história política e cultural que percorre mais de dois mil anos de história, em 236 páginas.

Antes de Ory, Marc Ferro publicou o livro (2015) “L’aveuglement: une autre histoire de notre monde[3], também parte do atentado do Charlie Hebdo para tratar uma série de eventos que ele considerou como “cegueira sobre fenômenos coletivos não antecipados”. O conhecido historiador passa então a refletir sobre o cenário de 2007 e o quanto não foi possível antever a grave crise financeira mundial ocorrida no ano seguinte. Apresenta, assim, uma reflexão sobre vários acontecimentos que não foram percebidos (ou foram pouco percebidos) até se desenrolarem: o ataque no World Trade Center; a queda do Muro de Berlim; a exterminação dos judeus até chegar a Grande Guerra.

O que estes livros, para não citar outros, têm em comum além de terem sido escritos após grandes acontecimentos e tratarem daquilo? Ou de um tema atual? Ou seja, do presente?

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Neste segundo semestre de 2018, estou ministrando uma disciplina sobre História do Tempo Presente na pós-graduação da UFF. O programa, que conta com essas e outras bibliografias bastante atualizadas, tem despertado discussões extremamente férteis na turma sobre as possibilidades, métodos, reflexões e, principalmente, desafios do historiador que quer analisar o seu tempo. Em texto publicado neste ano, Francine Iegelski e eu apontamos uma série destes desafios já sintonizados com o que chamo de Nova História do Tempo Presente (uma terceira fase como definem os autores franceses e, poderíamos dizer, uma segunda fase aqui no Brasil), sobretudo depois da incorporação no debate historiográfico do conceito (heurístico?) de presentismo, de François Hartog, selado em “Regimes de historicidade” (2003). A discussão profícua esteve (e continua estando) centrada em, entre outros pontos, refletir se o presentismo é um diagnóstico sobre o tempo compatível com a realidade brasileira e com quais “instrumentos” podemos olhar para o presente que estamos vivendo, parafraseando o título de um capítulo de Carlos Fico (2012). A aula ocorrida logo após as eleições não poderia deixar de conter análises sobre o resultado das urnas e uma reflexão sobre como chegamos neste cenário.

Discutimos sobre os esforços que alguns historiadores como Rodrigo Patto Sá Motta, Marcos Napolitano e Mateus Pereira vêm realizando para analisar nosso presente. Resolvi, então, relatar a eles, então, uma conversa que tive no final de julho deste ano (2018) com um estimado amigo, também historiador, sobre as eleições que aconteceriam em outubro, conversa essa me deixou muito intrigada. Eu, mencionando minha preocupação sobre o pleito e ele foi taxativo: “Aposto com você, o que você quiser, que Bolsonaro não irá nem para o segundo turno”. Impressionada com tanta ênfase, pedi que me explicasse.  A explicação detalhada partiu do seguinte pressuposto: “Olhe, o presidencialismo de coalizão formado desde o final da ditadura, que regeu todas as eleições desde então… Alckmin já conseguiu juntar o centrão…” Eu perguntei se ele achava que 2013 teria alguma influência. Ele achava que não. Além do mais, Alckmin teria tempo de sobra na TV para reverter qualquer cenário. Aí alertei para a questão que não tínhamos tido nenhuma eleição com o peso da “era de redes sociais”, como vinham observando vários sociólogos que trabalham com novas mídias. Insistindo, mencionei o exemplo americano com Trump, ele disse que não faria sentido no nosso caso. Eu disse ainda que olhava para a longa duração da nossa república e que todas as saídas para crises que resultavam em polarizações foram conservadoras. Aliás, reforcei aspectos que nos caracterizam como um país conservador, autoritário, clientelista, patriarcal,… Apontei inclusive da eleição de Crivella no Rio de Janeiro e a ascensão de evangélicos na política, fenômeno que tem me preocupado há bastante tempo, pelo lugar que passaram a ocupar realizando trabalhos assistencialistas (mas também como espaço de doutrinação e, sem dúvida, de recebimento de fontes financeiras) nas periferias dos grandes centros. Em parte, passaram a ocupar certo “vazio” deixado pelos militantes do PT que, me parece, desde 1989 se preocupou mais com a construção dos espaços nos poderes legislativos e executivos. A conversa encerrou por ali, na insistência da aposta não feita. Logo depois do segundo turno, outro colega escreveu uma frase bastante conhecida e muito usada pela “ciência histórica” emoldurada pelo regime moderno de historicidade: “os historiadores do futuro terão muito trabalho para analisar este contexto”.

