‘A prática esportiva é chave para entender a sociedade’

Março/2015

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Victor Melo

Victor Melo

Formar uma rede ibero-americana de história do esporte que propicie a pesquisadores a possibilidade de desenvolver iniciativas conjuntas voltadas para a região é o intuito do Seminário Ibero-Americano de História do Esporte, que será realizado em 12 e 13 de maio no Campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O evento é parte das comemorações pelos dez anos do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer da UFRJ, coordenado pelo historiador Victor Andrade de Melo.

O professor é autor de quatro artigos em HCS-Manguinhos, o mais recente deles publicado na última edição da revista de 2014. Em “O corpo da nação: posicionamentos governamentais sobre a educação física no Brasil monárquico”, escrito em co-autoria com Fabio de Faria Peres, Andrade de Melo investiga os sentidos e significados atribuídos ao tema na legislação e nos relatórios anuais do Ministério dos Negócios do Império (1831-1889), principalmente no Rio de Janeiro. O blog de HCS-Manguinhos entrevistou o autor.

Como o surgimento da educação física no Brasil se relacionou a projetos de construção de nação no regime monárquico?

Antes de tudo, há que se dizer que o que se chamava de educação física no século XIX guardava diferenças com o que hoje mais comumente costumamos considerar. Hodiernamente, mais fortemente a relacionamos a uma disciplina escolar, a uma área de formação profissional. No século XIX, era um termo mais genérico, que englobava todos os cuidados com o corpo, ainda mais enfaticamente ligado à saúde e higiene. Desde a independência, mas ainda mais a partir de meados da centúria, essa passou a ser uma preocupação relacionada ao futuro do país, relacionada à adesão a ideias de civilização e progresso. Isso trouxe repercussões em vários âmbitos, inclusiva no escolar.

A primeira prática corporal a ser oferecida em colégios, contudo, foi a dança, uma prática que se tornou muito valorizada num momento em que as elites começaram a mais frequentemente se encontrar na cena pública. As sociedades dançantes foram uma das primeiras agremiações a se tornarem usuais. Posteriormente, em especial depois da Guerra do Paraguai, quando grassaram preocupações com a defesa nacional, a ginástica iria assumir esse papel protagonista.

O esporte somente se tornaria mais usual nas escolas no século XIX, ainda que já fosse uma prática cultural muito valorizada na centúria anterior. A propósito, é bom deixar claro que as preocupações com a saúde e higiene manifestas ao redor das práticas corporais também se observam em meios não-escolares e que a valorização dessas práticas na sociedade se deve menos às injunções da medicina e da pedagogia, e mais de um mercado de entretenimento que se gestava desde meados do século XIX, articulado com todo esse processo antes descrito.

Como concepções de moral, saúde e civilização influenciaram a formação da educação física no Brasil?

As ideias que chegavam do continente europeu foram as influências primordiais no que tange ao aumento de preocupações com a educação física. Todavia, desde muito cedo, houve preocupações de adaptar tais noções ao quadro específico e conjuntural do país.

Que fatores atrapalhavam o avanço da educação física no Brasil?

Questões estruturais mais do que qualquer coisa, ainda que também ressalvas do tipo cultural. A dificuldade de construção de uma rede de saúde e saneamento para todo conjunto da população, ainda que avanços notáveis possam ser perceptíveis no século XIX, constituíram-se em problemas centrais. Em relação à escola, havia dois tipos de elementos dificultadores: a falta de mão de obra preparada para atuar – ainda que muitos professores já tenham se destacado e deixado suas marcas na história – e a própria estrutura escolar, mal preparada até mesmo para as disciplinas ordinárias, que dirá para uma que necessita de equipamentos específicos.

Quais os principais entraves hoje?

