As ciências sociais contra a zika

Abril 2017

Vivian Mannheimer | Blog de HCS-Manguinhos

A contribuição do campo das ciências humanas para o combate à zika foi o tema de um seminário na ENSP/Fiocruz que reuniu cientistas de instituições internacionais no último dia 30 de março.

Esse foi o primeiro encontro dos pesquisadores da área de ciências sociais do ZIKAlliance, um consórcio multinacional e multidisciplinar que reúne dezenas de parceiros pelo mundo coordenado pelo INSERM, o instituto nacional francês de saúde e pesquisa médica.

Sheila Maria Ferraz Mendonça de Souza, vice-diretora de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da Ensp, e Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz. Foto: Virginia Damas, Ensp/Fiocruz.

Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Ciências Sociais do ZIKAlliance, disse que é um desafio importante trabalhar com os aspectos humanos e sociais diante de uma epidemia cujos esforços se voltam principalmente para o diagnóstico, o tratamento e um grande foco no mosquito. “Não se trata de uma guerra de um mosquito contra a humanidade, e sim de processos sociais que explicam essa proliferação. Mas o fato é que na mídia e no imaginário essa associação com o mosquito é a mais forte e muitas vezes dificulta o olhar para outras causas”, ressaltou. Nísia acrescentou que a rede de pesquisa também significa uma oportunidade para se discutir a questão dos direitos sexuais no Brasil, que vem à tona com a epidemia de zika. Ela também citou alguns objetivos do grupo, entre eles a proposta de uma agenda de pesquisa integrada e uma base de dados compartilhada. Os efeitos colaterais da intervenção Jocelyn Raud, também coordenador do Grupo de Pesquisa em Ciências Sociais do  ZIKAlliance, abordou os efeitos colaterais que podem ser gerados pelas campanhas contra doenças transmitidas por vetores.

Jocelyn Raud, do Inserm e Université Sorbonne Paris Cité. Foto: Virginia Damas, Ensp/Fiocruz.

“Costumamos subestimar a complexidade tanto do mundo social quanto do natural e muitas vezes mesmo com a intenção de melhorar as condições da saúde ou reduzir a circulação do vírus, podemos piorar a situação”, afirmou. O pesquisador explicou que as campanhas na área de saúde tendem a promover uma mudança de comportamento, como por exemplo o estímulo ao uso do preservativo no caso da Aids. No entanto, ele observou que quando a incidência da doença diminui, a população tende a relaxar quanto ao comportamento preventivo e quantidade de casos tende a aumentar novamente. Com experiência em pesquisa de doenças transmitidas por vetores em territórios tropicais da França, como Reunião e Guiana Francesa, Jocelyn citou alguns exemplos de campanhas que causaram efeitos negativos. Um dos casos mencionados foi uma epidemia causada pelo vírus do Oeste do Nilo que afetou duas cidades próximas no Colorado em 2003. Pesquisadores descobriram que a incidência da doença era maior justamente na cidade que contava com um programa mais amplo de controle ao mosquito, devido à tendência de abandonar as medidas de proteção ao perceber que a doença foi controlada. Os fatos científicos da Zika

Ilana Löwy do Inserm também é pesquisadora associada da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Foto: Virginia Damas Ensp/Fiocruz.

Ilana Löwy, pesquisadora do Inserm, explicou que sua apresentação  foi inspirada no livro clássico de Ludvick Fleck Gênese e desenvolvimento de um fato científico, no qual o autor argumenta que a cognição é sempre uma atividade coletiva. Para discutir os fatos científicos da zika, Ilana se referiu ao ex-secretário de defesa norte-americano Donald Rumsfeld, que no contexto da guerra contra o Iraque declarou que há coisas que sabemos que sabemos, coisas que sabemos que não sabemos e também coisas que não sabemos que não sabemos. A pesquisadora disse que em relação à zika já sabemos que a doença pode levar à síndrome de Guillan-Barré e à microcefalia, mas que ainda não sabemos por que há uma concentração tão grande de malformações cerebrais causados pelo vírus no Nordeste do Brasil, o que não ocorre em outras regiões do país ou da África.

Apresentação de Ilana Löwy.