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Este texto que apresento aos leitores não teve a intenção de refletir sobre a cegueira, que em maior ou menor grau, nos deixou atordoados com os resultados das eleições do primeiro e segundo turnos. Ele foi motivado pela necessidade de compartilhar preocupações com nossos colegas de profissão, os historiadores que miram seu tempo, que estão sendo afetados por ele.

Os três livros citados no início têm em comum o trabalho dedicado a longa duração para pensar os fenômenos recentes. Os três livros extrapolam o limite geográfico local do evento, partindo para comparações e exemplos da história mundial. Nos três livros, o historiador está presente como agente da história, imbricado nela, e ao mesmo tempo analisando-a e se posicionando. As três assertivas são pontos fundamentais para uma nova história do tempo presente, que pode ser entendida mais como uma prática do historiador do que como a definição de um período (com suas datas-limite estabelecidas)[4]. E falando em tempo, a “distância necessária” do seu objeto, tão fundamental na tarefa do historiador (que muitos bons historiadores ainda insistem em reforçar), se apresenta para aquele que observa o presente justamente através da possibilidade de aprofundamento da sua reflexão através do olhar em longa duração e também pela possibilidade de comparar com outras realidades que estão se desenvolvendo, ou que já foram “concluídas”.

Trabalhamos com uma história em construção, aberta e que deve ser elaborada em parceria com diferentes áreas do conhecimento, outra premissa fundamental, que nos garante espessura para nossa reflexão. A história, tout seul, está fadada a tecer reflexões sem o alcance que a mesma pode projetar contando com a contribuição de outras disciplinas, em destaque as demais ciências sociais e humanas. Mobilizar conceitos de outras áreas e outros estudos trabalhando também categorias que nos singularizam, como tempo e temporalidades.

Para quem também acredita que a “última catástrofe em data” é mobilizadora de reflexões sobre o presente como Henry Rousso (2016), Iegelski e eu no texto “O Brasil e o tempo presente” (2018) já apontávamos a última catástrofe nacional, ou seja, o golpe de estado institucional que ocorreu no país com o impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016. Argumentamos que ali se fechava mais um ciclo da nossa história republicana, iniciado em 1985, ciclo este que tomou forma a partir da Constituição de 1988, e findou a transição conservadora da ditadura para o chamado “Estado democrático de direito”. Considerando 2016 como “fechamento” da “Nova República” (e não 2018, como afirmam alguns historiadores), ali assumíamos o nosso lugar de enunciação ao propormos o fim de um período ainda pouco analisado pela historiografia. O golpe abriu um novo período cujo lógica do processo político é outra e está se desenrolando. Tanto é plausível tal afirmação que a reflexão empreendida pelo meu colega, que normatizou os pleitos anteriores, pouco valeu para pensar este último processo eleitoral.

