A saúde entre dois mundos: escravos e libertos atuavam como sangradores e parteiras no século XIX

Novembro/2017

Christina Queiroz | Revista Pesquisa Fapesp | ED. 261

 

 

Cirurgião negro colocando ventosas. Aquarela de Jean Baptiste Debret, 1826.

No Rio de Janeiro do século XIX, os médicos, cirurgiões e boticários eram em sua maioria brancos e pertenciam a classes sociais mais abonadas. Já os sangradores, curandeiros, parteiras e amas de leite eram quase sempre escravos, libertos e pessoas livres empobrecidas, entre elas imigrantes e africanos livres. Era essa população desfavorecida que tratava dos problemas de saúde mais urgentes de quem precisava, não importava se ricos ou pobres. Os sangradores ofereciam seus serviços pelas ruas e praças das cidades e em lojas de barbeiros, enquanto as parteiras trabalhavam em ambientes domésticos, cuidando de questões relacionadas não apenas ao parto, mas também a abortos e doenças genitais.

Entre 1808 e 1828, a Fisicatura-mor, órgão criado pelo governo central e sediado no Rio de Janeiro, naquela época a capital do Império, fiscalizava e regulamentava as “artes de cura”, incluindo tanto as atividades praticadas por médicos como aquelas desenvolvidas por pessoas sem formação acadêmica. O órgão estabelecia que os médicos deveriam diagnosticar e tratar de doenças internas do corpo, enquanto cirurgiões se ocupavam de moléstias externas. Já os boticários manipulavam os medicamentos receitados por médicos e cirurgiões.

“Oficialmente, sangradores e parteiras deveriam lidar com casos simples de doença e fazer apenas o que médicos ou cirurgiões mandassem. Porém, a população recorria a eles porque partilhava de suas concepções de doença e saúde”, observa a historiadora Tânia Salgado Pimenta, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz e professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde (COC/Fiocruz).

O cenário acima é descrito em Escravidão, doenças e práticas de cura no Brasil (Outras Letras, 2016), organizado por Tânia Pimenta e o historiador Flávio Gomes, do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No livro, eles apresentam os resultados do projeto de pesquisa realizado na Fiocruz entre 2013 e 2016, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da própria Fiocruz. Os estudos indicam que ofícios centrais à saúde da sociedade brasileira naquele momento eram desempenhados por escravos e libertos, numa época em que a medicina acadêmica disputava espaço com as práticas populares de cura.

Leia a reportagem completa na revista Pesquisa Fapesp

Leia em HCS-Manguinhos:

O exercício farmacêutico na Bahia da segunda metade do século XIX. Pimenta, Tânia Salgado and Costa, Ediná Alves. Dez 2008, vol.15, no.4

Transformações no exercício das artes de curar no Rio de Janeiro durante a primeira metade do Oitocentos. Pimenta, Tânia Salgado. 2004, vol.11, suppl.1

Um guia da vida dos escravos no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX. Pimenta, Tânia Salgado. Ago 2001, vol.8, no.2

Barbeiros- sangradores e curandeiros no Brasil (1808-28). Pimenta, Tânia Salgado. Out 1998, vol.5, no.2

Suplemento Saúde e Escravidão (vol.19  supl.1 dez. 2012)
Treze artigos do suplemento temático revelam como viviam, adoeciam, eram curados ou morriam os escravos e libertos no Brasil.

Arqueologia da escravidão em fazendas jesuíticas: primeiras notícias da pesquisa. Symanski, Luís Cláudio P. and Gomes, Flávio. Dez 2012, vol.19, suppl.1

A demografia atlântica dos africanos no Rio de Janeiro, séculos XVII, XVIII e XIX: algumas configurações a partir dos registros eclesiásticos. Gomes, Flávio. Dez 2012, vol.19, suppl.1

Sobre escravos e genes: “origens” e “processos” nos estudos da genética sobre a população brasileira. Artigo de Elena Calvo-González (vol.21, no.4, dez 2014)

Fronteira, cana e tráfico: escravidão, doenças e mortes em Capivari, SP, 1821-1869, artigo de Carlos A. M. Lima (vol.22, no.3, jul./set. 2015).

Relatos de Luís Gomes Ferreira sobre a saúde dos escravos na obra Erário mineral (1735)artigo de Alisson Eugênio (vol.22, n.3, jul./set. 2015)

Perigosas amas de leite: aleitamento materno, ciência e escravidão em A Mãi de Familia, artigo de Karoline Carula (vol.19, supl.1, dez. 2012)

‘Amas mercenárias’: o discurso dos doutores em medicina e os retratos de amas – Brasil, segunda metade do século XIX, artigo de Sandra Sofia Machado Koutsoukos (vol.16, no.2, jun 2009)

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