Carta dos editores

Agosto/2016

Marcos Cueto e André Felipe Cândido da Silva, editores científicos de HCS-Manguinhos

Nos dias 22, 23 e 24 de junho, a equipe da revista – com apoio da Casa de Oswaldo Cruz e da Vice-presidência de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz – organizou um importante workshop internacional intitulado “Desafios de revistas interdisciplinares: experiências do Reino Unido, Brasil e América Latina em história, ciências sociais e humanidades”. O workshop fez parte de um projeto de colaboração, apoiado pela British Academy, entre História, Ciências, Saúde – Manguinhos e o periódico britânico Journal of Latin American Studies. O evento faz parte também de atividades que temos desenvolvido tendo como alvo o ano de 2019, em que completaremos 25 anos.

Do workshop participaram editores, membros do corpo editorial e profissionais vinculados a revistas nas áreas de ciências humanas, ciências sociais e saúde coletiva de Argentina, Reino Unido, Colômbia, México, Chile, Peru e Brasil, e de representantes da rede SciELO e do Fórum de Editores da Fiocruz, do qual integram os sete periódicos científicos editados pela Fiocruz.

Editores de revistas científicas de diferentes países participaram de workshop na Fiocruz, no Rio, de 22 a 24/6/2016

Editores de revistas científicas de diferentes países participaram de workshop na Fiocruz, no Rio

Todos compartilharam de maneira generosa seus conhecimentos – geralmente obtidos na prática – sobre internacionalização, acesso aberto, indexação e uso de redes sociais para a divulgação científica das revistas. Abel Packer, da SciELO, fez uma brilhante palestra inaugural acerca dos desafios nos processos de profissionalização, internacionalização e sustentabilidade financeira, com ênfase nas revistas de história. Além disso, ressaltou a necessidade de os periódicos continuarem fazendo avanços nesses três processos e serem proativos nas comunidades científicas e políticas em que se desenvolvem. Alan Knight, reconhecido professor de história latino-americana da Universidade de Oxford e membro do corpo editorial da reputada revista Past and Present, falou sobre a relevância de artigos seminais nos periódicos de história, pois despertam vocações em jovens pesquisadores. Assim como ele, os colegas do Reino Unido e de países latino-americanos descreveram as características e as lições de aprendizagem e impasses na editoração. Essas valiosas intervenções permitiram identificar semelhanças e dissonâncias em relação ao Brasil. Por exemplo, há, no país, uma forte tradição e também uma expectativa de que o Estado sustente as revistas, embora agora muitos queiram transformar essa expectativa em uma utopia insustentável.

Por isso, um assunto de muita preocupação no workshop foi a sustentabilidade financeira. Os periódicos brasileiros e latino-americanos trabalham na adversidade, com redução das verbas federais e estaduais – que já eram insuficientes – e em um contexto mundial no qual os publishers internacionais promovem um modelo de negócio. No caso brasileiro, predomina a filosofia de que o conhecimento é público e todos devem ter acesso a ele. Isso é parte de uma tradição de democratização do conhecimento que sempre prevaleceu e nos últimos 20 anos foi reforçada pelo projeto SciELO. Apesar das dificuldades, o Brasil é, sem dúvida, o líder regional no acesso aberto a artigos científicos, e agências internacionais, governos e comunidades científicas de outros países o acolhem. Até pouco tempo, os publishers internacionais tinham pouco interesse no acesso aberto e na ciência brasileira; mais recentemente, muitos deles passaram a trabalhar no Brasil, procuram ocupar o espaço das revistas de acesso aberto e alimentam dúvidas sobre a sustentabilidade do sistema ora em vigor. Sem dúvida, os perigos não são somente de fora, porque, depois do recente atentado à democracia no Brasil, existe o perigo de uma drástica redução do investimento público nas publicações científicas. Na sua participação no workshop, Ildeu Moreira, editor adjunto de História, Ciências, Saúde – Manguinhos e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, salientou que, embora os periódicos nacionais tenham melhorado significativamente em qualidade nos últimos anos, os recursos destinados a eles pelas agências governamentais são pequenos e foram ainda mais reduzidos no último ano. Segundo ele, uma redução de recursos ameaça a sobrevivência de muitas revistas e terá, com certeza, impacto negativo sobre todo o sistema da pós-graduação no país. Jaime Benchimol, editor de nossa revista até pouco tempo, complementou essa ideia em sua participação e convocou os editores e demais atores que gravitam à volta das publicações científicas a demandar que universidades, agências de fomento e ministérios coloquem como item prioritário em seus orçamentos os custos dos periódicos. Concordamos plenamente com eles.