Vários são os temas a serem abordados sobre esse novo período e o outro ciclo que se encerrou e que, do ponto de vista da história, precisam ser muito explorados e analisados. Para refletir especificamente sobre a eleição de 2018, esse evento, para ser analisado com maior precisão, deve ser inserido num contexto mundial de crescimento da extrema direita, que a cada ano apresenta mais força; precisa ser entendido dentro da conjuntura nacional: na curta duração da chamada “Nova República” e seus três poderes, mas também na longa duração da nossa república. Mas, sobretudo, há que se levar em conta: o impacto das novas tecnologias, com destaque para o uso das redes sociais; o crescimento impressionante da bancada evangélica e seu lugar na política do país. Refletir sobre a disputa pelo significado das jornadas de 2013; sobre a recepção do papel exercido pela Comissão da Nacional Verdade pela sociedade, no contrapeso do aumento e da explicitação de soluções autoritárias e no crescimento dos militares novamente no círculo do poder; e, finalmente, na própria eleição de 2014 e o impeachment da presidente eleita. Estes são vários pontos para análise, mas a lista não é exaustiva.

Em minha defesa de mestrado Francisco Palomanes Martinho, meu orientador, disse: “historiador precisa ter olhos de ver e ouvidos de ouvir”. E eu acrescento: para tentar entender como chegamos neste presente dilatado cujo horizonte parece não oferecer expectativa. Talvez nossas interrogações e reflexões ajudem a pavimentar alguns caminhos. Os instrumentos estão ao nosso alcance.

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Em tempo: se este texto, escrito em boa parte entre os dois turnos da eleição brasileira, começou se referindo à política americana, achei oportuno terminar fazendo referência a ela também. Pois as eleições que acabaram de acontecer por lá trouxeram uma novidade: mostraram o desejo dos americanos de “empurrar os EUA” para a esquerda, como intitulou uma matéria da BBC[5]. A eleição da mais jovem deputada, uma latina; de duas indígenas; de duas muçulmanas e do primeiro governador assumidamente homossexual são mais que um sopro de renovação.

 

Referências Bibliográficas:

DROIT, Emmanuel; DELACROIX, Hélène Miard ; REICHHERZER, Frank (dir). Penser et pratiquer l’histoire du temps présent : essais franco-allemands. Vikkeneuve d’Ascq : Septentrion, 2016.

FERRO, Marc. L’aveuglement : une autre histoire de notre monde. Paris : Tallandier, 2015.

HARTOG, François. Regime de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

MÜLLER, Angélica ; IEGELSKI, Francine. O Brasil e o tempo presente. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de A. N.(org). Brasil Republicano –  Tempo da nova república – da transição democrática à crise política de 2016. Vol. 5. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2018. Pp. 13-26.

ORY, Pascal. Ce que dit Charlie : treize leçons d’histoire. Le débat. Paris : Gallimard, 2016.

ROUSSO, Henry. A última catástrofe: a história, o presente e o contemporâneo. Rio de Janeiro: FGV: 2016.

SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o tempo presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

VARELLA, Flávia (org)… [et al]. Tempo presente e usos do passado. Rio de Janeiro: FGV, 2012.

[1] Doutora em História pela Université de Paris 1 e em História Social pela Universidade de São Paulo (2010). Professora de História do Brasil República da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora-associada do CHS/Paris 1. Bolsista produtividade CNPq e Jovem Cientista do nosso Estado/FAPERJ.

[2] O que diz Charlie: treze lições de história. Tradução livre do francês pela autora.

[3] Cegueira: outra história do nosso mundo. Tradução livre do francês pela autora.

[4] DROIT, Emmanuel; DELACROIX, Hélène Miard ; REICHHERZER, Frank. Introduction à des essais franco-allemands. In : ___________ (dir). Penser et pratiquer l’histoire du temps présent : essais franco-allemands. Vikkeneuve d’Ascq : Septentrion, 2016. p. 11.

[5] BERMUDEZ, Ángel. Quem são e o que buscam os Socialistas Democráticos, o fenômeno que empurra os EUA para a esquerda. BBC News, 04 de novembro de 2018. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46083388  Acesso em 08/11/2018.

Como citar este post:

Eleições e história do tempo presente, por Angélica Müller, Blog de HCS-Manguinhos, 4 de dezembro de 2018. Disponível em www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/eleicoes-e-historia-do-tempo-presente

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