Ildeu Moreira: ‘Brasil tem atraso histórico em difusão científica’

Joana Lopo | A Tarde

Reprodução da página da entrevista com Ildeu Moreira no Jornal A Tarde de 13/05/2014

Reprodução da página da entrevista com Ildeu Moreira no Jornal A Tarde de 13/05/2014

Na 13ª Conferência Internacional de Comunicação Pública de Ciência e Tecnologia, PCST, realizada em Salvador, o professor da UFRJ e ex-diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia Ildeu Moreira falou ao jornal A TARDE sobre a divulgação científica no Brasil. Ele diz que há um atraso histórico e aponta para a necessidade de se despertar o interesse dos estudantes para a área da pesquisa científica.

Como está a divulgação científica no país? E na Bahia?

Estamos com atraso histórico muito grande. Aqui, por exemplo, não tem muitos museus como no restante do mundo. Além disso, estão concentrados no sudeste do país. Na Bahia só existe um, que é o Museu de Ciência e Tecnologia, mas está fechado. Apenas um terço da população brasileira frequenta museus. É muito pouco. Além disso, as universidades e a própria mídia têm papel fundamental para a divulgação científica,mas isso ainda ocorre muito pouco. Tem trabalhos sendo desenvolvidos, mas que ninguém fica sabendo.

De que forma as universidades podem mudar essa realidade?

As universidades são fundamentais nesse processo. Aumentamos muito o número de instituições, mas ainda não há uma divulgação significativa do que está sendo feito. Antes de tudo é preciso melhorar a educação básica primeiro, capacitar professores para os ensinos fundamental e médio. Hoje ninguém quer ser professor do ensino básico porque ganha pouco. Os professores, pesquisadores e alunos poderiam ajudara melhorar a educação básica montando laboratórios, fazendo atividades nas escolas.

Acho que falta um grande programa de mudança radical da educação em ciências e matemática no Brasil. Claro que existem muitas iniciativas importantes, mas o problema é muito grande.Na Europa, várias instituições de pesquisa recebem professores de ensino médio para fazer cursos ou estágios. A gente está tentando isso aqui, fazer com que as instituições de pesquisa abram suas portas durante um certo período para receber também professores do ensino médio, para que eles possam se mobilizar mais, se interessar mais pela ciência, terem conhecimento mais atualizado.

O que está ocorrendo no Brasil para popularizar e difundir a ciência?

Há um programa de popularização da ciência e tecnologia que tem vários eixos. Um deles é a criação de portais que divulguem o que está acontecendo. Não temos, por exemplo, uma agência de notícias voltada para a ciência produzida no Brasil, com equipe especializada de jornalistas científicos.

Outro eixo é a criação de museus, planetários, observatórios etc. Porém essa iniciativa é carente ainda de espaços científicos e culturais desse tipo, em comparação com Europa e Estados Unidos. O desafio é estimular essas ações. Outra iniciativa é fazer atividades de ciências itinerantes. O Programa Nacional de Ciência Móvel tem hoje em torno de 20 veículos percorrendo o Brasil com atividades de ciências interativas e dinâmicas, nas periferias. Uma outra ação é melhorar o ensino de ciências na escola, estimular os estudantes. O Ministério de Ciência e Tecnologia tem algumas ações, raras delas em parceria com o MEC, como a Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas.

Além disso, eventos como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que aproximam a comunidade científica da população em geral.

O que está sendo produzido por aqui? Qual área mais se destaca?

Temos uma produção de ciências agrárias e agrícolas muito boa. As produções rurais estão em destaque aqui, mas pouco se sabe. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é a maior escola de engenharia do país, com boas produções. Mas há uma dificuldade de tornar a produção acadêmica em inovação científica e tecnológica que torne a vida das pessoas melhor, como avanços em saneamento básico e educação. Não há um estímulo a produção científica, nem a divulgação do que tem sido feito.

Quais os desafios para superar esses atrasos?

O mais necessário e importante é melhorar o ensino básico e melhorar os cursos de licenciatura. A criança, por exemplo, tem intrínseco nela o que é fundamental para a ciência, que é a curiosidade, a alma da ciência. É preciso utilizar isso, estimular o aprendizado, a experimentação da ciência no dia a dia. Outra questão importante é a ampliação da presença da mídia na divulgação. Não tem como divulgar ciência da mesma forma para todos os brasileiros. Aqui a população é bem diversificada, por isso precisamos de profissionais capacitados para atingir o máximo de pessoas possível.

Como estimular o aprendizado de ciências para as crianças?

Dar aulas de ciências não é uma coisa fácil. É importante que o professor abra a cabeça. Uma pessoa não aprende só entre quatro paredes. Os alunos podem ser levados para outros espaços como museu de ciências, por exemplo. Mas o essencial é mudar a metodologia.

A física e matemática, às vezes, são ensinadas de maneira chata. O ideal é relacionar o ensino ao cotidiano para tornar o processo mais interessante.

Fonte: Jornal A Tarde (Reproduzido do clipping da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação)

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