Arte também é ciência

Novembro/2017

Página de título da Encyclopedie. Fonte: Madison Libraries/University of Wisconsin

A ciência é geralmente caracterizada por sua dimensão puramente racional, baseada em uma forma de comunicação fria e objetiva que de tudo faz para neutralizar a subjetividade dos cientistas. Entretanto, a história mostra que essa forma de pensar e de ver a ciência nem sempre foi consensual. A chamada ciência romântica, uma contracorrente de pensamento que ganhou adeptos entre o final do XVIII e primeira metade do XIX, acreditava ser possível produzir ciência a partir da sistematização objetiva da experiência subjetiva. Marcelo Fetz, professor de teoria sociológica da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), explora em seu mais recente estudo as diferentes formas de relação entre arte, literatura e ciência na experiência científica da Encyclopédie e na chamada Ciência Romântica. Abordando os escritos de E. Darwin, W. Wordsworth, Novalis, Goethe e A. Humboldt, Fetz afirma, no artigo Negotiating boundaries: Encyclopédie, romanticism and the construction of science, publicado na atual edição da revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos (vol.24 no.3 jul/set 2017), que as fronteiras entre a imaginação livre e a imaginação sistemática tiveram os seus sentidos socialmente construídos pelas diferentes comunidades científicas. Para ele, a separação entre aquilo que é reconhecido como sendo ciência e aquilo que é reconhecido como arte é produto de um conjunto amplo de negociações sociais responsáveis pela legitimação de determinadas formas de ver o mundo. A “nova ciência” de Humboldt seria um caso emblemático desta forma singular de compreender a natureza. Para o naturalista alemão, a ciência deveria incorporar a dimensão estética como procedimento metodológico para a produção de enunciados científicos. É assim que Humboldt passa a empregar, sob influência de Goethe, técnicas da pintura de paisagem (o voo do pássaro, por exemplo) para a construção de proposições científicas. A própria pintura de paisagem é por ele utilizada nos chamados “quadros da natureza”: sínteses gerais que apenas poderiam ser elaboradas através de um sistema artisticamente enraizado. Leia em HCS-Manguinhos: Negociando fronteiras: Encyclopédie, romantismo e a construção da ciência, artigo de Marcelo Fetz (vol.24 no.3 jul/set 2017)

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