Câncer: estudos sobre mitos, crenças e comportamentos permitem aprimorar intervenções

Agosto/2014

Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva *

Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva

Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva

A partir de meados do século XX houve um aumento progressivo dos casos novos de câncer em todo o mundo, inicialmente nos países desenvolvidos e mais recentemente nos países em desenvolvimento. Este aumento dos casos, associados à um progressivo aumento das taxas de cura, fizeram com que em muitas sociedades ocorresse uma progressiva exposição pública da doença e das narrativas de indivíduos portadores dela. Essa exposição levou a construção de mitos e crenças em relação à doença que são em parte universais e em parte específicas a contextos.

Entre os mitos, crenças e comportamentos relacionados à doença estão a informação de que o câncer seria uma doença inevitavelmente fatal, característica de países ricos, e de que não existiriam maneiras de se prevenir ou tratamentos eficazes. A palavra câncer está associada a sentimentos como raiva, tristeza, medo e solidão. Os doentes são estigmatizados e a disposição para falar sobre a doença é baixa.

A forma como os indivíduos e coletividades construíram suas narrativas sobre a doença traduzem as experiências pessoais e locais do seu enfrentamento. É tarefa de historiadores, sociólogos, antropólogos, entre outros pesquisadores, investigar este processo de construção e como a elaboração de um senso comum sobre o câncer é influenciado por fatores proximais (indivíduo, família e coletividade local) e distais (sociedade e  grande mídia).

Conhecer por que determinadas práticas sanitárias “pegam” em um determinado contexto social e em outros não, como determinados grupos sociais reagem de maneira distinta ao diagnóstico de câncer, quais fatores de risco para câncer são mais “fáceis” de eliminar em determinado contexto social fazem parte do imenso campo de pesquisa ainda a ser plenamente desenvolvido em nosso país.

Por esses motivos, é mais do que necessária a formação de grupos de pesquisa interdisciplinares  em nossas instituições de saúde. Mergulhar na compreensão dos mitos, crença e comportamentos relacionados ao câncer certamente irá aprimorar as intervenções para seu controle.

Tabaco, o maior risco

O principal fator de risco para o câncer é o consumo de tabaco. No mundo, por ano, cerca de 6 milhões de pessoas morrem em consequência do seu consumo. A utilização de cigarro (e derivados do tabaco), além de provocar o câncer, aumenta a chance de desenvolver outras doenças e de ter uma morte prematura. Fumantes passivos também estão sob risco de adoecer em função da exposição continuada à fumaça do cigarro. Os principais cânceres relacionados ao cigarro são cânceres de pulmão, laringe, faringe, bexiga, boca, esôfago, colo do útero e estômago.

Parar de fumar diminui o risco de ter câncer, mesmo que você já tenha fumado por muitos anos. Até mesmo para os pacientes com câncer, parar de fumar melhora o prognóstico em alguns cânceres e diminui o risco de ter outro câncer. Hoje em dia existem diversos programas de cessação do tabagismo, sejam em instituições públicas ou privadas.

Mudanças no meio ambiente onde nascemos, crescemos, trabalhamos e envelhecemos podem contribuir para diminuir o risco de aparecimento do câncer. Ambientes saudáveis com menor poluição do ar, menor exposição à radiações UV, maiores espaços para atividade física regular, menor exposição da água e alimentos à agentes tóxicos são intervenções ambientais que podem reduzir o aparecimento de câncer em uma população. Outra maneira de diminuir o risco consiste na adoção de práticas ou hábitos de vida saudáveis como manter uma atividade física regular, alimentar-se com qualidade, não ingerir bebidas alcoólicas, não fumar e evitar exposição demasiada às radiações UV.

À exceção do câncer em crianças e adolescentes, onde o fator herança genética tem maior peso, os principais cânceres em adultos geralmente são provocados por fatores de risco presentes no meio ambiente ou relacionados à hábitos de vida.

O que faz algumas pessoas terem câncer e outras não é uma delicada e complexa relação entre fatores que protegem o organismo contra o câncer e fatores que induzem a formação de câncer, denominados de fatores de risco, pois aumentam o risco de um indivíduo ter câncer. Os fatores de risco associados com os principais tipos de câncer são: envelhecimento, consumo de cigarro (ou derivados do tabaco), radiação solar (ou radiação UV), radiação ionizante (radiação produzida por substâncias radioativas), consumo de álcool, certos vírus e bactérias, alguns produtos químicos, alguns hormônios, herança familiar genética, excesso de peso/dieta inadequada e sedentarismo.

O que é câncer?

O nosso organismo (corpo físico) é formado por um número extremamente grande de células, agrupadas em tecidos e órgãos. Habitualmente as células de nossos tecidos e órgãos estão em constante processo de renovação, com as células envelhecidas ou defeituosas sendo substituídas por novas células, num processo programado por nossos genes. Em algum momento, este processo organizado, controlado e regulado pode dar errado e algumas células defeituosas aparecem e acumulam-se. Este excesso de células acumuladas em tecidos ou órgãos é chamado de tumor, e podem ser benignos ou malignos. Os tumores malignos são chamados de câncer. Eles podem crescer e invadir tecidos vizinhos e órgãos e também podem crescer em lugares distantes do local primário de aparecimento (metástases).

No Brasil os cânceres mais frequentes, à exceção do câncer de pele não-melanoma, são os de próstata, mama, intestino grosso (cólon e reto), pulmão e colo do útero.

Na população feminina os cânceres mais frequentes são: mama, intestino grosso (cólon e reto), colo do útero e pulmão.

Na população masculina os tumores malignos mais frequentes são: próstata, pulmão, intestino grosso, estômago e cavidade oral.

Outros cânceres, como os linfomas e leucemias, são relativamente frequentes em ambos os sexos.

Crianças e adolescentes também podem ter câncer, embora seja considerada uma doença pouco frequente neste subgrupo da população. No Brasil, cerca de 3% de todos os cânceres acometem crianças e adolescentes.

* Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva é médico oncologista do INCA e pesquisador-associado do projeto História do Câncer: atores, cenários e políticas públicas.

Leia também:

A plenos pulmões 
Projeto História do Câncer: atores, cenários e políticas públicas traz exposição à Biblioteca de Manguinhos.

Câncer no século XX: ciência, saúde e sociedade – edição especial de História, Ciências, Saúde – Manguinhos

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

Câncer: pesquisa sobre mitos, crenças e comportamentos permite aprimorar intervenções. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 29 August 2014]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/cancer-pesquisa-sobre-mitos-crencas-e-comportamentos-permite-aprimorar-intervencoes/

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