‘Ainda se atribui ao paciente tuberculoso a responsabilidade pela doença’, afirma Cláudio Bertolli Filho

Março/2018

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Claudio Bertolli Filho. Foto de vídeo da Unesp.

Para comemorar o Dia Mundial de Combate à Tuberculose, 24 de março, convidamos o antropólogo Claudio Bertolli Filho, professor da Unesp, para falar sobre a doença ontem e hoje. Entre outros alertas, ele lamenta que ainda “permanece a fantasia de que a doença não é causada pelas condições de vida e sim por comportamentos impróprios de indivíduos”.

O senhor é autor da obra História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-1950, que tornou-se referência para estudos históricos e sociológicos sobre a doença. Um século depois, quais as principais diferenças e o que se repete?

Hoje temos respostas quimioterápicas eficientes para a tuberculose, o que inexistia na primeira metade do século passado, e também há uma rede ambulatorial e hospitalar capacitada para o atendimento dos pectários, além de um conhecimento mais amplo por parte da população sobre os “sinais” da doença. Apesar disso, percebe-se que, por ser uma doença que já dispõe de respostas eficientes por parte da medicina e também de métodos de diagnóstico baratos e simples, o ensino médico tem desprezado o treino da maior parte dos médicos no reconhecimento da doença. Isso não só ocorre em relação à tuberculose, mas a inúmeras outras patologias corriqueiras. Em nome da sofisticação e da modernidade, doenças clássicas são de difícil reconhecimento por muitos médicos, o que não era regra na primeira metade do século xx. O que permanece é ainda atribuir-se ao paciente tuberculoso a responsabilidade pela doença, sempre havendo indicações de vida desregrada como causa da infecção kochiana e não as péssimas condições de vida de uma parte considerável da população brasileira (inclusive da população carcerária). Assim, permanece a fantasia de que a doença não é causada pelas condições de vida e sim por comportamentos impróprios de indivíduos.

O que a história nos ensina para os dias atuais?

A história da tuberculose assim como de muitas outras patologias ensina, sobretudo, duas coisas:
a) no plano ideológico, as doenças da pobreza continuam sendo frequentemente preteridas pela esfera governamental em prol de doenças ditas “do mundo moderno”, o que se reflete no próprio ensino médico;
b) no plano cultural, a fantasia herdada do período romântico ainda está em voga, atribuindo-se ao doente a responsabilidade integral pelo seu adoecimento. Faz pouco tempo que ouvi uma pessoa com instrução universitária pontificar que um colega ficara tuberculoso devido a uma decepção amorosa, repetindo uma ideia própria do século XIX. As estruturas mentais alteram-se num ritmo de tempo bem inferior às aceleradas inovações no mundo médico-tecnológico.

Leia em HCS-Manguinhos:

Bertolli Filho, Claudio. Antropologia da doença e do doente: percepções e estratégias de vida dos tuberculosos. Fev 2000, vol.6, no.3

Altink, Henrice. The black scourge? Race and the Rockefeller Foundation’s tuberculosis commission in interwar Jamaica. Oct 2017, vol.24, no.4

Cavalcanti, Juliana Manzoni. Uma história institucional da tuberculose no Chile: o Programa de Controle da Tuberculose, 1973-2013. Dez 2016, vol.23, no.4

Martins, William de Souza. A clausura enferma: petições para a saída do Convento da Ajuda no Rio de Janeiro para tratamento de doenças contagiosas, c.1750-1780. Set 2016, vol.23, no.3

Bedrikow, Rubens. Esclarecendo o caso dos homônimos Manoel de Abreu. Set 2015, vol.22, no.3

Vianna, Paula V. Carnevale, Zanetti, Valéria and Papali, Maria Aparecida Geografia, saúde e desenvolvimento urbano no interior paulista na passagem para o século XX: Domingos Jaguaribe e a construção da Estância Climática de Campos do Jordão. Dez 2014, vol.21, no.4

