A mulher amazônica na visão de uma dama de Boston do século XIX

Março/2017

“Quando, acabado o trabalho, ela veste por cima de sua saia escura uma camisa branca uma tanto folgada, deixando aparecer seus ombros morenos e enfia nos seus cabelos de azeviche uma rosa ou um galho de jasmim, o aspecto de toda a sua pessoa não deixa de ter sua sedução. Deve-se convir, porém, que o cachimbo, que ela tem o hábito de fumar à noite, prejudica um pouco o efeito geral.” Elizabeth Agassiz, em Viagem ao Brasil: 1865-1866, referindo-se a Esperança, uma índia que lhe abrigava no Pará.

Elizabeth Agassiz

Elizabeth Agassiz – ‘Lizzie’ para os íntimos – era uma mulher de sua época. Americana de Boston, nascida em 1822, casou-se abril de 1850 com o naturalista suíço Louis Agassiz, tornando-se parte ativa na sua vida profissional, ajudando na organização das expedições e na edição do material publicado.

Entre 1865 e 1866, seu marido chefiou a expedição Thayer, que foi do Rio de Janeiro ao Amazonas com uma equipe de 12 pessoas, composta de geólogos, desenhista, ornitólogo, taxidermista e assistentes.

Os escritos de Elizabeth Agassiz sobre a Amazônia demonstram o contraste entre as imagens das mulheres locais – índias e mestiças, habitantes de um mundo diferente e desconhecido – e a sua própria condição de mulher e ‘civilizada’. Os capítulos IV ao XI de Viagem ao Brasil, nos quais está documentada a passagem da expedição Thayer pelas províncias do Pará e Amazonas, trazem importantes referências sobre a vida feminina na região, questão relegada a segundo plano em outros registros.

Este é o foco do artigo “Brincos de ouro, saias de chita”: mulher e civilização na Amazônia segundo Elizabeth Agassiz em Viagem ao Brasil (1865-1866), de Fabiane Vinente dos Santos, publicado em HCS-Manguinhos (vol.12 no.1 Jan./Apr. 2005).

Segundo a autora, em uma época em que o controle dos corpos e da intimidade era regra, na Amazônia as índias e mestiças aparecem no relato dos Agassiz como portadoras de um grau diferenciado de autonomia, trabalhando na roça sozinhas durante o dia, deslocando-se de canoa pelos igarapés, movimentando-se e trabalhando sem a supervisão dos homens. Esta situação, entretanto, não conflui para a institucionalização de um sentido de equanimidade entre os sexos. “A mulher, como se pode perceber durante vários trechos do relato, ainda é o elemento submisso da sociedade amazônica, embora esta submissão possua nuanças diferenciadas”, afirma Fabiane.

Ela conta que a Elizabeth Agassiz se impressionava com a atenuação de restrições sociais relativas ao comportamento sexual, como no caso das mães solteiras: “Enquanto nas cidades ter um filho sem pai poderia representar um escândalo capaz de comprometer a reputação de uma família inteira, entre as índias é com assombro que a cronista constata o que julga como ausência do conhecimento ‘das leis mais elementares da moral’.”

Segundo Fabiane, “o sentido ocidental de moral que baliza as observações da dama bostoniana em vários trechos de seu relato é apresentado como condição sine qua non para o êxito do projeto civilizatório nos trópicos.” Elizabeth Agassiz foi a primeira presidente do Radcliff College, fundado em 1894 como instituição anexa à Universidade de Harvard e destinado à formação de mulheres.

Leia em HCS-Manguinhos:

“Brincos de ouro, saias de chita”: mulher e civilização na Amazônia segundo Elizabeth Agassiz em Viagem ao Brasil (1865-1866), de Fabiane Vinente dos Santos, publicado em HCS-Manguinhos (vol.12 no.1 Jan./Apr. 2005).

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