Ilana acrescenta uma outra categoria aos fatos sobre a zika: “aquilo que sabemos mas consciente ou inconscientemente ignoramos”. Sobre os fatos ignorados da zika no Brasil, Ilana destacou a questão da transmissão sexual da doença. “Quando alguém fala sobre zika nos Estados Unidos, a questão é basicamente a transmissão sexual, mas no Brasil fala-se pouco disso. Há tanto mosquito que é difícil identificar quando se trata de transmissão sexual”, observou. A questão da negligência em saúde global  O temas das prioridades em saúde global foi abordado por João Nunes, professor de relações internacionais da Universidade de York. Para o pesquisador, a negligência nesse contexto não pode ser entendida apenas a partir da visão mais comum de que algumas doenças são negligenciadas por não despertarem o interesse de atores ou doadores de peso.

João Nunes, professor de relações internacionais do departamento de política da Universidade de York.

O pesquisador reconhece que interesse é um fator importante, mas acredita que esse elemento sozinho não consegue explicar por que algumas doenças recebem mais atenção que outras. João disse ainda que para entendermos a questão da negligência e como ela se produz é preciso considerar que algumas doenças podem ser visíveis em certos aspectos e invisíveis em outros. “Acredito que a relação que gera a negligência é uma de dominação. Alguns grupos são sistematicamente colocados em uma posição de subordinação e desvantagem. Desse modo, estão mais vulneráveis a certas doenças ao mesmo tempo em que não possuem as capacidades suficientes para reagir”, disse. No caso da zika, João acredita que a doença reuniu muitos esforços, mas ressalta que a questão não é a quantidade, mas sim a qualidade da atenção. Citando o caso do ebola como exemplo, o pesquisador observou que como a questão da negligência em saúde global está ligada a dinâmicas mais profundas, apenas os esforços empregados na emergência ou a visibilidade dada pela mídia não significam uma mudança de cenário para a doença. O seminário está disponível no Canal da ENSP Youtube. Confira: Seminário debate Zika, Ciências Sociais e Humanidades – Abertura. Seminário debate Zika, Ciências Sociais e Humanidades – Jocelyn Raude. Seminário debate Zika, Ciências Sociais e Humanidades – Ilana Lowy. Seminário debate Zika, Ciências Sociais e Humanidades – João Nunes. Leia no Blog de HCS-Manguinhos: Zika dispara demanda por aborto na América Latina O Brasil teve o maior aumento de demanda (108%), seguido pelo Equador (107,7%) e pela Venezuela (93,3%) Zika, um filme sobre mulheres Documentário da antropóloga Debora Diniz mergulha o espectador na espera de mulheres gerando filhos microcéfalos e na sua vida de mãe no interior da Paraíba Zika, desafio para a América Latina Em entrevista ao Blog de HCS-Manguinhos em espanhol, o epidemiologista José Moya, da Opas/Argentina, afirma que doença desafia a vigilância epidemiológica e os sistemas de saúde da região Fundação Gates e Fiocruz reúnem força-tarefa contra zika Além de preencher lacunas de conhecimento, estudos devem atender as necessidades das cidades mais afetadas pela epidemia Ciência do Rio de Janeiro unida contra zika, chikungunya e dengue Faperj anuncia suporte financeiro de até R$ 12 milhões a seis grupos de pesquisadores que atuarão em cooperação para desenvolver projetos emergenciais de diagnóstico e combate às doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Zika: como usar a internet para desmentir boatos na internet Site sugere atividades para professores ensinarem alunos a avaliar criticamente as informações que circulam nas redes Zika e direito ao aborto Em artigo publicado em O Globo, a socióloga Jacqueline Pitanguy afirma que a interrupção da gravidez como opção de mulheres atingidas pelo vírus não tem sido colocada com a devida relevância Zika para profissionais Rede de Saúde Global lança site com informações de qualidade voltadas para pesquisadores e profissionais de saúde Epidemia de zika remete à rubéola e à discussão sobre aborto como ato médico Ilana Löwy, pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde e de Pesquisa Médica de Paris, conta como os surtos de rubéola estimularam a descriminalização do aborto na Europa   Salvar Salvar Salvar Salvar Salvar Salvar Salvar Salvar Salvar

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