Dos ‘defensivos’ aos ‘agrotóxicos’: mudanças de percepção ao longo de 50 anos em Santa Catarina

Abril/2017

Os enormes prejuízos causados à lavoura pelas pragas do solo podem ser evitados a tempo, quando se utiliza Aldrin antes do plantio – seja diretamente no solo, seja na proteção das sementes.(…) Com uma ou duas aplicações, no máximo, Aldrin elimina o problema das pragas do solo da maneira mais rápida, segura, eficaz e econômica. E, graças à sua atividade residual, mantém os insetos à distância por toda a estação, garantindo uma colheita farta e lucrativa! Aldrin oferece, ainda, outras vantagens, não deixa gosto nem cheiro; pode ser empregado eficazmente nas mais variadas culturas, as quais desenvolvem raízes fortes e profundas que asseguram seu vigor.

Anúncio americano da Shell nos anos 1960

O texto da propaganda publicada num boletim da Federação das Associações Rurais do Estado de Santa Catarina de 1963 promove o inseticida Aldrin, da Shell, proibido no Brasil a partir de 1985. Pertencente ao grupo dos organoclorados e considerado um produto perigoso, foi amplamente utilizado nas décadas de 1950, 60 e 70.
No artigo “Defensivos” ou “agrotóxicos”? História do uso e da percepção dos agrotóxicos no estado de Santa Catarina, Brasil, 1950-2002, publicado em HCS-Manguinhos ( vol.24, no.1, jan./mar. 2017), os autores Miguel Mundstock Xavier de Carvalho, Eunice Sueli Nodari e Rubens Onofre Nodari explicam que os agrotóxicos eram parte do pacote tecnológico da modernização agrícola denominada de “revolução verde”. Sua percepção e utilização estavam conectadas a série de tecnologias agrícolas, como fertilizantes sintéticos, calcário, tratores e sementes certificadas.

Eles contam que para convencer os agricultores a utilizar tais tecnologias, o governo brasileiro e os estados utilizaram a concepção e métodos de extensão rural importados dos EUA e criaram, a partir da década de 1950, escritórios de assistência técnica, contratando técnicos agrícolas, engenheiros-agrônomos, veterinários e economistas domésticos.

Em 1957, foi criada a Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Santa Catarina (Acaresc). Na sequência, a partir do regime militar de 1964 foi implantado um amplo e generoso sistema de crédito rural crucial para a disseminação dessas tecnologias.

“Era como se os agricultores tivessem agora ao alcance de suas mãos produtos milagrosos que resolveriam as dificuldades que enfrentavam há séculos com o manejo dos agroecossistemas”, afirmam os autores.

Já na década de 1980, com a crise econômica, a retração drástica no crédito rural e o nascimento e a defesa de uma agricultura alternativa, orgânica ou agroecológica, as ideias ambientalistas começam a ganhar espaço no Brasil e em particular em Santa Catarina. Surgem então legislações e órgãos ambientais regulatórios e a percepção dos agrotóxicos começa a mudar.

A partir do estudo de fontes primárias como boletins técnicos, relatórios governamentais, censos agropecuários, notícias de jornais, dados do centro estadual de informações toxicológicas e uma entrevista com um técnico de referência no setor, os pesquisadores verificaram que o uso e a percepção dos agrotóxicos passaram por diferentes fases em Santa Catarina, assim como em outros lugares, e que a partir dos anos 1980 as atitudes mudaram tanto devido às experiências individuais de técnicos e agricultores, como pela influência do contexto cultural mais amplo da circulação das ideias ambientalistas.

Leia em HCS-Manguinhos:

“Defensivos” ou “agrotóxicos”? História do uso e da percepção dos agrotóxicos no estado de Santa Catarina, Brasil, 1950-2002, artigo de Miguel Mundstock Xavier de Carvalho, Eunice Sueli Nodari e Rubens Onofre Nodari (vol.24, no.1, jan./mar. 2017)

Leia também:

A ciência a serviço da saúde humana e ambiental: entrevista com o químico, geneticista e ambientalista Flávio Lewgoy. Entrevista concedida a Elenita Malta Pereira (vol.24, no.1, jan./mar. 2017)

Bediaga, Begonha. A moléstia da cana-de-açúcar na década de 1860: a lavoura em busca das ciências. Dez 2012, vol.19, no.4

Klanovicz, Jó. Toxicidade e produção de maçãs no sul do Brasil. Mar 2010, vol.17, no.1

Rebouças, Márcia Maria. Pelo resgate da memória documental das ciências e da agricultura: o acervo do Instituto Biológico de São Paulo. Dez 2006, vol.13, no.4

Silva, André Felipe Cândido da. A campanha contra a broca-do-café em São Paulo (1924-1927). Dez 2006, vol.13, no.4

Faria, Line Rodrigues de. Uma ilha de competência: a história do Instituto de Química Agrícola na memória de seus cientistas. Jun 1997, vol.4, no.1

Câncer no século XX: ciência, saúde e sociedade, edição especial de HCS-Manguinhos (Vol. 17, supl. 1, jul. 2010)

Dossiê Transgênicos em HCS-Manguinhos  (v.7, n.2, jul./out. 2000)

Leia no Blog de HCS-Manguinhos:

‘Procurei devolver o que me deram, o que o povo pagou para eu estudar’
Químico, geneticista, perito criminalístico e ambientalista, Flávio Lewgoy (1926-2015) tinha o compromisso ético de retribuir à sociedade o que aprendera em sua formação em instituições públicas. Leia entrevista concedida a Elenita Malta Pereira em HCS-Manguinhos.

Dossiê Abrasco sobre agrotóxicos ganha novo capítulo e vira livro
Edição acrescenta discussão sobre a crise do paradigma do agronegócio e as lutas pela agroecologia
 

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