No que tange à ordem social, seguem muitos problemas já observáveis no século XIX. Acrescenta-se, ainda, a falta de equipamentos adequados em muitas regiões da cidade, em função da especulação imobiliária, do avanço da violência, da degradação do espaço urbano. Nas escolas, ainda que os avanços sejam inegáveis, seguem ainda as dificuldades com material e instalações. Acresce-se ainda uma certa desvalorização da disciplina, não poucas vezes considerada entre as menos importantes. Por fim, pendem sobre a disciplina os mesmos problemas que pendem sobre todos os professores: salários ruins, falta de tempo para atualização, excesso de trabalho e injunções conjunturais como a violência.

Qual a importância de se estudar a história do esporte?

Para nós, historiadores do esporte, a prática esportiva é uma chave para entender a sociedade como um todo. Por meio dela podemos entender os mais diferentes elementos de um quadro social, relacionados à política, à economia, à cultura. Vale destacar a enorme penetrabilidade do tema na vida cotidiana. Alguns exemplos: há mais associados à Fifa e ao COI do que à ONU; as maiores audiências mundiais são obtidas pro ocasião de um evento esportivo, a Copa do Mundo de Futebol; há um enorme número de informações esportivas em todos os meios de comunicação. Com tamanho poder, não surpreende que tenham ao redor do esporte se articulado tantos discursos identitários, inclusive muitas narrativas sobre a nação (mas também de gênero, de classe, de ideologia, entre outros). Penso que todo esse processo tenha ficado explícito nas tensões e ambiguidades aparentes na última Copa do Mundo, algo que certamente vai se repetir nos Jogos Olímpicos de 2016.

Qual o objetivo do Seminário Ibero-americano de História do Esporte, que acontecerá no Rio em 12 e 13 de maio de 2015?

Existem muitos estudos e iniciativas internacionais de historiadores do esporte. A maior parte delas, contudo, refere-se ao mundo do norte, Estados Unidos e Europa, como ocorre na maior parte do mundo científico. O intuito é juntarmos gente dos países ibero-americanos para gestar um movimento em comum. O primeiro passo é nos ouvirmos e nos conhecermos. Que semelhanças e dessemelhanças teria o desenvolvimento esportivo em países que têm, de alguma forma, uma trajetória em comum? Mais do que isso, nosso intuito é formar uma rede ibero-americana de história do esporte, atuar em conjunto desenvolvendo iniciativas que digam mais respeito à nossa região – inclusive contrapondo a enorme valorização da língua inglesa, algo que lamentavelmente de forma acrítica e colonizada tem sido referendado por muitas agências acadêmicas e mesmo pela política científica brasileira.

Leia em HCS-Manguinhos:

Melo, Victor Andrade de and Peres, Fabio de Faria O corpo da nação: posicionamentos governamentais sobre a educação física no Brasil monárquicoHist. cienc. saude-Manguinhos, Dez 2014, vol.21, no.4, p.1131-1149. ISSN 0104-5970

Melo, Victor Andrade de. Atividades físicas, saúde e movimentos juvenis em Cabo Verde, 1910-1930Hist. cienc. saude-Manguinhos, Set 2012, vol.19, no.3, p.843-860. ISSN 0104-5970

Silva, Carlos Leonardo Bahiense da and Melo, Victor Andrade de Fabricando o soldado, forjando o cidadão: o doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, a Guerra do Paraguai e a educação física no BrasilHist. cienc. saude-Manguinhos, Jun 2011, vol.18, no.2, p.337-354. ISSN 0104-5970

Melo, Victor Andrade de and Peres, Fabio de Faria Sport, medicina e arte: a ‘ciência encantada’ do corpo nas obras de Thomas EakinsHist. cienc. saude-Manguinhos, Mar 2010, vol.17, no.1, p.33-50. ISSN 0104-5970

Saiba mais:

Página do Seminário Ibero-Americano de História do Esporte
Como citar este post [ISO 690/2010]:
‘A prática esportiva é chave para entender a sociedade’. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 25  March 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/a-pratica-esportiva-e-chave-para-entender-a-sociedade/
 

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