Costa, Luís Manuel Neves. A Assistência da Colónia Portuguesa do Brasil, 1918-1973. Jun 2014, vol.21, no.2

Herrero, Maria Belen and Carbonetti, Adrian. La mortalidad por tuberculosis en Argentina a lo largo del siglo XX. Jun 2013, vol.20, no.2

Ayres, Lílian Fernandes Arial et al. As estratégias de luta simbólica para a formação da enfermeira visitadora no início do século XX. Set 2012, vol.19, no.3

Ortega Martos, Antonio Miguel. ¿Colonialismo biomédico o autonomía de lo local? Sanadores tradicionales contra la tuberculosis. Dic 2010, vol.17, no.4

Álvarez, Adriana. La experiencia de ser un ‘niño débil y enfermo’ lejos de su hogarel caso del Asilo Marítimo, Mar del Plata (1893-1920). Mar 2010, vol.17, no.1

Santos, Luiz Antonio de Castro and Faria, Lina Em busca da aldeia sanitária: tuberculose, saúde e cultura na Argentina desde finais do século XIX. 2010, vol.17, no.3

Zanetti, Valéria et al. Boletim Médico: prescrição dos tisiólogos para a cura da cidade de São José dos Campos (1930-1935). 2010, vol.17, no.3

Fernandes, Tania Maria. Sol e trevas: histórias sociais da tuberculose brasileira. Dez 2004, vol.11, no.3

Antunes, José Leopoldo Ferreira et al. Tuberculose e leite: elementos para a história de uma polêmica. Dez 2002, vol.9, no.3

Armus, Diego. Milonguitas” en Buenos Aires (1910-1940)tango, ascenso social y tuberculosis. 2002, vol.9

Sheppard, Dalila de Sousa. A literatura médica brasileira sobre a peste branca: 1870-1940. Jun 2001, vol.8, no.1

Pôrto, Ângela. A vida inteira que podia ter sido e que não foi: trajetória de um poeta tísico. Fev 2000, vol.6, no.3

Bertolli Filho, Claudio. Antropologia da doença e do doente:percepções e estratégias de vida dos tuberculosos. Fev 2000, vol.6, no.3

Carbonetti, Adrián Carlos Alfredo. La tuberculosis en la literatura argentinatres ejemplos a través de la novela el cuento y la poesía. Feb 2000, vol.6, no.3

Gonçalves, Helen. A tuberculose ao longo dos tempos. Out 2000, vol.7, no.2

Soares, Pedro Paulo. A dama branca e suas faces: a representação iconográfica da tuberculose. Out 1994, vol.1, no.1

Leia no Blog de HCS-Manguinhos:

Liga de 1900 é marco na luta contra a tuberculose no Brasil
Em entrevista para o Especial Tuberculose da Agência Fiocruz de Notícias, a historiadora da Casa de Oswaldo Cruz Dilene Raimundo do Nascimento abordou o trabalho de médicos e intelectuais do início do século passado

Suíça brasileira
Artigo em HCS-Manguinhos discute a construção da estância climática de Campos do Jordão sob influência do médico, geógrafo e empreendedor Domingos Nogueira Jaguaribe Filho

Uma breve história da tuberculose
Publicação bilíngue (inglês/português) da Universidade de York traz imagens e textos analíticos

‘La ciudad impura’, de Diego Armus, disponível para download gratuito
Livro reconstrói a história social da tuberculose em Buenos Aires entre 1870 e 1950

Retratos dos pulmões
Reportagem da Pesquisa Fapesp aborda a invenção da abreugrafia, a máquina para detectar tuberculose, rememorada no livro O mestre das sombras – Um raio X histórico de Manoel de Abreu.

Como citar este post:
“Ainda se atribui ao paciente tuberculoso a responsabilidade pela doença”, afirma Cláudio Bertolli Filho. Blog da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2018. Publicado em 24 de março de 2018. Acesso em 24 de março de 2018. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/ainda-se-atribui-ao-paciente-tuberculoso-a-responsabilidade-pela-doenca-afirma-claudio-bertolli-filho/

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