A medicalização do que não é doença

6 de novembro de 2021

Vivian Mannheimer | Blog de HCS-Manguinhos

Em 1952, uma droga recém descoberta em um hospital psiquiátrico de Paris, a clorpromazina, prometia revolucionar o campo da saúde mental. Acreditava-se que finalmente a psiquiatra tinha conseguido a cura para diversas doenças mentais, e que o novo medicamento seria tão importante para o campo da saúde mental como a penicilina tinha sido para a medicina.

Sandra Caponi é autora do artigo Sobre la llamada revolución psicofarmacológica: el descubrimiento de la clorpromazina y la gestión de la locura. História, Ciências, Saúde-Manguinhos [online]. 2021, v. 28, n. 3.

Em um artigo publicado na última edição de HCS-Manguinhos, Sobre la llamada revolución psicofarmacológica Sandra Caponi, professora do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Federal de Santa Catarina, questiona essa ideia. 

Para ela, a função da droga era deixar os pacientes tranquilos, portanto, não teria havido uma ruptura em termos de efeito terapêutico, uma vez, que os efeitos continuavam sendo os mesmos dos tratamentos já existentes na época: a indiferença, o desinteresse, a calma e a disciplina.

De Paris, onde estava em uma missão de trabalho como coordenadora de um Projeto Capes- Cofecub, em conjunto com a Universidade Paris 8 – A disseminação dos saberes expertos no domínio da infância – Sandra conversou com o nosso blog por zoom sobre a medicalização da saúde mental e da infância na perspectiva das ciências humanas.

Você trabalha há muitos anos com temas como a medicalização da saúde mental e da infância. Dentro desse universo, quais são as grandes discussões e enfoques historiográficos?

Essa é uma temática que foi ganhando cada vez mais interesse nos últimos dez anos pela quantidade de crianças usando medicamentos psiquiátricos. Como esses diagnósticos não são nada precisos, vemos pesquisadores de diversos âmbitos – sociologia, ciências sociais, história – que se debruçam sobre o tema da medicalização, em particular, da infância, uma vez que essa não é uma decisão autônoma da criança, mas envolve outras questões, como o papel da família e da escola. Muitas vezes as famílias não têm escolha e devem aceitar o diagnóstico, mesmo sem estar de acordo. Então, há algumas questões éticas, sociológicas, históricas e epistemológicas muito interessantes para serem discutidas. 

Da perspectiva da história da psiquiatria, eu diria que há duas ou três abordagens historiográficas bem interessantes. Uma é a história das instituições, a história dos hospitais psiquiátricos e dos processos de desmanicomialização. Outra possibilidade historiográfica muito interessante é o trabalho com arquivos. Temos trabalhos riquíssimos como os de Cristiana Facchinetti ou Viviane Borges. Elas trabalham com dados, prontuários, registros, desenhos e documentos que estão presentes nos arquivos dos hospitais psiquiátricos.

No meu caso, eu trabalho com uma perspectiva arqueológica ou genealógica, tento analisar questões do presente, a partir de uma problematização da história da psiquiatria que permita elucidar e entender de que modo começaram esses processos, que hoje parecem naturais e necessários, de intervenção médica nos sofrimentos e comportamentos considerados “anormais”.

Quando analisamos esses movimentos históricos iniciais, podemos observar que existem embates entre diferentes grupos, controvérsias e relações de poder. No caso específico da psiquiatria, a indústria farmacêutica aparece como um elemento muito importante para entender as relações de poder e a influência dos laboratórios na construção da psiquiatria moderna. 

Pensando sobre quais seriam os temas mais discutidos, um deles é a questão dos diagnósticos. É muito interessante ver como esses Manuais Diagnósticos e Estatísticos de Transtornos Mentais (DSMs) foram mudando ao longo da História e existem excelentes trabalhos sobre isso. Outra questão é problematizar as diferentes terapêuticas utilizadas ao longo do tempo, um tema cada vez mais abordado. Por outra parte, devemos considerar que a psiquiatria não é só asilar, não atua só dentro do hospital psiquiátrico, temos que pensar também de que modo a psiquiatria se vincula com a sociedade em seu conjunto, fora do hospital psiquiátrico, psiquitrizando sofrimentos e comportamentos considerados socialmente indesejados.

Então, os grandes eixos de trabalho são, para mim, o diagnóstico, a instituição e as terapêuticas. Entender como as estratégias terapêuticas são empregadas e em que sentido essas estratégias terapêuticas são consideradas eficazes, funcionais. Entender questões como o que quer dizer, no campo da psiquiatria, que uma estratégia terapêutica funciona? Por que, por exemplo, durante algum tempo se achou que a lobotomia era uma boa terapêutica?  

Seu livro “Loucos e Degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada”, publicado em 2012 pela editora Fiocruz, fala sobre a medicalização de estados não patológicos, como a tristeza profunda, utilizando Foucault como referencial teórico. Como as ideias de Foucault se relacionam com esses temas?