Nos próximos meses, História, Ciências, Saúde – Manguinhos fornecerá alguns dos textos, transcrições, áudios, ideias e ferramentas inovadoras que surgiram no workshop. Esses materiais podem estimular um diálogo mais abrangente. Tomara que esssa interlocução idealize os trilhos a percorrer para valorizar nossas revistas, para manter a qualidade acadêmica e a acessibilidade democrática e para lutar por sua sustentabilidade econômica – assuntos da maior importância para o desenvolvimento das ciências, das universidades, e da cultura dos países das Américas e de outras partes do mundo.

Os diversos e interessantes artigos deste número de História, Ciências, Saúde – Manguinhos contribuem nessa direção.

Marcos Cueto, editor científico
André Felipe Cândido da Silva, editor científico

Acesse o sumário da edição (vol.23 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2016)

Leia nos blogs de HCS-Manguinhos a cobertura do workshop realizado em junho de 2016:

Divulgar é preciso: lugar de ciência é na rede social
Em workshop na Fiocruz, editores brasileiros expuseram suas experiências de uso de novas mídias na divulgação científica

Editores britânicos e latinos discutem financiamento e acesso aberto a revistas científicas
Falta de investimento é comum a todos, mas as soluções apontam para caminhos diferentes

‘Internacional não é colonizado’
Em workshop sobre revistas interdisciplinares na Fiocruz, Regina Horta, editora da Varia Historia, discute com editores estrangeiros a internacionalização dos periódicos científicos

Para acelerar a comunicação científica, adiós ineditismo
Em workshop na Fiocruz, Abel Packer, coordenador do SciELO, defendeu as publicações individuais de artigos antes do lançamento das revistas e em repositórios para revisão por pares

Do mimeógrafo às redes sociais, um caminho de acesso aberto
Editor de História, Ciências, Saúde – Manguinhos por mais duas décadas, o historiador Jaime Benchimol participou de workshop sobre revistas interdisciplinares na Fiocruz

Editores debatem desafios de periódicos interdisciplinares
Workshop realizado na Fiocruz, no Rio, foi promovido por HCS-Manguinhos e Journal of Latin American Studies com apoio da British Academy

Los desafíos actuales de las publicaciones científicas
El objetivo del workshop fue proporcionar el intercambio de experiencias y ideas para enfrentar los desafíos.

The Brexit and its consequences for science
Mathew Brown, co-editor of Bulletin of Latin American Research analyzes the consequences of this exit for science and the academic community.

Leia a cobertura de Ciência em Revista:

Divulgação científica é estratégia para visibilidade de revistas interdisciplinares

Revistas das ciências humanas sob pressão para internacionalizar seus conteúdos

Acesso aberto de revistas científicas é cada vez mais desejado, mas esbarra em desafios relativos ao financiamento

Produtivismo acadêmico traz novas demandas para as revistas científicas

Leia também:

Desafios aos editores da área de humanidades no periodismo científico e nas redes sociais: reflexões e experiências, artigo de Jaime L. Benchimol, Roberta C. Cerqueira e Camilo Papi em Educação e Pesquisa (v. 40, n. 2, abr./jun. 2014)

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